sexta-feira, 6 de março de 2015

O Lírio Vermelho, de Anatole France

                                                                     

Antes de contar sobre o livro, uma história que explica como ele chegou a mim. Ano passado organizei três bazares de livros, muitos foram para levar e trocar seus livros, uma senhora bastante idosa veio até mim, estava com o porta-malas de seu carro lotado de livros. Muitos e muito antigos. Separei vários para ficar comigo. E os coloquei na pilha a serem lidos. Mês passado peguei esse romance de Anatole France, uma edição velhinha, de 1955, empoeirado, sujo, amassado, mas de capa dura e folhas grossas. Fui folhando e descobri dentro dele notas e mais notas de dinheiro. O dono do livro tinha o hábito de guardar dinheiro dentro de livros, imagino. Guardou e esqueceu 18 notas distribuídas entre as páginas do livro todo. Notas de cinco cruzeiros, que não valem mais nada, com a cara do Barão do Rio Branco e no verso um quadro retratando a conquista do Amazonas.  Esse “O Lírio Vermelho”, de Anatole France, começou para mim desse jeito.
É um grande livro de um escritor magistral. Já tinha lido dele “As sete mulheres do Barba Azul” mas este é melhor. Prêmio Nobel da Literatura de 1921, Anatole France escreveu esse romance em 1894. Consegue defender muitas ideias sobre a política, Napoleão, a Revolução Francesa e sobre a Europa e ainda contar uma história de amor em um livro com umas duzentas páginas. É por isso que não gosto mais de ler romances com 600 páginas. Conseguir dizer muito com certa redução só um escritor formidável como esse, um dos últimos clássicos, que influenciou, posteriormente, Marcel Proust, consegue.
Cito aqui dois trechos: “Toda ideia falsa é perigosa. Quem pensa que os utópicos não são prejudiciais, engana-se, pois fazem-no e muito. As utopias mais inofensivas na aparência, exercem uma realidade, uma influência prejudicial! Tendem a inspirar o desprezo da realidade”. E o seguinte serve bem para relativizarmos com esse momento de recrudecimento de fanatismos: “Sem os árabes e judeus, a Europa estaria ainda mais mergulhada na barbárie, no tempo das cruzadas, na ignorância, na miséria e na crueldade”.
O lírio que dá nome ao livro é a flor típica da Toscana, onde se passa uma parte da estória. A outra parte se passa nos salões de festa de Paris, onde a jovem, bela e entediada Teresa vive sua vida entre um marido nobre e um amante jovem a quem ama.  Para a sociedade do século XVIII e XIX era uma coisa normal. Teresa é casada com um homem mais velho e de família tradicional, pois seu pai é um nouveau riche sem entrada nos círculos aristocráticos da cidade. Um integrante desse acordo entra com a nobreza e Teresa com o dinheiro paterno. E marido, amante, amigos, todos ceiam juntos, debatem sobre a personalidade de Napoleão, escutam música e vivem sua vida em que nada precisa mudar. Ela não tinha arranjado amante nenhum até tempos atrás, pois não queria entrar nessa frivolidade, somente se entrega a esse primeiro amante ao perceber que ele a ama, fica nervoso quando ela está por perto. Mas um dia, ele que era tão dedicado a ela, tudo conversava e decidia com ela, resolve uma viagem e ela só fica sabendo de sua decisão por terceiros. É por isso que termina o romance, sem ao menos dizer adeus. Sai do apartamento onde se encontravam e sabe que foi a última vez que esteve lá. Um homem marca de ir à caça e tudo já terminou. Parece banal, só um ato, mas para ela é só um sinal de que nada é mais o mesmo.
Sai de Paris, vai passar os meses do verão em Fiesole, cidadezinha nos arredores de Florença, e lá se apaixona novamente por um jovem que também se apaixonou por ela. É ele o utópico, sonhador, que motiva a frase que escrevi acima. Um ciumento possessivo que não aceita seu passado com o outro amante. Quanto ao marido, esse não conta nada, tudo pode continuar como esta. O livro começa com ela deixando o primeiro amante e termina quando deixa o segundo. O romance é a história desse segundo amor que se passa na Toscana. É ele, o jovem sonhador, que lhe dá o lírio que ferirá seu coração.

Assim, já conto o final: todas as histórias de amor terminam não dando certo e é ela que vai embora com uma determinação não muito comum nas mulheres. Anatole France criou uma personagem feminina que não tenta até o fim fazer o amor dar certo, que sabe muito bem o momento de parar. E sem se afundar na dor. Gostei, embora seja um ideal não muito fácil de manter.

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