quarta-feira, 31 de maio de 2017

O dia depois de amanhã

           O fim do amor é como a explosão de um planeta. O outro não lhe quer mais, o amor que chegou ao fim para um, acaba com o mundo de quem ainda ama.
           A explosão dos polos. Geleiras derretem. O caos. O gelo derretido se transforma em grandes ondas. Você é arrastado. Um turbilhão indescritível de material se chocando. O fim do mundo.
           Submerso, no fundo de tudo que se decompõe, é preciso emergir do caos que o rodeia. O dia seguinte ainda será uma geleira decomposta? E o dia depois de amanhã?
            Uma promessa descumpriu-se. O amor é uma promessa: jura que vai amar, que vai estar junto, que vai caminhar junto, que vai casar e depois desonra tudo.
            Como continuar sendo quem se é com tanta desonra?
            E no dia depois de amanhã, quando já tiver destituído esse amor e encontrar o próximo, o que trará para o novo dos destroços do velho mundo explodido, dos polos derretidos, dos mares revoltos?
             Um mundo se acabou, uma nova ordem se fez a partir do caos, o que disso tudo serve para o dia depois de amanhã?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Panamá Papers: a corrupção e o cinismo são ilimitados




          Em parte de minhas férias li esse livro escrito pelos jornalistas alemães Bastian Obermayer e Frederik Obermaier. Os dois jornalistas do Süddeutsche Zeitung, o jornal alemão, começaram a receber, de uma fonte anônima, e-mails com documentos do Banco do Panamá Mossack Fonseca. E a cada dia recebiam mais e-mails com documentos scanneados de aberturas de contas, troca de mensagens, operações financeiras de milhões e bilhões de dólares, etc. E foram percebendo a importância do material recebido, políticos, empresários e artistas do mundo inteiro com dinheiro escondido no banco do Panamá. E perceberam a gravidade da evasão de divisas em milhares de offshores mantidas pelo banco.
       Os documentos chegaram a mais de dois terabytes e não teriam como ler e investigar tudo. Começaram a trabalhar com um Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), e depois foram convidando jornalistas de todo o mundo para participar dessa pesquisa inicial. Mais de 100 jornalistas, alguns brasileiros, inclusive, estiveram nessa pesquisa denominada Panamá Papers.
         Os parentes próximos de praticamente todos os ditadores da África têm contas com milhões de dólares na Mossack Fonseca. O melhor amigo de Putin, o violoncelista Sergei Roldugin, padrinho de sua filha mais velha, tem offshores com bilhões de dólares. Só em uma operação, um banco de Malta, recebeu dinheiro de Moscou e enviou à Mossack 200 milhões de dólares. Os filhos do primeiro ministro do Paquistão têm milhões em contas lá. A mulher do primeiro ministro da Islândia também – ele pediu demissão do cargo ano passado, quando o escândalo veio a público. Todos os dirigentes da FIFA têm também. O cunhado de Xi Jinping, o presidente da China também.
          Em função de uma investigação interligada entre a Argentina e o Estado de Nevada, nos EUA, os dois jornalistas se debruçaram sobre os papéis em busca de evidências de que Cristina Kirchner e seu falecido marido tivessem conta na Mossack Fonseca, sendo culpados de evasão de divisas, confirmando a suspeição da investigação judicial em curso. Não encontraram pistas e concluíram que o casal não tinha conta fantasma no Mossack Fonseca. Mas Maurício Macri tem. Duas. E Lionel Messi também. No nome dele e de seu pai.
        O pai de David Cameron também tem. O ex-primeiro ministro britânico respondeu aos jornalistas do SZ que a conta de seu pai não dizia respeito a ele, não tinha feito nenhuma movimentação nela. Mas não foi bem isso que os jornalistas descobriram.
              Minha grande decepção: o filho de Kofi Annan também tem. Logo ele que sempre criticou tanto a evasão de divisas e seu efeito catastrófico para o povo africano. Um continente tão rico quanto injusto, com ditadores milionários e o povo morrendo de fome.
               Uma história do livro que achei uma lição do tanto que alguém pode ser cínico. O quadro de Modigliani ´O Homem sentado apoiado em uma bengala´ foi roubado pelos nazistas de um colecionador judeu, em Paris, durante a II Guerra Mundial. Sumiu e apareceu em diversos momentos nas últimas décadas. Anos atrás apareceu em uma exposição de uma galeria em Nova York. Maestracci, o herdeiro do colecionador, entrou na justiça americana pedindo o quadro ao dono da galeria que o expôs, a Nelly Nahmad Gallery. Nelly Nahmad, o milionário, responde diante de um juiz que o quadro não era dele, estava emprestado de uma firma chamada International Art Center. Com isso, Maestracci retira o processo. Com o Panamá Papers, ano passado, se descobre que essa firma tem conta no Mossack Fonseca e pertence a Nelly Nahmad. Como alguém tem a coragem, o cinismo de, diante de um juiz, e do herdeiro de um quadro em que seu proprietário foi roubado pelos nazistas e, provavelmente, foi perseguido, dizer ‘o quadro não é meu’, sendo seu?
          Também se percebe que muitos milionários abrem firmas e contas fantasmas para comprar mansões, iates, obras de arte etc. Não vamos tão longe, Joaquim Barbosa, o ex-ministro do STF comprou um apartamento em Miami no valor de 335.000 dólares, abrindo offshore na Mossack Fonseca. E sem pagar o imposto de transferência do dinheiro. Isso nem aparece no livro. É coisa tão pequena diante dos escândalos listados lá. Mas pudemos ler isso na imprensa brasileira ano passado, quando o escândalo estourou. É só digitar no google Joaquim Barbosa Panamá Papers e a história está toda lá.
              E também encontramos no google a lista de todos os políticos e empresários brasileiros que tinham conta lá. O primeiro deles, Eduardo Cunha.
                 Enfim, com tudo isso quero dizer que é muito instrutivo ler esse livro. Indico a todos. A corrupção gigantesca e permanente de tantos seduzidos pelo poder e pelo dinheiro, sem o mínimo de ética e de respeito às leis está tão evidente. Dá nojo saber, mas não se pode virar as costas a isso.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Amanhã, com a chuva, será outro dia



Os Tambores da chuva, de Ismail Kadaré, é um livro para mostrar que um poderoso exército pode fracassar diante da determinação do inimigo. É para mostrar que toda dominação tem seus limites e, creio eu, que numa guerra o ser humano mostra o seu pior, sua crueldade, sua barbárie, seu desprezo pelo próximo e, mais ainda, para o estranho, estrangeiro, cristão, muçulmano, outro, héteros, o diferente. E para qualificar essa baixeza do ser humano-guerreiro não serve nem ao menos dizer que vira animalesco, pois os animais não mostram vingança, crueldade, vaidade. Numa guerra intestina, o ser humano é humano e não animalesco. E sempre perde, todos perdem. Assim entendi o romance. Se é que se pode tirar uma moral da guerra.
Na segunda metade do século XV, o exército otomano faz um cerco a uma fortaleza cristã na Albânia, pequeno país dos Balcãs. É a cidadela do herói nacional albanês Gjergi Kastriot Skënderbeu. Sei pela história que essa fortaleza cristã defendida por Skënderbeu foi atacada quatro vezes, no período de vinte e cinco anos, e só sucumbiu na quarta vez. O cerco contado no livro ocorreu depois da tomada de Trebizonda e antes da de Constantinopla pelos turcos. Então, no começo do livro, quem sabe um pouco da história da Albânia, já sabe que esse cerco será fracassado e que os turcos, ao final, recuarão derrotados.
O paxá Tursum, comandante-chefe do cerco, posto como um general para o ocidente, precisa conquistar a cidadela para não cair em desgraça junto ao sultão. Estão mais de três meses nesse cerco, já tentaram quase tudo. Um novo e moderno canhão que iria derrubar os muros. Não derrubou. Várias tentativas de soldados invadirem subindo pelos muros; bolas de piche catapultadas para dentro da cidadela. Os turcos constroem um túnel, os albaneses percebem e o afundam com todos os soldados que estavam nele sendo soterrados. Nada funcionou. Então a cúpula dos assessores do paxá, junto com o próprio, decide o próximo passo: infectar animais com doenças e jogarem para dentro da cidadela. O risco é que uma peste negra – outra, pois tinham vivido recentemente uma – espalhe-se pelo mundo. Mesmo assim, tentam: ratos contaminados por doenças são jogados para dentro da cidadela. Não se sabe exatamente como, mas os sitiados conseguiram debelar a ameaça. Os ataques são ferozes, porque o paxá é um homem encurralado. A gente se pergunta quem está mais encurralado, os que estão nas trincheiras ou os que estão presos na cidadela. Kadaré escreve: “não há ataque mais feroz do que aquele desferido por um homem encurralado”.
E assim se passaram mais de três meses, o verão está terminando, o calor atroz começa a ceder e a cidadela continua impenetrável. A última tentativa é descobrir o aqueduto e cortar a água para a cidadela. Depois de muito tentar, cavando, conseguem e cortam a água. Passam-se alguns dias. Abrem a barriga dos soldados capturados nas torres da cidadela e o médico turco já percebe a falta da água. Se chover, os albaneses se fortalecem novamente e eles, turcos, terão de recuar. Isso justifica o nome do livro: os tambores, numa madrugada, anunciam a chuva. Tursum sabe que acabou, acabou o cerco e acabou sua vida. Sua desonra é tanta que antes de se matar, chama uma das mulheres de seu harém, grávida dele, e pede que coloque no filho que terá seu nome e conte a ele a história de quem ele foi. E se mata. Nem essa glória seu nome terá, pois no difícil trajeto de volta para casa, no chacoalhar das carroças, a jovem perde o bebê. Nessa parte, o autor foi bem cruel com seu personagem: não sobrou a ele nada, nem descendência, nem nome, nada.
Dois pontos principais que gostaria de marcar. O primeiro é uma pergunta que o intendente-chefe turco faz ao cronista da guerra: O projeto de extermínio de um povo é realizável? E ele mesmo, intendente, responde: mais do que destruir fortalezas, é preciso desnacionalizar os povos e fazer sua língua e religião desaparecerem. Qual é mais importante tentar apagar, a língua ou a religião? Conclui que é a língua e para exterminar um povo, sua língua deve ser proibida de ser escrita. É difícil proibir de ser falada, mas de ser escrita é possível. Essa é a verdadeira dominação que o Império Otomano sempre tentou em todos os povos conquistados: apagar a língua. Skënderbeu, o herói albanês é um exemplo disso: ele e os três irmãos, filhos de um nobre albanês, foram raptados ainda garotos e obrigados a se aculturarem. Um se matou, outro se tornou eremita e Skënderbeu torna-se soldado do exército turco. Começa a construir a fama de excelente soldado nos campos de batalha. Falava perfeitamente a língua turca, já era um oficial até conseguir uma chance de fugir e voltar ao seu povo. Creio que essa é a discussão que Ismail Kadaré traz e que responde mais ou menos assim: não se apaga a língua materna, não se extermina o passado, as raízes de um sujeito.
E o segundo ponto que quero marcar é como as mulheres são objetos a serem consumidos em todas as guerras. Enquanto esperavam a conquista da cidadela, os soldados turcos saqueavam as vilas vizinhas e as mulheres eram capturadas para o gozo sexual desses tensos soldados no campo de batalha. Eram tão continuamente estupradas que raramente duravam mais do que dois dias. Quando o vencedor invade, as mulheres do povo subjugado são estupradas. Essa história acontece em todas as guerras, em todos os séculos. Mês passado, no facebook estavam todos se escandalizando porque os familiares com jovens pediram permissão para sacrificá-las antes que os soldados sírios rompessem o cerco em Aleppo. Por que isso não muda através dos séculos?

Com esses comentários nem preciso dizer o quanto o livro é bom, e se vocês me acompanharam na leitura até aqui, não podem deixar de ler Os tambores da chuva. Torço muito para que Ismail Kadaré ganhe o Prêmio Nobel de Literatura desse ano.