sábado, 5 de março de 2016

UM POETA E UM CASTELO. E DUAS MULHERES. TALVEZ TRÊS



Mesmo que agora busque um novo laço
com que prender-me, é certo que do antigo
Não me liberto do apertado abraço
Um fogo apaga outro, sempre digo:
E tu, que és meu carrasco nesse passo,
Faz que assim seja, Amor, mas não comigo.
Gaspara Stampa

O presente texto é o desfecho de meses de leitura da obra de Rainer Maria Rilke e da visita a um castelo onde ele começou a gestar uma obra imprescindível para a história da poesia, o Castelo de Duíno, em Trieste. E lá, no castelo, vinha à memória da autora dessas páginas, trechos do ensino de Lacan, no qual ele relacionou o ato analítico com a poesia. Ainda há mais um motivo para escrever o texto: a descoberta, lá, de que Marie Bonaparte frequentou o castelo, tendo ainda livros de psicanálise que retratam seus períodos de leituras freudianas, espalhados pelos cômodos do castelo. A autora foi para encontrar Rilke, e o inesperado foi encontrar Freud.

A poesia é uma violência à língua
Em seu seminário O saber do psicanalista, proferido no final de 1971 e em 1972, na capela do Hospital Sainte-Anne, Lacan está às voltas com a lógica matemática. É preciso revirar a coisa, diz em sua aula de 6 de janeiro de 1972, ainda que a lógica “possa tornar o mundo odioso”, permite não se deter no senso comum, em um sentido fácil. A lógica permite a Lacan apreender o objeto a como “inteiramente estranho à questão do sentido”. Uma outra razão, e escreve RESON[i], como Francis Ponge, como esse grande poeta o faz. Em seguida, após apresentar o poema de Tudal – que já estava citado em Função e Campo da Fala e da linguagem em Psicanálise – diz que ele é um poeta “não desprovido de talento”. Francis Ponge, para Lacan, é um grande poeta[ii], e Antoine Tudal, um poeta menor. Nessa aula desse seminário, há um elogio a um poeta, e certo menosprezo ao outro. Por que? Essa questão me ocupou enquanto estudava para o seminário que proferi em agosto de 2015, no Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza.
Ensaio uma resposta: Ponge garatuja com as palavras. Nessa aula, ele mesmo, Lacan, brinca com o poeta, papua, papuasia. Ele quer abordar a linguagem na sua função topológica (aula de 3 de março de 1972). Isso lhe permitiu, inclusive, fazer sua proposição da lógica da sexuação. “Isso permitiria à psicanálise operar sobre o real, único a estar mais além da linguagem”.
Em Rumo a um significante novo (1977), afirma que a psicanálise tem efeitos de sentido – ela tem relação a isso que é o significante – e isso faz dela uma escroqueria. Mas não mais escroqueria que a poesia. “A poesia se funda precisamente nessa ambiguidade da qual falo e que qualifico de duplo sentido”. (aula de 15 de março de 1977) A poesia faz uma violência à cristalização do uso da língua. A poesia amorosa marca essa violência, alega Lacan. E para isso cita Dante. “A poesia joga inocentemente com o imaginariamente simbólico e com isso ela mostra a verdade sobre a relação sexual”. E, mais adiante nesse seminário, dirá que a verdade é poética, assim como uma interpretação, ela desmancha um sentido.
Por isso Lacan diz que o psicanalista pode ser um poata, um poeta do ato. É a aposta de Lacan de que o ato analítico pode ser uma violência ao sentido, como a poesia também o é, ao sentido e, consequentemente, à língua. “É à medida que uma interpretação justa desmancha um sintoma, que a verdade se especifica em ser poética”. (aula de 19\04\77)

Rilke e o Duíno
Rainer Maria Rilke escreveu suas Elegias do Duíno entre 1912 e 1922. Dez anos para gestar alguns dos mais belos poemas que alguém já escreveu. Seu livro retrata o amor, as perguntas sobre a existência, sobre o tempo, a busca do absoluto, a angústia diante da morte, a solidão, a nostalgia e o amor perdido. O homem, esse anjo terrível, que “vive sem amparo neste mundo definido”. Depois de passar por Roma, Nápoles, Florença, atormentado por seu amor infeliz por Lou Andreas-Salomé, chega a Trieste e ao castelo.
Escreveu as primeiras elegias no Castelo do Duíno, nos arredores de Trieste, quase fronteira com a Eslovênia. O castelo é majestoso, construído sobre um rochedo, numa ponta de terra que avança mar adentro, com todas suas janelas penduradas sobre o Mar Adriático. Nele, Rilke perdeu o bloqueio criativo em que estava e começou a gestar essa obra. O Castelo é propriedade há séculos da família de nobres Torres e Tasso, e já foi local de veraneio para muitos escritores, artistas e nobres através dos tempos. Uma parte da Divina Comédia foi escrita lá; depois de uma temporada de férias nele, em 1914, Francisco Ferdinando saiu do castelo, pegando o trem para ser assassinado em Sarajevo.
Sabemos da paixão que Rilke declarou por Lou Andreas-Salomé. Escreveu para ela as palavras mais lindas que um homem pode escrever a uma mulher.  “Apaga-me os olhos: ainda posso ver-te, tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te.” E continua para, no fim do poema, afirmar que a traz em seu sangue. E em outro, escreve que o amor de um ser humano por outro é a experiência mais difícil para cada um de nós, “o mais superior testemunho de nós próprios, a obra absoluta em face da qual todas as outras são ensaios”. Quando a conheceu tinha vinte e dois anos, ela era quinze anos mais velha que ele. Estava casada, já tinha descartado a proposta amorosa de Nietzsche, já tinha fugido de casa e da terra pátria, a Rússia. E já era uma escritora conhecida. Ainda não tinha se aproximado de Freud e da Sociedade Psicológica das Quartas-feiras. Depois de um desentendimento com ela, ele viaja à Itália. Rilke chegou a mudar de nome sob a influência dela: ela achava que René não lhe ficava bem, não para um poeta que iria ter a projeção que ele teria no futuro. Foi ela a primeira pessoa a ver nele o escritor que ele iria se tornar. Mas não queria se separar do marido, o acomodou em uma casa próxima de sua casa e se encontravam muito, viajavam juntos, foram duas vezes juntos a amada Rússia, terra natal dela. Uma vez os três, Rilke, Salomé e o marido. E a segunda vez só Rilke e Salomé. Para essa viagem ele se preparou, estudou sobre a Rússia. E ela o apresentou a Tolstói.
Se essas primeiras elegias foram gestadas em um momento de turbulência em seu relacionamento com Lou Andreas-Salomé, se ela foi a inspiração para a elegia (“sim, as primaveras precisavam de ti”) o nome de mulher que aparece na primeira elegia é o de Gaspara Stampa. O poeta escreve que está distraído, à espera da amada. E se a nostalgia vier, ele cantará as amantes, essas abandonadas “que te parecem mais ardentes que as apaziguadas”. E mais adiante: “Com que fervor lembraste Gaspara Stampa, cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou como ela? Frutificarão afinal esses longínquos sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-lo, frementes?”
Gaspara Stampa (1524-54), poetisa do Século XVI, nascida em Pádua, apaixonada aos vinte e quatro anos por um conde, por quem tinha uma devoção desesperada. Tiveram um relacionamento breve e depois ele não mais retribuiu seu amor. Ela endereçou a ele, Conde Collaltino, seus poemas de amor. E o intitulava de “meu ilustre senhor”. “Extinta” sua paixão pelo conde, se apaixona por Bartolomeu Zen, e escreve para ele quatorze sonetos de amor. O amor pelo veneziano Bartolomeu suplantou seu sentimento desesperado pelo conde? Creio que a epígrafe desse texto, parte de um soneto de Gaspara, responde a pergunta.
Ela morreu aos trinta anos, depois de quinze dias de uma febre intensa que não cedia. Dois anos depois que Collaltino tinha se casado. Na verdade, sua febre intensa foi o amor. Uma amante, uma ardente, febril, diferente de uma apaziguada, como Rilke retrata em sua primeira elegia.


Marie Bonaparte e o Duíno
Essa princesa grega e dinamarquesa, aparentada de várias famílias reais da Europa, sobrinha-bisneta de Napoleão Bonaparte, riquíssima, conheceu Freud quando tinha cerca de quarenta anos. Estava à beira do suicídio e sua análise com Freud, que durou mais de 15 anos, não apenas salvou sua vida, mas lhe trouxe uma paixão e entusiasmo que carregou até o final: a psicanálise. E é graças a ela que Freud e sua família não foram exterminados pela Gestapo e que a obra freudiana pôde deixar a Áustria e chegar intacta a Londres. Ela investiu sua energia, seu dinheiro e seu tempo para fazer a psicanálise prosperar. Foi a grande embaixadora da Sociedade Psicanalítica de Paris, afirma Elizabeth Roudinesco. Sua importância para a psicanálise ter prosperado na França também é inquestionável.
Em 1949, Eugênia, a filha de Marie, casa-se em segundas núpcias com o Príncipe Raymond de Thurn and Taxis. O príncipe é o herdeiro do castelo de Duíno. E três anos depois nasce Carlos Alessandro della Torre e Tasso[iii]. É esse neto que foi entrevistado pela jornalista italiana Francesca Graziano e que conta a ela várias histórias dessa avó famosa. Não há no livro nada que conte sobre suas estadias no castelo.
Segundo Roudinesco, “com essa mulher que o cumulava de presentes, Freud manifestou o seu extraordinário gênio clínico. Gostava tanto dela que, para recompensar sua fidelidade, ofereceu-lhe, como fizera a Lou Andreas-Salomé, um dos famosos anéis reservados aos membros do Comitê Secreto”. Assim, tanto Lou Andreas-Salomé quanto Marie Bonaparte, as duas mulheres a quem Freud tinha tanta confiança, se enlaçam, cada uma a sua maneira, à história do Castelo de Duíno. E também, indiretamente, Gaspara Stampa, pois Rilke a colocou no castelo, em sua primeira elegia do Duíno.

E deixando o castelo
E também podemos pensar em uma quarta mulher envolvida com o castelo, essa que vos escreve, que leu toda essa história e quis ir até lá, andar por seus cômodos e olhar o Adriático, esse gigante azulado que bate sobre as rochas, sobretudo nas grandes noites de verão, “as grandes noites de verão, e as estrelas, as estrelas da terra”, escreveu Rilke. Para ela, essas estrelas também pareceram maiores nessas noites que passou em Trieste. Talvez influenciada por Rainer Maria Rilke, talvez influenciada pela história, achou que a estrelas brilhavam para ela.  

Referências bibliográficas
Graziano, Francesca. Marie Bonaparte, la Principessa della psicoanalisi. Trieste: Edizioni Fenice Trieste, 2005.
Lacan, Jacques. Função e Campo da Fala e da linguagem em Psicanálise. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
_______ O saber do psicanalista (1971-72). Inédito.
______ Rumo a um significante novo. Opção Lacaniana. São Paulo: Edições Eólia, número 22, agosto de 1998.
Ponge, Francis. A mimosa. Coleção Poetas do mundo. Tradução e notas de Adalberto Müller. Brasília: Editora da UnB, 2003.
Rilke, Rainer Maria. Elegias de Duíno. Rio de Janeiro: Editora Globo. 4 ed. Tradução Dora Fereira da Silva. s/d.
Rilke, Rainer Maria; Andréas-Salomé, Lou. Correspondência amorosa. Lisboa: Relógio d’Água, 1994.
Roudinesco, Elizabeth; Plon, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
Stampa, Gaspara; Labé, Louise; Browning, Elizabeth Barrett. Três mulheres apaixonadas. São Paulo: Cia das Letras, 1999.
Thurn und Taxis, Marie von. Ricordo di Rainer Maria Rilke. Trieste: Edizioni Fenice Trieste, 2005.



[i] A homofonia entre résonner [ressoar] e raisonner [raciocinar] permite o jogo de palavras entre réson e raison.

[ii] E não apenas para Lacan. Ponge ganhou vários prêmios literários e ganhou reconhecimento na França e no mundo. Foi lido, debatido, e muitas teses e livros de autores famosos tiveram por tema sua obra. Dentre elas assinalo a de Derrida e de Haroldo de Campos. Ponge brinca com os significantes, e usa a palavra em sua sonoridade como Manoel de Barros também o fez. Em seu livro A mimosa, usa o arbusto, a mimosa pudica, e diz o porquê: minha sensualidade infantil acordou sob os sóis da mimosa. E desfia os significantes: mimosa, mimosa sans moi, mimésis, le mimosa et moi, le mimosa lui-mêmê. E ainda: como em tramaga há trama, em mimosa há mimo [como dans tamaris il y a tamis, dans mimosa il y a mima]. É uma poesia tão difícil de ser traduzida. Nessa edição que tenho, abundam notas de rodapé. E não poderia ser diferente. Uma pequena curiosidade: em agosto passado, no seminário que proferi em Fortaleza, comentei a citação de Lacan sobre Francis Ponge e falei da mimosa pudica. Em meu Estado, MS, a mimosa é chamada de Dorme-dorme. Os colegas cearenses deram dois nomes pelos quais o arbusto é conhecido no Estado: Acorda-Malícia-teu-pai-morreu. E também: Maria-fecha-a-porta-que-teu-pai-vem-bêbado. Enfim, de pudica, no Ceará, a mimosa virou malícia, outro deslizamento possível. E tem pai que não acaba mais nas nominações. Um brinde a poética cearense.    

[iii] Em algumas partes desse livro que consulto, o sobrenome está em inglês [Thurn and Taxis] e noutras em italiano [Torre e Tasso].

domingo, 29 de novembro de 2015

TRÁGICA 3: Sobre a importância de um irmão


                                                                             


          Ontem, no Teatro Aracy Balabanian, aqui em Campo Grande, assisti TRÁGICA 3. A peça, dirigida por Guilherme Leme e patrocinada pelo Ministério da Cultura e pela Petrobrás, apresenta três mulheres trágicas das tragédias gregas: Electra, Medéia e Antígona. Assim está a ordem no caderno que nos apresenta a peça, porém, na peça, a ordem de apresentação dessas trágicas é a seguinte: primeiro Antígona, apresentada por Letícia Sabatela, a jovem tebana, filha de Édipo, emparedada viva por descumprir a ordem de Creonte, seu tio, e enterrar o irmão Polinice, proscrito pelo tio tirano. Depois a Electra da atriz Miwa Yanagizawa, uma irmã que espera o retorno do irmão Orestes, que vingará a morte do pai Agamenon, pela própria mãe Clitemnestra e seu amante Egisto. Electra salvou o irmão quando criança, mandando-o ao exílio. E vive como escrava, banida do palácio real, ela a filha do assassinado rei Agamenon. E espera sua vingança. E será pelas mãos desse irmão, que ela tanto ama e espera que sua vingança se concretizará.
E a terceira trágica, Medéia, a mulher que abandonou tudo pelo amor de um homem, o primeiro e único. Abandonou sua amada pátria, a Cólquida, que traiu um pai, matou um irmão e o despedaçou pelo caminho para distrair o pai, o rei da Cólquida, que reconheceu os pedaços do corpo do filho e assim Jasão escapou de sua fúria. Ela, exilada de tudo, casa-se com Jasão e os dois têm dois filhos, dois meninos. Vista pelo seu povo e pelos outros, os estrangeiros, como a bárbara, é aceita como refugiada e exilada em Corinto. Jasão, já em outras conquistas, vai se casar com outra, uma nova mulher nova. E aí começa a vingança de Medéia.
         Medéia é representada por Denise Del Vecchio, embora as duas atrizes que vieram antes tenham sido excelentes, Del Vecchio é de uma grandeza inigualável no palco. Ela é a mulher que está envelhecendo, que se desfez de tudo pelo amor a um homem. Perdeu a pátria, perdeu o pai, perdeu o irmão, e está disposta a perder esses filhos para vingar-se de Jasão. Tomará dele o que ele mais dá valor: os filhos que carregam seu nome, sua herança, sua honra. Se é que alguma o personagem carrega. Essas crianças, filhos amados seus, e ao mesmo tempo, filhos do homem que ela precisa destruir para cumprir sua vingança. A rival jovem, ela mata de um golpe só: manda seu vestido de noiva para que ela use para Jasão. Ele pede a jovem esposa que o coloque. O veneno colocado no vestido entra em seu corpo e ela se consome em chamas.
         A direção de Guillerme Leme consegue salientar a grandeza da vingança de Medéia. A disposição das três trágicas está perfeita. Enquanto Sabatella e Yanagizawa entram no palco com roupas claras, Medéia já entra de negro e trás na face a dor que deforma as feições. E o que mais gostei: colocando nessa ordem as trágicas, fica evidente a força dos laços fraternais. O amor por um irmão aparece em todas elas. A primeira, disposta a morrer para respeitar seu irmão. Fosse ele quem fosse, com avidez de poder, guerreiro insano a guerrear com o outro irmão, não importa, merece os ritos fúnebres. E ela pagará com a vida por isso. É por isso que ela é a imagem da ética. A ética dos laços sociais que se sobrepõem à lei instituída por um tirano. Sou psicanalista e por isso já li várias vezes Antígona. Lacan dedicou um ano inteiro de seu ensino a comentar sua ética.
            Depois, Electra, centrada no amor pelo pai e pelo irmão e no ódio à mãe, essa lasciva que pelas mãos de Egisto matou o marido, o pai de seus filhos, e se deitou com seu assassino e vive com ele, deixa ele se sentar no trono que seria de seus filhos. Uma mãe que passa a perna nos filhos por causa de um homem. Electra vai mostrar a ela, pelas mãos de um irmão, como os laços familiares são superiores a tudo.
            E Medéia, que dispôs de tudo por Jasão e foi traída por ele. Também já tinha lido Medéia  mas nunca tomei a peça pelo viés que o diretor nos apresenta. E essa foi a grandeza maior dessa peça. Pelo menos para mim: mais do que repetir a traição de Jasão com outra mulher, ela repete ‘Jasão, você me deve um irmão’. E o ator, que é quase só uma voz, do lado escuro do palco, responde: te dei dois filhos no lugar de um irmão. E mais adiante, ela repete: você me deve um irmão. E mais adiante, novamente, ela reclama a Jasão sua dívida: você me deve um irmão.
             Assim, a Medéia de Guilherme Leme, pode se perdoar de tudo, menos do que fez a um irmão. E mesmo tendo nova pátria, tendo marido, tendo filhos, não se apaga um irmão. E quando perde quase tudo, a caminho de perder, pelos assassinatos que cometerá, os filhos, seus últimos recursos – se é que os filhos são posse de sua mãe. Não vou entrar nessa contenda – aquilo do qual não se pode perdoar é ter sacrificado um irmão. Assim, a fala de Jasão é pura baboseira: dois filhos não valem um irmão. O que não quer dizer que valem menos. O que Medéia mostra é que não se faz uma equação disso. Um irmão é um irmão. E é um laço que não se suplanta por nada que venha a se adquirir na vida. Esse foi o viés novo que nunca antes tinha visto em Medéia e que a direção de Guilherme Leme e a atuação soberba de Denise Del Vecchio me deu.


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Fulgencio Argüelles e uma Asturias de poesias, flores, amores e dores

Fulgencio Argüelles é um psicólogo espanhol. Depois de um período em Madri, onde fez o curso de psicologia, regressou a sua terra natal, Astúrias, lugar de sua infância e juventude. E começou a escrever romances. Ganhador de vários prêmios de literatura. Um deles (Prêmio Café Gijon, de 2003) pela sua quarta novela, El palácio azul de los ingenieros belgas, que estou lendo agora.
O romance é uma narração da juventude de Nalo, aprendiz de jardineiro, em um povoado em Astúrias, durante o período franquista.
Nalo começa o relato com a morte do pai, O pai morre e ele começa a relatar sua história. A vida de todos os personagens circulam ao redor do palácio dos ricos belgas, donos da mina que existe no povoado, sua riqueza, sua língua estranha, seus banquetes, suas mulheres, uma delas tida como louca, cheia de segredos.

Nalo aprende sobre jardinagem com Eneka, o culto jardineiro que se casou com uma das ninfas do Olimpo, esse lugar que ele não sabe onde é.
A tristeza de todos é evidenciada pelo garoto que está ali, observando tudo. ainda que ignore os motivos, Eis um relato sobre o alcoolismo do avô Cosme: "..aunque el alcohol fuera capaz de privarlos de la tristeza, la vergûenza, el silencio y la soledad, por este ordem, nunca conseguiría redimirlos del peso de ciertos recuerdos, porque non hay alcohol suficiente sobre la tierra para anegar la memoria, así me lo había transmitido en no pocas ocasiones mi abuelo Cosme, quien andaba  en ese intento del olvido selectivo desde hacía años, y cuanto mas alcohol se ingería para olvidar más imposible resultaba el olvido y más desnudos se quedaban los recuerdos,..."
Por alusão, o pano de fundo é o período pré-revolucionário, que será sufocado pelos militares, antes de Francisco Franco. As diferenças sociais aparecem muito no romance: os ricos engenheiros e seus comensais, como moscas, zunindo às voltas do poder.
Lançado pela Editora Acantilado, em 2003.
Novela formidável.




domingo, 13 de setembro de 2015

Tchekhov em Sacalina


Aos trinta anos, médico e já escritor conhecido, Tchekhov vai até a Ilha de Sacalina, onde estava instalado o temível presídio czarista.
Desaconselhado por todos, que achavam uma loucura, ele foi. 
Em 1890 parte para Sacalina, atravessa a Rússia toda, antes de haver a Transiberiana, parte em abril e só chega em julho a esse ponto extremo da Rússia, já no Oceano Pacífico, quase Japão. 
Sua descrição da vida dos presos, e da família dos mesmos que vivem nessa ilha e em outras ao redor, é já uma amostra do escritor genial.
A descrição da miséria humana em um lugar da terra em que o frio torna quase impossível viver é impressionante. 
Tem frases como essa: "aqui, de qualquer forma, o clima é mais ameno, os matizes da natureza são mais suaves e um homem esfomeado e transido de frio encontra condições naturais menos adversas do que no curso médio ou inferior do rio."
Encontrar essa obra de Tchekhov foi um presente.



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Josefina é que era mulher de verdade

A doutora em filosofia por Oxford, Kate Williams, escreveu um livro excelente. JOSEFINA, lançado no Brasil ano passado, pela Editora LeYa, é um retrato do Século XVII na Europa, da Era Napoleônica, contado a partir de uma personagem principal, a imperatriz da França, Josefina, coroada pelo próprio Napoleão, depois de colocar a coroa em si próprio.
Há dois anos li parte da obra de René de Chateaubriand, literato e embaixador francês durante o império napoleônico, e os desvarios de Napoleão estão retratados ali. Mas Napoleão só veio a me interessar mesmo depois de julho, quando estive na Córsega, sua terra; estive na cidade onde nasceu, Ajaccio. Visitei a casa de sua família, onde viveu toda sua infância e parte da juventude, até se alistar no exército e deixar a ilha. Veio de uma família de comerciantes, gente simples, casa relativamente simples.  O que mais me impressionou na sua casa-museu foi um detalhe que pode ter passado em branco para tantos, mas não para uma psicanalista: aos nove anos, quando ganhou um cachorro, colocou o nome dele de Nero. E quando começou sua ascensão em Paris, depois de adquirir fama na guerra, massacrando austríacos, italianos, alemães, dizia aos quatro ventos que queria ser para os franceses o que Cézar tinha sido para o Império Romano. Arrisco a dizer que desde os nove anos a ambição dele já estava lá, de ser um imperador.
Só nisso ele tem em comum com Freud. Perdoem-me por comparar Freud com esse sanguinário e cruel homem. Também Freud veio de uma família de comerciantes, queria deixar seu nome na história e sonhava com a Itália. Mas Freud não se identificava com Nero e sim com Aníbal, que conquistava Roma e subjugava os romanos. Quase. Mas há uma diferença fundamental: Freud o fez com as palavras, com a escrita, com uma nova concepção sobre o sujeito. Ele, com seus estudos sobre a histeria, criou a psicanálise e mostrou ao mundo quem é o homem: senhor de nada, nem de sua mente, nem de suas emoções, nem de sua infância. O homem, um reizinho destronado. Napoleão, ao contrário, acreditava em seu poder de vida e morte sobre quase todos. Só não sobre Josefina.
Josefina nasceu na Martinica, uma crioula, como todos faziam questão de marcar. Chega a Paris com um casamento arranjado, tem com esse homem dois filhos. Come o pão que o diabo amassou: seu marido a desprezava, a achava uma cafona estrangeira, uma crioula da colônia. Sem beleza. O marido morre, ela fica pobre, sem condições de sustentar os filhos. Mas é jovem, bem arrumada, já se refinou um pouco e vira uma cocote. Vamos dizer assim, ela tinha uns amantes ricos que a sustentavam. Isso tem outro nome, mas o livro não o coloca em nenhum momento e nem eu vou dizer aqui.
Ela tem amigos na revolução - Luis XVI e Maria Antonieta tinham sido degolados há alguns anos. Ela é presa e sai da cadeia como uma revolucionária, com a moral em alta. Napoleão não tinha ainda trinta anos – ela era três ou quatro anos mais velha que ele – volta da guerra famoso. Não tinha tido ainda um relacionamento significativo.  Feio, baixinho, com sentimento de inferioridade, era tímido com as mulheres na mesma proporção em que era cruel nos campos de batalha. E essa mulher famosa, fina, que se tornou Josefina, deu atenção para ele, conversou com ele em uma festa, não o tratou como um corso caipira. Isso os dois tinham em comum: os caipiras, os rústicos das colônias, buscando aceitação na corte.
O livro de Kate Williams copia trecho de várias cartas que Napoleão escreve para ela. Ele foi louco de paixão por essa mulher. E só a largou porque ela não conseguiu lhe dar um filho. Ele teve um filho com uma amante, que não reconheceu, e depois que se divorciou de Josefina para casar com uma princesa, teve seu filho de sangue real. Mas seus súditos se viraram contra ele quando o sonho dourado da França começou a ruir. Foi preso e exilado. Nesse momento em que o império napoleônico vira bolha de sabão, Josefina sai de cena, morrendo aos 51 anos, deprimida e chorando todo dia por ter sido abandonada por Napoleão.
 Napoleão escreve a esse filho que teve com a princesa da Áustria, Maria Luisa, desejando a ele um futuro de glória, que representasse seu nome, Napoleão. O jovem, que ainda em vida Napoleão Bonaparte deu o título de ‘O Rei de Roma’, vive em Viena, com a família da mãe e morre aos 21 anos, de tuberculose.
De tudo o que mais me impressionou foi a história de Josefina. Era uma crioula da Martinica, uma mulher sem cultura (detestava estudar, ler), sem beleza, com os dentes estragados pelo excesso de açúcar nos seus tempos de infância na fazenda (não mostrava os dentes em público, pois eram pretos) e se tornou a mulher mais cobiçada, invejada, copiada, da Europa. Inclusive pela paixão louca que Napoleão lhe devotava.
Era uma perdulária, vivia endividada, por mais dinheiro que tivesse, sempre gastava mais. Comprava 900 vestidos por ano, 50 pares de luvas em um mês. Tinha três vezes mais joias que Maria Antonieta teve. E depois que virou divorciada passou a se interessar por arte e paisagismo. Encomendou ao escultor Canova a escultura das Três Graças. Essa obra, que ficou tão famosa, foi muito cobiçada logo após sua morte e, comprada pelo Czar da Rússia, hoje está no Hermitage. Tive oportunidade de ver a obra em 2013, quando estive em S. Petersburgo.
Eu queria saber por que os tiranos, quando saqueiam cidades, uma das primeiras coisas que querem fazer é confiscar as obras de arte. Só pelo símbolo de poder mesmo, porque Napoleão era um grosseirão e não estava nem aí para arte. Dava tudo de presente para Josefina, que soube guardar e cuidar dos quadros caros em sua casa de Malmaison. Depois do divórcio, uma parte desses quadros ela doou a um museu de Paris e a outra parte manteve consigo mesma.
Para mim ficou como um exemplo: uma mulher que superou sua própria história, fez-se de chique sem o ser, de bonita sem o ser, de culta sem o ser. Um engodo? Uma farsante? De forma nenhuma. Do nada, de tudo o que lhe faltava, construiu seu nome. É a história de toda mulher.


                                                                      

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A cadelinha Vitória: a inveja que o ser humano tem do animal



Escrevo esse texto por três motivos. O primeiro deles é para acalmar uma noite de sono ruim. Acordei com a Cadelinha Vitória chorando de dor em meu pesadelo às quatro horas da madrugada. Para os que não são de Campo Grande conto a história na sequência cronológica: dias atrás, adolescentes torturaram uma cadelinha, mantendo-a presa e arrancando um pedaço de seu couro e, ainda, quebrando suas patas. Agora se sabe que a história não foi bem assim: uma parte do couro foi retirada em um tratamento veterinário há tempos, e a cadelinha foi abandonada por sua dona em um terreno baldio. É nele que uma testemunha viu a cadelinha sendo torturada por alguns jovens. Enfim, agora a cadelinha está internada em um Pet Shop se recuperando. Foi salva por duas mulheres que têm como causa cuidar de animais abandonados e maltratados. Esta semana escutei vários pacientes me contarem essa história. Li essa história no site de notícias e foi comentário entre amigos. É um dos temas onipresentes da cidade esta semana.
O segundo motivo porque escrevo é que minha amiga Andréa Helena me pediu um poema. Essa corrente que tem no facebook, que você pede poesia a três pessoas. Detesto essas correntes, essa rede social inventa cada besteira. Uma semana você tem de saber qual é a sua cidade, na outra que animal você é, na outra quem é sua alma gêmea. Pelo menos essa de agora eu gostei. Estou vendo as poesias que as pessoas colocam; gostei tanto de algumas que até copiei. Não gosto dessas redes estilo ‘você recebeu algo e passe adiante’, mas gosto demais de poesia e não posso deixar o pedido de minha amiga xará sem resposta.
E o terceiro motivo é que ando há mais de um mês quase obcecada com os poemas de Rainer Maria Rilke. No momento, as Elegias do Duíno, que ele escreveu no Castelo Duíno, construído à beira do mar, nos arredores da cidade de Trieste. Contemplando o Mar Adriático, escreveu dez elegias que são de uma beleza indizível. Com a oitava delas, que li ontem à noite, retomo o primeiro motivo: a cadelinha Vitória.

Já li vários comentários sobre esse episódio, tentando entender a crueldade dos jovens. Alguns dizendo que eles serão psicopatas. É uma possibilidade, mas não a única. Sabemos de descrições de historias de psicopatas que eles começaram torturando e matando animais, para depois passar a seu semelhante. Mas também escutamos na clínica sujeitos adultos até hoje se culpando de um gesto violento que tiveram na infância ou adolescência, uma violência contra um animal, contra um irmão, um amigo, uma violência que fez ou que testemunhou sem fazer nada. Uma palavra mal dita, que soou como um açoite, maldita, a ser expiada uma vida inteira. Enfim, nada de dizer que os adolescentes serão psicopatas. O futuro de alguém está aí, aberto, para ser construído. Pode ser maldito, mas pode ser expurgado.
Eu queria entender esse episódio a partir da inveja. O ser humano tem inveja desde cedo. E ter inveja não quer dizer que vai torturar. Santo Agostinho já mostra em suas Confissões a primeira inveja: a criança pequena, olhando com invidia, o bebê ao colo, colado no peito que outrora foi seu. Isso justifica tantas brigas entre irmãos. Mas também muito cuidado e proteção, para se redimir da inveja. Poderia dar outros exemplos, mas só consigo pensar um meu: diante de uma beleza de mousse de maracujá ou sorvete Hangen Daz, tem gente que diz ‘obrigada, não gosto’. Morro de inveja.
E volto às Elegias de Duíno. Na Oitava elegia, Rilke afirma que o ser humano tem inveja dos animais - ele só faz alusão a palavra, sou eu a dizer claramente. Nosso olhar é revertido como uma armadilha para trás, “pois desde a infância desviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos, ah esse espaço profundo que há na face do animal. Isento de morte.”  Nós, humanos, só vemos morte, o animal vê um livre caminho à frente, pois não tem consciência da morte. “Diante de si tem apenas Deus e quando se move é para a eternidade, como correm as fontes.”  O animal espontâneo ultrapassou seu fim, escreve Rilke. Os amantes sentem a presença obscura da morte, às vezes “há um descerrar-se atrás do outro....Mas, o outro, como superá-lo?” Vemos no animal a liberdade que  em nós mesmos, humanos, obscurecemos.
E ele diz da mosca feliz, da quase-certeza do pássaro, que pertence a dois domínios e tem a alma liberta. E até mesmo o morcego, que espantado de si mesmo, fende o ar, tal taça partida.
“E nós, espectadores de tudo e sempre
Voltados para tudo, nunca de fora.
Saciados, ordenamos. Mas tudo se desfaz.
Novamente insistimos e nós mesmos passamos.
Quem nos desviou assim, para que tivéssemos
um ar de despedida em tudo que fazemos? Como aquele que
partindo se detém na última colina para contemplar
o vale na distância – e ainda uma vez se volta
hesitante, e aguarda  - assim vivemos nós
numa incessante despedida.”

Mas não o animal, para o animal ele escreve:
“Há no entanto esses olhos calmos que o animal levanta,
Atravessando-nos com seu mudo olhar.
A isto se chama destino: estar em face
do mundo, eternamente em face.”

Aliás, seguindo essa elegia de Rainer Maria Rilke, todo animal devia chamar-se Vitória.


domingo, 3 de maio de 2015

Sobre a Indonésia

                                                                         

A Indonésia está muito em voga no facebook no momento por causa dos dois brasileiros condenados à morte por tráfico de drogas. E muito se tem falado da crueldade de um Estado em executá-los. Ainda mais nesse caso mais recente, em que o jovem estava delirando, em surto psicótico, como a família e os advogados sustentaram.
Antes de fazermos uma opinião sobre o país é preciso entender a história. Eu sou sempre pela história. Quando escuto como psicanalista, escuto uma história para entender como o sujeito age como age, o sintoma que tem. Ajudo meus pacientes a construírem sua história. E antes de entender um fenômeno social, também tem de se entender a história.
Sugiro a leitura de dois livros. Os dois de V. S. Naipaul. Um escritor formidável – Nobel de Literatura de 2001 – que tenta entender o islamismo na Ásia. O primeiro livro retrata sua viagem ao Irã, Paquistão, Malásia e Indonésia em 1981 e chama-se Entre os fiéis. O segundo é o retorno dele a esses países em 1998: Além da fé.
Vou fazer um resumo do resumo do que nos conta sobre a Indonésia, depois de andar por Jacarta e suas aldeias no interior, de conversar com pessoas, saber suas histórias e de seus antepassados. O islamismo que floresceu depois da década de 60 do Século XX, um islamismo imperialista, que tenta negar a história anterior do povo, um islamismo político, é fruto de uma história de colonização que começa no Século XVI e que tem nos holandeses sua primeira opressão. O islamismo entra no país quase no mesmo período que os holandeses, mas estes últimos foram tão tiranos, que os seguidores da religião árabe, dos ensinamentos do profeta, sentiram-se também dominados.
E foram os holandeses que levaram o cristianismo, religião dos imperialistas, e tentaram com ele apagar o passado budista, hinduísta, animista dos indonésios. Em 1942 os japoneses dominaram o país com fúria e violência; muita gente foi para a prisão por se opor ao regime. Os japoneses mandaram destruir os monumentos que lembravam o domínio holandês.
Mas o Japão perde a guerra e é afastado do país pelo poderio militar, tendo à frente Sukarno. E até 1965 ele conduz o país e cada vez mais o islamismo se fortalece. Sobretudo entre os jovens. Na ânsia por liberdade, os jovens vivem cada vez mais a fé pura, de um islamismo Estado, político. O islamismo surge como uma mudança. Grande paradoxo.
Naipaul encontra nas pequenas cidades e aldeias do interior, uma religião compósita, feita de budismo, animismo, hinduísmo, cristianismo e islamismo. O islamismo não conseguiu entrar com força entre o povo simples, os camponeses. Eles continuam adorando seus antigos deuses, seguindo suas tradições. Dizemos em psicanálise que eles mantêm seus ideais do Eu.
Querem saber o que os EUA fizeram com um homem à espera de receber a injeção letal e que estava em franco surto psicótico? Tentaram dar a ele antipsicóticos, como o fizeram durante o julgamento, para que ele entendesse o contexto em que estava sendo incriminado. Só não puderam executá-lo delirante porque os direitos humanos não o permitiram.
Qual a diferença entre a Indonésia e os EUA quanto à pena de morte? Na essência, nenhuma: de um lado injeção letal, com uma morte mais asséptica, e na Indonésia, 12 tiros. Não concordo com pena de morte. Seja no tiro ou na injeção. Assim como não concordo com presos em condições sub-humanas como vivem no Brasil. Se a meta é resgatar a humanidade, é preciso tratar com humanidade. Isso não é condescendência, é responder com respeito a quem precisa saber que não se age com barbárie. Aliás, saber que todo ser humano deveria carregar consigo, já que ninguém é uma ilha.
Só para terminar, sugiro ler os dois livros de Naipaul. São formidáveis.

E fiquei com uma pergunta que não terá resposta: se alguém quer fazer tráfico de drogas, por que logo na Indonésia? Que desígnio a escrever para a própria vida! Há sempre uma história por trás desse ato. Também nisso seria preciso compreender a história.