sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Josefina é que era mulher de verdade

A doutora em filosofia por Oxford, Kate Williams, escreveu um livro excelente. JOSEFINA, lançado no Brasil ano passado, pela Editora LeYa, é um retrato do Século XVII na Europa, da Era Napoleônica, contado a partir de uma personagem principal, a imperatriz da França, Josefina, coroada pelo próprio Napoleão, depois de colocar a coroa em si próprio.
Há dois anos li parte da obra de René de Chateaubriand, literato e embaixador francês durante o império napoleônico, e os desvarios de Napoleão estão retratados ali. Mas Napoleão só veio a me interessar mesmo depois de julho, quando estive na Córsega, sua terra; estive na cidade onde nasceu, Ajaccio. Visitei a casa de sua família, onde viveu toda sua infância e parte da juventude, até se alistar no exército e deixar a ilha. Veio de uma família de comerciantes, gente simples, casa relativamente simples.  O que mais me impressionou na sua casa-museu foi um detalhe que pode ter passado em branco para tantos, mas não para uma psicanalista: aos nove anos, quando ganhou um cachorro, colocou o nome dele de Nero. E quando começou sua ascensão em Paris, depois de adquirir fama na guerra, massacrando austríacos, italianos, alemães, dizia aos quatro ventos que queria ser para os franceses o que Cézar tinha sido para o Império Romano. Arrisco a dizer que desde os nove anos a ambição dele já estava lá, de ser um imperador.
Só nisso ele tem em comum com Freud. Perdoem-me por comparar Freud com esse sanguinário e cruel homem. Também Freud veio de uma família de comerciantes, queria deixar seu nome na história e sonhava com a Itália. Mas Freud não se identificava com Nero e sim com Aníbal, que conquistava Roma e subjugava os romanos. Quase. Mas há uma diferença fundamental: Freud o fez com as palavras, com a escrita, com uma nova concepção sobre o sujeito. Ele, com seus estudos sobre a histeria, criou a psicanálise e mostrou ao mundo quem é o homem: senhor de nada, nem de sua mente, nem de suas emoções, nem de sua infância. O homem, um reizinho destronado. Napoleão, ao contrário, acreditava em seu poder de vida e morte sobre quase todos. Só não sobre Josefina.
Josefina nasceu na Martinica, uma crioula, como todos faziam questão de marcar. Chega a Paris com um casamento arranjado, tem com esse homem dois filhos. Come o pão que o diabo amassou: seu marido a desprezava, a achava uma cafona estrangeira, uma crioula da colônia. Sem beleza. O marido morre, ela fica pobre, sem condições de sustentar os filhos. Mas é jovem, bem arrumada, já se refinou um pouco e vira uma cocote. Vamos dizer assim, ela tinha uns amantes ricos que a sustentavam. Isso tem outro nome, mas o livro não o coloca em nenhum momento e nem eu vou dizer aqui.
Ela tem amigos na revolução - Luis XVI e Maria Antonieta tinham sido degolados há alguns anos. Ela é presa e sai da cadeia como uma revolucionária, com a moral em alta. Napoleão não tinha ainda trinta anos – ela era três ou quatro anos mais velha que ele – volta da guerra famoso. Não tinha tido ainda um relacionamento significativo.  Feio, baixinho, com sentimento de inferioridade, era tímido com as mulheres na mesma proporção em que era cruel nos campos de batalha. E essa mulher famosa, fina, que se tornou Josefina, deu atenção para ele, conversou com ele em uma festa, não o tratou como um corso caipira. Isso os dois tinham em comum: os caipiras, os rústicos das colônias, buscando aceitação na corte.
O livro de Kate Williams copia trecho de várias cartas que Napoleão escreve para ela. Ele foi louco de paixão por essa mulher. E só a largou porque ela não conseguiu lhe dar um filho. Ele teve um filho com uma amante, que não reconheceu, e depois que se divorciou de Josefina para casar com uma princesa, teve seu filho de sangue real. Mas seus súditos se viraram contra ele quando o sonho dourado da França começou a ruir. Foi preso e exilado. Nesse momento em que o império napoleônico vira bolha de sabão, Josefina sai de cena, morrendo aos 51 anos, deprimida e chorando todo dia por ter sido abandonada por Napoleão.
 Napoleão escreve a esse filho que teve com a princesa da Áustria, Maria Luisa, desejando a ele um futuro de glória, que representasse seu nome, Napoleão. O jovem, que ainda em vida Napoleão Bonaparte deu o título de ‘O Rei de Roma’, vive em Viena, com a família da mãe e morre aos 21 anos, de tuberculose.
De tudo o que mais me impressionou foi a história de Josefina. Era uma crioula da Martinica, uma mulher sem cultura (detestava estudar, ler), sem beleza, com os dentes estragados pelo excesso de açúcar nos seus tempos de infância na fazenda (não mostrava os dentes em público, pois eram pretos) e se tornou a mulher mais cobiçada, invejada, copiada, da Europa. Inclusive pela paixão louca que Napoleão lhe devotava.
Era uma perdulária, vivia endividada, por mais dinheiro que tivesse, sempre gastava mais. Comprava 900 vestidos por ano, 50 pares de luvas em um mês. Tinha três vezes mais joias que Maria Antonieta teve. E depois que virou divorciada passou a se interessar por arte e paisagismo. Encomendou ao escultor Canova a escultura das Três Graças. Essa obra, que ficou tão famosa, foi muito cobiçada logo após sua morte e, comprada pelo Czar da Rússia, hoje está no Hermitage. Tive oportunidade de ver a obra em 2013, quando estive em S. Petersburgo.
Eu queria saber por que os tiranos, quando saqueiam cidades, uma das primeiras coisas que querem fazer é confiscar as obras de arte. Só pelo símbolo de poder mesmo, porque Napoleão era um grosseirão e não estava nem aí para arte. Dava tudo de presente para Josefina, que soube guardar e cuidar dos quadros caros em sua casa de Malmaison. Depois do divórcio, uma parte desses quadros ela doou a um museu de Paris e a outra parte manteve consigo mesma.
Para mim ficou como um exemplo: uma mulher que superou sua própria história, fez-se de chique sem o ser, de bonita sem o ser, de culta sem o ser. Um engodo? Uma farsante? De forma nenhuma. Do nada, de tudo o que lhe faltava, construiu seu nome. É a história de toda mulher.


                                                                      

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A cadelinha Vitória: a inveja que o ser humano tem do animal



Escrevo esse texto por três motivos. O primeiro deles é para acalmar uma noite de sono ruim. Acordei com a Cadelinha Vitória chorando de dor em meu pesadelo às quatro horas da madrugada. Para os que não são de Campo Grande conto a história na sequência cronológica: dias atrás, adolescentes torturaram uma cadelinha, mantendo-a presa e arrancando um pedaço de seu couro e, ainda, quebrando suas patas. Agora se sabe que a história não foi bem assim: uma parte do couro foi retirada em um tratamento veterinário há tempos, e a cadelinha foi abandonada por sua dona em um terreno baldio. É nele que uma testemunha viu a cadelinha sendo torturada por alguns jovens. Enfim, agora a cadelinha está internada em um Pet Shop se recuperando. Foi salva por duas mulheres que têm como causa cuidar de animais abandonados e maltratados. Esta semana escutei vários pacientes me contarem essa história. Li essa história no site de notícias e foi comentário entre amigos. É um dos temas onipresentes da cidade esta semana.
O segundo motivo porque escrevo é que minha amiga Andréa Helena me pediu um poema. Essa corrente que tem no facebook, que você pede poesia a três pessoas. Detesto essas correntes, essa rede social inventa cada besteira. Uma semana você tem de saber qual é a sua cidade, na outra que animal você é, na outra quem é sua alma gêmea. Pelo menos essa de agora eu gostei. Estou vendo as poesias que as pessoas colocam; gostei tanto de algumas que até copiei. Não gosto dessas redes estilo ‘você recebeu algo e passe adiante’, mas gosto demais de poesia e não posso deixar o pedido de minha amiga xará sem resposta.
E o terceiro motivo é que ando há mais de um mês quase obcecada com os poemas de Rainer Maria Rilke. No momento, as Elegias do Duíno, que ele escreveu no Castelo Duíno, construído à beira do mar, nos arredores da cidade de Trieste. Contemplando o Mar Adriático, escreveu dez elegias que são de uma beleza indizível. Com a oitava delas, que li ontem à noite, retomo o primeiro motivo: a cadelinha Vitória.

Já li vários comentários sobre esse episódio, tentando entender a crueldade dos jovens. Alguns dizendo que eles serão psicopatas. É uma possibilidade, mas não a única. Sabemos de descrições de historias de psicopatas que eles começaram torturando e matando animais, para depois passar a seu semelhante. Mas também escutamos na clínica sujeitos adultos até hoje se culpando de um gesto violento que tiveram na infância ou adolescência, uma violência contra um animal, contra um irmão, um amigo, uma violência que fez ou que testemunhou sem fazer nada. Uma palavra mal dita, que soou como um açoite, maldita, a ser expiada uma vida inteira. Enfim, nada de dizer que os adolescentes serão psicopatas. O futuro de alguém está aí, aberto, para ser construído. Pode ser maldito, mas pode ser expurgado.
Eu queria entender esse episódio a partir da inveja. O ser humano tem inveja desde cedo. E ter inveja não quer dizer que vai torturar. Santo Agostinho já mostra em suas Confissões a primeira inveja: a criança pequena, olhando com invidia, o bebê ao colo, colado no peito que outrora foi seu. Isso justifica tantas brigas entre irmãos. Mas também muito cuidado e proteção, para se redimir da inveja. Poderia dar outros exemplos, mas só consigo pensar um meu: diante de uma beleza de mousse de maracujá ou sorvete Hangen Daz, tem gente que diz ‘obrigada, não gosto’. Morro de inveja.
E volto às Elegias de Duíno. Na Oitava elegia, Rilke afirma que o ser humano tem inveja dos animais - ele só faz alusão a palavra, sou eu a dizer claramente. Nosso olhar é revertido como uma armadilha para trás, “pois desde a infância desviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos, ah esse espaço profundo que há na face do animal. Isento de morte.”  Nós, humanos, só vemos morte, o animal vê um livre caminho à frente, pois não tem consciência da morte. “Diante de si tem apenas Deus e quando se move é para a eternidade, como correm as fontes.”  O animal espontâneo ultrapassou seu fim, escreve Rilke. Os amantes sentem a presença obscura da morte, às vezes “há um descerrar-se atrás do outro....Mas, o outro, como superá-lo?” Vemos no animal a liberdade que  em nós mesmos, humanos, obscurecemos.
E ele diz da mosca feliz, da quase-certeza do pássaro, que pertence a dois domínios e tem a alma liberta. E até mesmo o morcego, que espantado de si mesmo, fende o ar, tal taça partida.
“E nós, espectadores de tudo e sempre
Voltados para tudo, nunca de fora.
Saciados, ordenamos. Mas tudo se desfaz.
Novamente insistimos e nós mesmos passamos.
Quem nos desviou assim, para que tivéssemos
um ar de despedida em tudo que fazemos? Como aquele que
partindo se detém na última colina para contemplar
o vale na distância – e ainda uma vez se volta
hesitante, e aguarda  - assim vivemos nós
numa incessante despedida.”

Mas não o animal, para o animal ele escreve:
“Há no entanto esses olhos calmos que o animal levanta,
Atravessando-nos com seu mudo olhar.
A isto se chama destino: estar em face
do mundo, eternamente em face.”

Aliás, seguindo essa elegia de Rainer Maria Rilke, todo animal devia chamar-se Vitória.


domingo, 3 de maio de 2015

Sobre a Indonésia

                                                                         

A Indonésia está muito em voga no facebook no momento por causa dos dois brasileiros condenados à morte por tráfico de drogas. E muito se tem falado da crueldade de um Estado em executá-los. Ainda mais nesse caso mais recente, em que o jovem estava delirando, em surto psicótico, como a família e os advogados sustentaram.
Antes de fazermos uma opinião sobre o país é preciso entender a história. Eu sou sempre pela história. Quando escuto como psicanalista, escuto uma história para entender como o sujeito age como age, o sintoma que tem. Ajudo meus pacientes a construírem sua história. E antes de entender um fenômeno social, também tem de se entender a história.
Sugiro a leitura de dois livros. Os dois de V. S. Naipaul. Um escritor formidável – Nobel de Literatura de 2001 – que tenta entender o islamismo na Ásia. O primeiro livro retrata sua viagem ao Irã, Paquistão, Malásia e Indonésia em 1981 e chama-se Entre os fiéis. O segundo é o retorno dele a esses países em 1998: Além da fé.
Vou fazer um resumo do resumo do que nos conta sobre a Indonésia, depois de andar por Jacarta e suas aldeias no interior, de conversar com pessoas, saber suas histórias e de seus antepassados. O islamismo que floresceu depois da década de 60 do Século XX, um islamismo imperialista, que tenta negar a história anterior do povo, um islamismo político, é fruto de uma história de colonização que começa no Século XVI e que tem nos holandeses sua primeira opressão. O islamismo entra no país quase no mesmo período que os holandeses, mas estes últimos foram tão tiranos, que os seguidores da religião árabe, dos ensinamentos do profeta, sentiram-se também dominados.
E foram os holandeses que levaram o cristianismo, religião dos imperialistas, e tentaram com ele apagar o passado budista, hinduísta, animista dos indonésios. Em 1942 os japoneses dominaram o país com fúria e violência; muita gente foi para a prisão por se opor ao regime. Os japoneses mandaram destruir os monumentos que lembravam o domínio holandês.
Mas o Japão perde a guerra e é afastado do país pelo poderio militar, tendo à frente Sukarno. E até 1965 ele conduz o país e cada vez mais o islamismo se fortalece. Sobretudo entre os jovens. Na ânsia por liberdade, os jovens vivem cada vez mais a fé pura, de um islamismo Estado, político. O islamismo surge como uma mudança. Grande paradoxo.
Naipaul encontra nas pequenas cidades e aldeias do interior, uma religião compósita, feita de budismo, animismo, hinduísmo, cristianismo e islamismo. O islamismo não conseguiu entrar com força entre o povo simples, os camponeses. Eles continuam adorando seus antigos deuses, seguindo suas tradições. Dizemos em psicanálise que eles mantêm seus ideais do Eu.
Querem saber o que os EUA fizeram com um homem à espera de receber a injeção letal e que estava em franco surto psicótico? Tentaram dar a ele antipsicóticos, como o fizeram durante o julgamento, para que ele entendesse o contexto em que estava sendo incriminado. Só não puderam executá-lo delirante porque os direitos humanos não o permitiram.
Qual a diferença entre a Indonésia e os EUA quanto à pena de morte? Na essência, nenhuma: de um lado injeção letal, com uma morte mais asséptica, e na Indonésia, 12 tiros. Não concordo com pena de morte. Seja no tiro ou na injeção. Assim como não concordo com presos em condições sub-humanas como vivem no Brasil. Se a meta é resgatar a humanidade, é preciso tratar com humanidade. Isso não é condescendência, é responder com respeito a quem precisa saber que não se age com barbárie. Aliás, saber que todo ser humano deveria carregar consigo, já que ninguém é uma ilha.
Só para terminar, sugiro ler os dois livros de Naipaul. São formidáveis.

E fiquei com uma pergunta que não terá resposta: se alguém quer fazer tráfico de drogas, por que logo na Indonésia? Que desígnio a escrever para a própria vida! Há sempre uma história por trás desse ato. Também nisso seria preciso compreender a história.

Ida e seu sacrifício cristão



Ida, filme polonês de 2013, dirigido por Pawel Pawlikowski, ganhou o Oscar de Filme estrangeiro desse ano. Já tinha ganhado ano passado dois prêmios, mas teve sua fama estendida após o Oscar e suscitou acaloradas polêmicas em seu país. Os poloneses não gostaram muito de se ver nele, e que seu país fosse exposto no mundo inteiro pela questão judaica. Nele, cristãos mostram-se indiferentes ao destino dos judeus e um deles mata a machadadas uma mulher e uma criança judias só para ficar com a casa delas. Essa cena não é mostrada, ela faz parte da história a ser resgatada no tempo atual em que a ação se desenrola. O filme se passa na década de 60 do século XX, mais de uma década depois de terminada a II Guerra Mundial.
Antes de entrar no debate sobre o filme, faço algumas considerações sobre o país. Uma cena sobre a Polônia que li e me marcou: o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que viveu décadas de sua vida como correspondente na África, conta em seu livro “Ébano, minha vida na África” que uma vez um africano disse para ele que ele, homem branco, não sabe o que é ser escravizado por outro povo. Ele respondeu: sei sim, meu povo já foi oprimido por três outros povos. O africano teve descrédito e desconfiança com o que ele tinha dito, não achava que um povo branco pudesse ser tão oprimido. Mas podem, e esses são os poloneses, que já estiveram sob o jugo dos austro-húngaros, dos russos e dos alemães; que já tiveram seu território retalhado e distribuído a bel prazer dos conquistadores algumas vezes; que após o fim da Segunda Guerra estiveram sob o domínio da Rússia por muito tempo. E que tiveram uma posição estratégica bem ruim durante a guerra, no meio do fogo cruzado entre russos e alemães. E eles têm tragédias muito grandes durante essa guerra, como o massacre de Katyn, por exemplo.
Então, não se prestam muito bem a serem considerados pró-nazistas ou algozes. Mas que os cristãos lá, bem como em outros países europeus, fizeram vista grossa ao que acontecia aos seus vizinhos judeus, fizeram. Há relatos em vários livros que li sobre a conivência dos cristãos poloneses com o destino dos judeus. O livro de Claude Lanzman dá vários exemplos. Esse autor fez uma grande pesquisa nas pequenas cidades polonesas para seu filme Shoah. Boa parte dessas histórias de segregações dos cristãos poloneses eu li antes de estar na Polônia. E foi muito chocante quando estive lá - andei pelo país em 2011, fui a Auschwitz - pois em contraposição a isso, nunca conheci um povo tão acolhedor, tão simples, tão simpático como esse. E tão cristão. Sobretudo na Cracóvia, de João Paulo II.  Deixando essa questão de lado, entro no filme.
Anna, uma jovem às vésperas de fazer seus votos e tornar-se freira, é instada pela madre superiora a procurar sua tia, única parente viva, a conversar com ela e só depois, confirmar sua vocação. Sai à procura da tia e com isso descobre que seu nome é Ida Lebenstein, uma judia, filha da irmã dessa tia, Wanda. A tia é uma magistrada, alcóolatra, aparentemente faz parte do partido comunista que conduz o país após o final da Segunda Guerra. Essa camarada está desiludida com os rumos do país, e culpada por ter deixado seu filho com a irmã e sua própria filha ainda bebê, para lutar na resistência. O filho de Wanda e a irmã foram mortos a machadadas pelos vizinhos cristãos que ficaram com a casa deles. Quando o homem que os matou, mostra onde estão as ossadas, ele dentro da cova que abriu, Ida pergunta a ele: por que eu não estou aí com eles? Ele responde: você era tão pequena, passava bem por cristã. O menino não, era moreno e circuncidado. Ser branca a salvou da morte. Assim Ida sobreviveu, porque passaria por cristã. É isso Anna\Ida: uma judia que se passa por cristã, uma indiferente a tudo o que vê, que não se envolve, se passando por doce e bondosa.
Wanda e Anna\Ida viajam ao interior, a cidade onde tudo isso se passou, conversam com as pessoas. Todos os cristãos tem um segredo a esconder, são resistentes, não querem tocar nessa história do extermínio dos judeus; estão bem acomodados na casa que agora é deles, que foi tomada com sangue e assassinato. Quando Wanda investiga, quando é dura com os assassinos cristãos, Ida se afasta, não quer ouvir, sai da casa. Ida não quer participar do resgate dessa história. Ela está bem certa de que é cristã, que será freira. Sua tia culpada, atormentada, deprimida, ensaiando uma posição de objeto a ser descartado, caminha para um suicídio que se concretizará ao final do filme, jogando-se pela janela, e Anna\Ida não diz nada, não ora por ela, não a acalma. Ela está sempre numa vacuidade. Nunca está onde aparentemente está. Ela parece indiferente a tudo. Por isso tenho dificuldade em dizer que ela é Ida. Ela renega suas raízes judias, ela é Anna. Ela só sai da indiferença quando surge o desejo por um homem.
No começo da busca delas pela verdade, Wanda dirigindo, diz a Anna que ela vai deixar os homens loucos e pergunta se ela tem maus pensamentos com os homens. Ela responde que não. Pois devia, senão que sacrifício terá nesses  votos que vai fazer? Mas depois darão carona a um músico, um belo rapaz, que vai despertar-lhe o desejo, e aí os “maus pensamentos” vem. Ele lhe diz: você não tem ideia do efeito que causa. Ela não diz nada, mas vai para o quarto e tira o véu, fica se olhando. A partir do desejo dele, que a torna desejável, vê-se como uma mulher no espelho. E após o suicídio da tia, liga para ele, encontram-se, vão para cama e ela descobre o sexo. Acordam, ele faz planos, terão uma casa, um casamento, viagens a trabalho para ele tocar e ela o acompanhando. Ela volta a sua indiferença de antes, não diz nada. Ele dorme, ela faz a mala e volta para o convento.
O filme tem cenas belíssimas, com neve que não acaba mais, e estradas brancas e árvores secas. E é esta a cena final: ela chegando, à pé no meio da neve, sozinha, para seu sacrifício dos votos. Viveu o desejo que sentiu, virou as costas sem dizer nada ao homem. Ele fica lá, dormindo ainda, sem saber que foi usado como objeto sexual. Nenhuma palavra lhe será dita para explicar nada, sem a casa, sem o casamento. Sem nada. Ele e Wanda são os objetos a serem defenestrados. Assim como em outro tempo foram Roza e o menino. Os cristãos, sejam aqueles durante a guerra, seja Anna, são indiferentes à dor do outro. O retrato que o filme traça dos cristãos é bem triste. Retrato ruim de ver, e creio que foi isso que esse país tão cristão não gostou de ver.
A grande personagem do filme é Wanda. Ética, culpada, buscando a verdade, desorientada, pois perdeu seus ideais. A que se sacrifica é ela. Anna só se sacrifica por si mesma. Anna é uma raposa-indiferente em pele de cordeiro. Sua pele\pêlo é a beleza branquinha. Ouvi dias atrás um ditado pela primeira vez: uma raposa perde o pêlo, mas não perde o vício. Anna é isso, uma raposa. No filme, todos os cristãos o são.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Rilke e Lou Andréas-Salomé

Ontem, feriado, estava com dois livros à mão: Correspondência amorosa, de Rainer Maria Rilke e Lou Andréas-Salomé, e Minha Vida, de Lou Andréas-Salomé.
Lendo a correspondência entre os dois e o que ela vai escrever sobre o que foi o amor deles, décadas depois.
No Livro das horas, ele dedica esse poema a ela:
"Apaga-me os olhos: ainda posso ver-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá
e se me deitares fogo ao cérebro
hei de continuar a trazer-te em meu sangue".
E em uma carta, escreve para ela:
"Então tua carta me trouxe a suave benção,
e me convenci de que não há distância:
De toda a beleza me vens ao encontro,
tu, minha primaveril aragem, tu, minha chuva de verão,
tu, minha noite de junho e seus mil caminhos
que nenhum devoto percorreu antes de mim:
estou em ti."
E o que foi esse amor para ela, já que não tinha esse dom ímpar com as rimas, esse dom obscuro que viu nele, antes dele mesmo? Quando se encontraram, ele era um jovem de 21 anos, sentindo que tinha uma obra a construir, ela já era uma escritora e tinha 36.
Em seu livro de memórias há um capítulo em que fala dele: "Se fui durante anos tua mulher, assim o foi porque tu foste para mim pela primeira vez o real, corpo e homem uno, indiscernível, fato indubitável da vida mesma. Palavra por palavra eu tinha podido confessar-te o que me disseste como confissão de amor: "Somente tu és real". Foi assim que nos tornamos esposos ainda antes de nos tornarmos amigos, e tornamo-nos amigos mais por bodas igualmente subterrâneas do que pela escolha. Em nós não havia duas metades que se buscavam: nossa totalidade reconheceu-se surpresa, fremente, em uma incrível totalidade. E assim fomos irmãos, mas como de tempos remotos, antes de o incesto tornar-se sacrilégio."
E qual o final da história? E foram infelizes para sempre.
Como vocês podem ver, ontem, no feriado, acordei para o amor.

domingo, 19 de abril de 2015

A história que o pai calou

Um filho, um dia qualquer, folheando um livro do pai, descobre uma carta e nela, que ele teve um filho com uma alemã, antes de se casar com sua mãe. Nunca soube dessa história, nunca foi falada na família. A partir dessa descoberta, mexendo nos livros e nas gavetas do pai e da mãe, descobre outros capítulos da história pregressa do pai: em 1931, jovem jornalista, é enviado a Berlim, fica lá um ano e meio e conhece Anne. Andam pelas ruas de Berlim, se apaixonam, ela engravida. Quando ela está com alguns meses de gravidez, ele é chamado de volta ao Brasil. Deixa-a, promete voltar, mas embarca no navio sem nem ao menos olhar para trás e acenar para ela. Essa cena é imaginada mais de trinta anos depois por esse filho do jornalista, que tenta entender porque o pai fez o que fez. De factual há uma carta de Anne no ano seguinte perguntando se ele voltará, que quer saber, pois o bebê nasceu, é um menino e precisa ser registrado. Ela agora tem um pretendente que se propõe a ficar com ela e a registrar a criança.
O filho também descobre que o governo alemão escreveu ao pai dele para averiguar se ele não tem sangue judeu, precisam averiguar se a criança não tem antepassados judeus a fim de definir seu destino, pedem certidões até dos avós desse homem. Ele só consegue as suas e de seus pais. O governo alemão não acha suficiente e escreve novamente. Pede que o pai brasileiro, que não registrou a criança, envie ajuda financeira para sustenta-la, que está sob a responsabilidade do governo alemão. Anos difíceis, às vésperas de começar a Segunda Guerra Mundial. Essas cartas todas estão impressas nas páginas do livro que acabei de ler.
Esse filho, um dia, na mesa de almoço familiar, solta essa frase: eu não teria vergonha de ter um filho alemão. O pai para, com o garfo cheio de comida, suspenso entre o prato e a boca, olha-o e não diz uma palavra. Nada. Dessa história o pai nunca falará nada com ele. E, pelo visto, com ninguém, pois o filho sente que também sua mãe gostaria de ter uma ideia do que foi essa história. Mas nada, nenhuma palavra.
O filho que faz essa investigação sobre a história do filho alemão do pai, filho que o pai não registrou, não criou, não foi atrás dele na Alemanha – no romance, o narrador-filho com irmão alemão, cria uma cena em que o pai vai à Alemanha atrás do filho – é Chico Buarque de Holanda. O pai se chama Sérgio Buarque de Holanda, o grande historiador que escreveu Raízes do Brasil. O filho alemão de Sérgio Buarque de Holanda foi chamado Sérgio Ernst, ficando só com o sobrenome da mãe, Anne Ernst. Quando ela o deu para adoção – eu acho que essa criança pode ter sido tomada dela, já que o governo alemão tinha a suspeita que ele tivesse sangue judeu – seu nome e sobrenome foram mudados. Mas assim que ele descobriu sua história, retornou ao nome Sérgio, dado por sua mãe.
Em 2013, Chico Buarque com quase setenta anos, foi a Berlim resgatar a história de seu pai. Com a ajuda de seu editor e de um historiador, com a ajuda de sua filha Silvia Buarque na tradução, conheceu a família e a história de seu irmão alemão Sérgio Gunter. Ele manteve o sobrenome da família que o adotou. Chico encontrou-se com sua ex-mulher, sua filha, neta, amigos e assim, soube quem foi Sérgio, seu irmão alemão, que tinha morrido de câncer aos 51 anos, na década de 80. 
Desse drama que parece ter assombrado sua história e a de seu pai, Chico escreveu seu melhor romance, este que está nas livrarias agora, O irmão alemão.
Agora um impressão minha: sonhei essa noite com Sérgio Günter e queria ter sabido o que foi a vida dele, nascido no pré-guerra, pesando sobre sua cabeça a suspeita do "crime" de ter sangue judeu, vindo de um pai que não foi pai, que não o registrou, "dado" para adoção, tendo o nome mudado, depois retornado ao nome Sérgio, vivido sua juventude na Berlim Oriental, morrido de câncer tão jovem. Creio que vou pensar em Sérgio Günter por vários dias ainda.




segunda-feira, 6 de abril de 2015

AS MÁSCARAS DO AMOR


XV ENCONTRO NACIONAL DA ESCOLA DE PSICANÁLISE DOS FÓRUNS DO CAMPO LACANIANO NO BRASIL
AMOR E SEXOS
Campo Grande, 13 a 16 de novembro de 2014

Andréa Brunetto

Há tantas máscaras quantas insatisfações, afirma Lacan em sua aula de 16 de abril de 1958. Essa aula do Seminário V, As formações do Inconsciente, em que Lacan falará sobre as máscaras do sintoma e ainda um episódio da epopeia romântica Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, deram-me a inspiração do que falar para vocês, aqui, nesse encontro sobre Amor e Sexos.
Nessa aula de seu seminário, Lacan sustenta que o desejo está ligado a alguma coisa que é sua aparência, a máscara1. É uma questão essencial que temos na experiência analítica, diz Lacan, essa relação entre o desejo e aquilo que ele se reveste.  E vai dizer que também o sintoma se apresenta sob uma máscara paradoxal. Ele retoma o Caso de Elizabeth von R., descrito por Freud nos Estudos sobre a Histeria, para dizer que seu sintoma é uma máscara de dupla identificação: com a irmã e com o cunhado.
A ideia da máscara significa que o sintoma se apresenta de forma ambígua. “A questão é a da ligação que permanece como um ponto de interrogação, um x, um enigma, com o sintoma do qual ele se reveste, ou seja, com a máscara”.2 A máscara é essa coisa fechada que permite o reconhecimento do desejo. Identificar a máscara com o desejo freudiano é algo diferente do que se dirigir a um objeto.
A análise serve para comprovar esse caráter vagabundo, fugidio e inapreensível do desejo, alega Lacan. É o que faz com que ele diga: o desejo é mascarado. Podemos desmascará-lo algum dia? É uma pergunta que faz no Seminário 10.
Uma máscara é um revestimento, diz Lacan. Acompanhando seu ensino, também podemos chamá-la de vestimenta, vestido. Um muro. Uma vestimenta que faz com que a periquita de Picasso só se enamore dele quando estiver vestido. Sem a máscara, a vestimenta, o muro, a armadura, é o gozar de um corpo. E isso não deixa claro o que é o amor.
Vou chamar a máscara de um destino pulsional. Assim Freud dá o exemplo de um destino, o de Tancredo e Clorinda. Jerusalém Libertada foi citada por Freud em Além do Princípio do Prazer. Escrita em 1581, ambientada no tempo das cruzadas, da guerra entre pagãos e cristãos, assim vista pelo seu autor Torquato Tasso, italiano, cristão, que a escreveu morrendo de medo que algo desgostasse a inquisição e que ele próprio fosse considerado pagão.
Em Jerusalém Libertada, a máscara é uma armadura. Clorinda, a pagã, que usa uma armadura para ficar forte e “poder no perigo aventurar-se”, consegue energia e amor ardente quando a usa. Tancredo mata Clorinda em um duelo, ela disfarçada de cavaleiro. Tirando a armadura do suposto cavaleiro que ferira, vê o corpo casto da donzela – terá daqui saído a inspiração para Diadorim? – e com ela morta nos braços, sente-se condenado a um indigno existir, a viver em memória dos amores infelizes. No canto seguinte da epopeia, abre caminho numa estranha floresta mágica que aterroriza o exército dos cruzados. Com a espada faz um talho em um cipreste e ouve lamentar-se a voz de Clorinda: novamente me mataste! Na árvore estava aprisionada a alma de sua amada. E o narrador nos diz: hábil guerreiro, só débil para o amor foi. Deixa-se iludir por falsas imagens. No aspecto amoroso, Tancredo é como todos, embora nem todos sejam hábeis guerreiros. A isso, Freud chama um destino, “a perpétua recorrência da mesma coisa”.3
Lacan afirma no Seminário 20: mais, ainda, que o amor baseia-se numa certa relação entre dois saberes inconscientes, apontando que o sujeito aproxima-se de seu objeto na condição de que não o saiba, que esse saber é do inconsciente. “No baile dos incoerentes do amor, é preciso uma máscara para apreender o objeto. Ele se refere a comédia de Alphonse Allais, em que Raul e Marguerite, em um casamento de cinco meses, feito de muitas brigas, fazem um reconciliação no baile de máscaras em que cada um foi mascarado para, desmascarar a suposta infidelidade do outro.”4 A relação entre a orientação da libido e o desconhecimento fica evidente tanto no Banquete como na tragédia de Édipo. Sócrates só pôde colocar seu saber sobre o amor demonstrando que não sabia e que o que descobriu lhe foi contado por uma mulher, Diotima. O que Lacan marca é que só pode existir discurso amoroso a partir do ponto onde ele não sabia. E não só no discurso. O amor é concebido sem que Poros o soubesse.5
Esse desconhecimento sobre o objeto que causa o sujeito, que para além das vestimentas que o mascaram e fazem um happy end vitoriano, Lacan encontrou no romance de Marguerite Duras, O Deslumbramento de Lol Stein. Um vestido que deixado cair, evidenciava, para além da fantasia, o objeto a. Um vestido presta-se muito bem a ser uma máscara. As mulheres bem o sabem. Não apenas dos vestidos, da mascarada para o outro.
Em O Seminário 11: os conceitos fundamentais da psicanálise, diz: “Se há algum domínio em que a tapeação tem chance de ter sucesso é certamente no amor que encontramos seu modelo”.6 E no capítulo seguinte desse seminário, Lacan vai chamar o amor de uma falsidade essencial. Para depois afirmar: “enquanto miragem e especular, o amor tem essência de tapeação, Mas nessa tapeação, algo é paradoxal: o objeto a. “Eu te amo, mas porque, inexplicavelmente, amo em ti algo que é mais que tu – o objeto a, eu te mutilo.”7
A máscara, a vestimenta, a armadura, ou o muro, que Lacan equivoca com amor, mostram que o amor é a máscara. O amor é a tapeação não apenas necessária, mas essencial.
Mais dois exemplos mascarados. Um da literatura e outro da clínica. O da literatura é um pouco mais atual que Jerusalém Libertada. É do Século XIX, uma comédia de Max Beerbohm, inglês, contemporâneo e conterrâneo de Oscar Wilde, participava do mesmo grupo de escritores que seu colega mais famoso, e tão ácido na crítica quanto aquele. O farsante feliz conta a história de Lord George Hell, nobre hedonista, rico, perverso, jogador, voraz, destrutivo, rebelde, covarde, cínico, antipático, odioso, insolente. Vou parar por aqui na lista de adjetivos com que o autor caracteriza seu personagem. Nunca se preocupou em dissimular sua perfídia, cheio de amantes, madrugadas na luxúria e nas mesas de jogo, fugindo de uma amante italiana que o perseguia. Uma noite vê uma jovem dançarina um pouco desajeitada em um clube e se apaixona à primeira vista. Ajoelha-se diante da jovem Jenny Mere e a pede em casamento. Ela responde que não, “jamais poderá ser esposa de alguém cujo rosto não seja de um santo”. “Talvez Millord, seu rosto reflita um amor por mim, mas reflete muito da vaidade do mundo. Só a um homem cujo rosto seja tão maravilhoso como o dos santos, só a este poderei entregar meu verdadeiro amor”.
Para ir aos finalmente, Lord George vai a um famoso fabricante de máscaras, pede uma que represente o verdadeiro amor e a face de um santo. O fabricante procura em seu depósito de máscaras e encontra uma que confeccionou para um homem usar em suas bodas de prata e depois lhe devolveu. Lord George a quer e diz que vai usá-la para sempre. Com ela conquista Jenny Mere, vão se casar, compra uma casa rústica, no bosque; devolve os bens que ganhou ilicitamente, nas mesas de jogos. O único problema era que os beijos de máscara ficavam um tanto insípidos, se perdia o gosto da boca do outro. Às vezes pensava em tirar a máscara e beijá-la, não queria essa barreira entre ele e sua jovem esposa. Mas depois retomava o bom senso e sabia que teria que usar a máscara para sempre. Apesar do material duro com que era feita, ela representava o verdadeiro amor.
Há uma cena final em que a amante italiana os desmascara. Diz a Lord George que a máscara campestre de sua jovem esposa é melhor que a dele. Avança sobre a dele, arranca e a joga no chão. E aí vem a surpresa para ele e a ex amante italiana: por trás da máscara seu rosto tinha se tornado igual à máscara. Ele olhou sua amada nos olhos e viu isso refletido nos olhos dela. E foram felizes para sempre. Mascarados. Ele de santo, ela de jovem campestre.
Agora o exemplo da clínica. Um homem jovem procura a analista porque comentaram que ela era intelectual. É esse o significante qualquer com o qual começa sua análise. Nela fala de suas dificuldades nos estudos, que tem desde criança. E, sobretudo, de um relacionamento amoroso fracassado dois anos antes. Nesse momento já está namorando outra pessoa, mas fala daquela namorada, que vivia lendo, estudando, só tinha papo cabeça, conversa intelectual e que isso o entendiava. Sempre que dizia sobre a ex, terminava assim “e aí eu me entediei e terminei”. E nessa vez em que a palavra vacila, como um tropeço, diz “e aí me apaixonei”.
O significante pode ser uma máscara? Para esse homem que se sente deslocado, fora do mercado de trabalho, do negócio familiar – é uma das queixas: ele é out da empresa familiar – e da relação de amor que deixou perder porque não enxergou que estava apaixonado, o intelectual o interessa muito, e ele achava que isso o entediava. Esse in que ele esperava alcançar para deixar de ser out é uma sílaba de seu sobrenome. Trata-se aqui da construção de um nome próprio. Um sinthoma. Isso é mais do que uma máscara-semblante identificatória?  






1 Lacan, J. O Seminário, livro 5, As formações do inconsciente. RJ: Jorge Zahar Editor, p. 331.
2 Ibid, p. 338.
3 FREUD. Standard Obras Completas. Além do princípio do prazer.
4 Brunetto, A. Sobre amores e exílios: na fronteira da psicanálise e da literatura. SP: Editora Escuta.
5 Ibid.
6 LACAN. J. O Seminário, livro 11: os conceitos fundamentais da psicanálise. RJ: JZEditor, p. 128.
7 Ibid, p. 253.