domingo, 14 de agosto de 2016

Cartagena das Índias, no Caribe do cólera, das batalhas e dos amores contrariados

                                                                                


          O pirata inglês Francis Drake chegou a Cartagena em 1586, com uma potente frota, desembarcou e saqueou a cidade histórica. Chegaram à noite em Bocagrande e caminharam até a Ponta do Judeu, onde é hoje o Clube Naval, encostado da cidade muralhada. Outro grupo de sua frota tentou aportar à altura do Forte de Boquerón, mas não conseguiu. Os piratas roubaram jóias e artilharia e Drake exigiu do governo 107.000 pesos para não destruir a catedral da cidade com um tiro de canhão. O governo cedeu e a catedral sobreviveu quase inteira, não fosse pelo sino roubado, que foi derretido e transformado em mais um canhão para os corsários. Retomo esse personagem histórico, presente em minha crônica anterior, sobre a Patagônia, para descrever uma das tantas batalhas travadas aqui em Cartagena das Índias.
        Assim como Drake, estou aportada em Bocagrande, uma península que me leva até a cidade histórica, cercada por muralhas. Bocagrande tem o mar de um lado e um lago do outro. Na verdade, é uma baía em que o mar entrou e a terra quase o fechou aqui. Esse corredor de três ruas vai do mar até a cidade histórica. Estou aqui atolada no calor cartaginês. Assim Gabriel Garcia Marquez sentiu-se ao chegar a Cartagena: atolado no calor de uma pensão, na cidade histórica.
         Heróica, assim foi chamada essa cidade que lutou pela independência dos espanhóis, com calor insustentável durante o dia e noites frescas, conjugando dois tempos, o atual e um passado, imorredouro, tem as construções mais lindas com as portas imponentes abertas para o mundo. Aqui Gabriel Garcia Marques ambientou O amor nos tempos do cólera. E dentre as muitas coisas que escreve sobre Cartagena, adjetiva-a como feita de glórias carcomidas e ruínas. Estava com minha amiga Alba no Banco de Colômbia para fazer câmbio, assistindo à televisão como proceder em caso de terremoto, enquanto esperava chamarem minha senha, quando entrou um homem todo vestido de um terno de linho branco e um chapéu Panamá e pensei: aquele deve ser Juvenal Urbino. É o médico, marido de Fermina Daza, personagem de O amor nos tempos do cólera. Nos arcos da Paróquia, lembro que foi ali que Lorenzo Daza carregou pelo braço Florentino Ariza e lhe disse que não entregava a filha Fermina, selando o impossível desse amor. Em uma de suas pensões, Gabo ficou hospedado e começou a escrever seu romance: tem hoje lá seu rosto desenhado na parede. Na universidade de Cartagena, começou a estudar Direito, mas a Heróica deve ter lhe inspirado tanto que a Colômbia perdeu um advogado a mais para ganhar um dos melhores escritores do mundo.
        É uma cidade das frutas a serem vendidas em cada esquina, sem fast-foods, com culinária maravilhosa. Come-se muito bem aqui. Só o que me faltou foi ter ficado hospedada dentro da cidade muralhada. É o meu conselho de hoje: mesmo que tenha de se ficar em hotel mais simples ou em um hostel, é melhor ficar dentro das muralhas.
                                                                                
        O povo é de um acolhimento, gentileza e alegria ímpar. Uma mulher muito feminista não vai gostar do que vou escrever: os homens são atirados, seguem-te na rua, chamam as mulheres de guapíssimas, roubam beijam, oferecem seu coração, dizem-se apaixonados. É um certo jogo de cena de conquista e flerte ao estilo do amor cortês, que espera que a mulher diga o não, contrariando-o. Assim nessa ficção enganosa em que se diz a verdade do desejo, os homens mostram-se calorosos e ardentes, como os homens do Caribe devem ser. E as mulheres se sentem lindas e adoradas.

        Para mim, depois que li O amor nos tempos do cólera, Cartagena ficou como a cidade dos amores contrariados, desatinados, sem futuro. Essa cidade cheia de histórias de guerras, de luta por independência dos espanhóis, de batalhas vencidas e perdidas contra os ataques de piratas, do cólera, da fome, do calor insuportável, será sempre um templo aos amores impossíveis. E, por isso mesmo, eternos. Nada dura mais na vida do  que o que não se realizou. É isso Cartagena das Índias: uma cidade irrealizada. Escrevo para vocês em tempo real: quem tem um amor irrealizado, venha viver alguns dias sua ruína de amor nessa cidade de ruínas. Quem não tem, traga sua ruína alguns dias para cá. De qualquer forma, para todos, venham para cá. Quanto a mim, eu não volto para casa.

Patagônia na região de Magalhães: a terra de planícias infinitas onde o vento não tem primaveras. Parte II: o lado chileno


No dia trinta de dezembro de 2014, peguei um voo em Santiago, no Chile, para chegar a Punta Arenas, na região de Magalhães, Antártida Chilena. Sozinha, pousaria nessa cidade no extremo sul e pegaria um ônibus para chegar a Puerto Natales, cidade pequena, ponto de parada para ir ao Parque Nacional Torres del Paine. Assim o fiz. Cheguei a Punta Arenas em um verão austral de 10 graus positivos, temperatura razoável, se não fosse por um vento desvairado que entra pelos poros de seu corpo e se acomoda até entre seus átomos. Não fosse por isso, a temperatura seria completamente aceitável.
Eu estudo muito antes de ir para um destino distante. E mais ainda quando é tão inóspito como esse. E não leio apenas os livros de história e o que os poetas e escritores escreveram sobre o lugar. Faço coisas práticas para a viagem: imprimo os mapas, leio os guias de viagem e entro nos sites e blogs de viajantes. A internet tem sido um mapa precioso para me guiar. E também meu celular: liguei-o e já me disse onde estava: Região de Magalhães, Antártida Chilena.
Já sabia que ao sair do aeroporto, teriam várias vans estacionadas à frente e elas levavam os turistas até as companhias de ônibus. Três companhias fazem o trajeto entre Punta Arenas e Puerto Natales, cada uma tem sua loja e seu embarque em locais separados, na cidade. À frente do aeroporto, olhando as muitas vans, decidi por uma porque o motorista me pareceu confiável. Fui até ele, até o momento só eu interessada em contratar seus serviços. Minutos depois chegou um grupo com uns dez japoneses. Eu não sabia qual a melhor companhia de ônibus, mesmo com tudo que tinha lido sobre a viagem, mas os japoneses disseram para ele qual delas eles queriam. Eu fui na onda: pensei “os japoneses são muitíssimos mais espertos do que eu”. Na verdade, depois fiquei sabendo que era a companhia mais barata, não a de ônibus mais confortáveis. Paciência. Na van, fui sentada ao lado do motorista, ele me contando a história da cidade. Ao chegar à companhia de ônibus, os japoneses, apressados como são, pegaram suas malas e saíram. Eu peguei a minha por último. Não pagaram o motorista. Ele foi cobrá-los, o japonês a quem ele se dirigiu apontou para outro, ele chegou nesse e pediu o dinheiro e o homem lhe deu o dinheiro da passagem de todos. Fiquei pensando que lógica era essa: eles só dariam o dinheiro se ele pedisse ou foi um puro esquecimento?
                                                              

No ônibus, já acomodada em direção a Puerto Natales, pude pensar um pouco na história do lugar. Punta Arenas começou como um pequeno povoado, um ponto de apoio aos navegadores, logo depois que Fernão de Magalhães entrou por um canal estreito, navegou por dias e saiu no outro lado, no Pacífico. O primeiro homem que deu uma volta completa ao mundo, de um canto ao outro. O mundo com seus mares e oceanos, ficou para ele, sem fronteiras. Enquanto navegavam, avistaram muitos fogos na terra, fogueiras que o povo nativo acendia para iluminar a noite e espantar o frio. Isso fez esse desbravadores chamarem a terra de Tierra del fuego. Em expedição futura, quando os espanhóis aportaram, encontraram marcas de pés gigantes, o que deu origem ao mito do abominável homem das neves. Os índios usavam sapatos grandes, feitos de pele e couro de animais, que lhes permitiam se locomover melhor na neve. Quando os europeus descobriram isso, o nome patagon e o mito, que tinham construído para esses habitantes ainda desconhecidos, já haviam deixado pegadas, fama. Os índios viraram os patagões, de patas grandes, embora não as tivessem. Enfim, mostra que grande é a imaginação do ser humano.
A esse canal estreito que tinha descoberto, Magalhães deu o nome de Canal de todos os santos: foi o primeiro nome do Estreito de Magalhães. Esse português que renunciou a sua cidadania, porque D. Manuel I teve mentalidade estreita e não quis financiar sua expedição para os Mares do Sul. O rei espanhol Carlos V. o fez, deu-lhe navios, tripulação e provisões, e acreditou em seu projeto de encontrar uma travessia que permitisse ligar dois oceanos. Fernão tinha quarenta anos, por uma causa renegou um rei, uma língua e uma nação. E a descoberta coube à Espanha, feita por um navegador português. Tivesse D. Manuel pessimismo menor e maior visão, hoje na Patagônia se falaria a nossa língua.  E tanto Fernão deu-se a essa causa que dela morreu, seis meses depois. Ele e sua frota atravessaram o estreito e saíram no Pacífico, navegaram margeando ilhas onde hoje são as Filipinas. Reduziram a velocidade para passar por outro estreito, ao lado da Ilha Mactan. Foram atacados pelos nativos e Magalhães foi morto em seu próprio navio, que ele escolheu o nome: Vitória. Perdeu a vida e eternizou seu nome na história, pois o rei espanhol soube valorizar seu feito e rebatizou o canal descoberto por ele, de Estreito de Magalhães.
Depois de Magalhães, a Patagônia Chilena com seu estreito de Magalhães virou o grande atrativo dos navegadores, única passagem de ligação entre o Pacífico e o Atlântico, até séculos depois a engenharia humana fazer o Canal do Panamá.  Anos depois de Magalhães, o pirata inglês Francis Drake foi o segundo homem a fazer a volta ao mundo, atravessando o canal. E para dar-se ares de importante, entrou no canal pelo Pacífico, foi até o Atlântico e voltou para reencontrar o Pacífico e fazer dupla travessia de uma vez só. E também deixou seu nome eternizado lá: o espaço de mar entre o continente e a Antártida é chamado de Passagem de Drake. Essa passagem marítima é onde se dá a pior navegação do mundo, as piores correntes que de lados opostos se encontram e aumentam pelo pior vento do mundo. Só não sei o porquê a Cartografia resolveu nomear essa parte do mar de Passagem de Drake se ele não atravessou por lá e sim pelo Estreito de Magalhães. Enfim, Drake queria se dar ares de importante na dupla travessia e os cartógrafos fizeram algo maior do que ele mesmo, esse pirata destemido, fez: na escritura cartográfica o fizeram navegar até mesmo onde sua coragem não o levou.  Assim, quando no hall do aeroporto de Punta Arenas, os agentes de viagem vieram me oferecer cruzeiro para os Mares do Sul, se aproximando das banquisas de gelo da Antártida, lembrei-me dessa história e respondi de jeito nenhum. Se nem Francis Drake teve coragem para tal, vou ser eu? De jeito nenhum.
E depois de Drake, outros piratas e frotas espanholas, holandesas, suecas e inglesas apareceram por lá. Em 1831, Robert FitzRoy, o capitão inglês do HMS Beagle,  em sua segunda expedição ao fim do mundo, levou o naturalista Charles Darwin e os mistérios das espécies do mundo começaram a ser decifrados.
Estou eu no ônibus olhando as paisagens desoladas de uma planície quase infinita, com vegetação rasteira, poucas árvores, retorcidas pelo vento a ponto de fazerem nós entre seus galhos, umas tantas já mortas, outras lutando bravamente contra o vento para sobreviver, pela janela pareceu-me que o terreno era calcário. Ali, naquela planície, sobreviver é só para os fortes, os muito fortes. É uma paisagem desolada. Nenhum restaurante, nenhum posto de combustível, quase sem construções por duzentos e cinquenta quilômetros. Converso com uma mulher sentada ao meu lado, mora em Puerto Natales, tem um curativo na mão esquerda. Cortou-se. Os pontos foram dados no pequeno hospital de Puerto Natales, mas os cuidados para não infeccionar, ela foi ter em Punta Arenas. Só nessa hora fiquei com medo: se eu passar mal, tiver qualquer problema de saúde, nem meu seguro Assist-Card daria jeito. Ela se surpreendeu por eu estar sozinha, disse que minhas amigas chegariam em três dias. Trabalhava em um restaurante com uma grande loja de artesanato e souvenirs, disse-me que eles teriam ceia de virada do ano. No dia seguinte pela manhã, fui lá e comprei meu lugar na ceia.
O taxista que me levou ao hotel também se surpreendeu por eu estar sozinha e me deu seu telefone: se eu precisasse de algo, poderia ligar para ele. Percebi que ficou um tanto encantado por mim, mas foi muito simpático e gentil, guardei o telefone. Dirigiu pela avenida costeira ao fiorde; o primeiro posto de combustível que vi (a cidade só tem dois) foi da Petrobrás. No Hotel Saltos del Paine fui tão bem recebida por uma atendente jovem, tão simpática e que me explicou tudo o necessário. Com a mulher da mão cortada, de quem não lembro mais o nome, o taxista e a jovem atendente Ana - o posto da Petrobrás também - esqueci a sensação de desamparo que a paisagem desolada me deu. O hotel ficava a uma quadra do porto, fui a pé em direção a ele e havia uma imensa placa de aviso de como proceder em caso de tsunamis. O desamparo não voltou porque passei dias ignorando a placa. Quando Márcia e Alba chegaram, Márcia, que é a pessoa mais engraçada que eu conheço, me disse: você não nos disse dessa placa “corra que o perigo vem aí” – minhas amigas estavam em Santiago e conversávamos pelo whats.
O Parque Nacional Torres del Paine é um espetáculo, passamos um dia inteiro lá. Um conselho: há ônibus na estação rodoviária da cidade, com preço de passagem de circular, que fazem um pedaço do trajeto do parque, dá para se ir assim, sem gastar tanto. E não dá para achar que um dia basta para conhecer o parque. Tudo é tão grandioso que nem cabe nas fotografias. Mas já dei por visto.
                                                              

Quando estava no ônibus, além da planície quase infinita, ao longe, via-se a Cordilheira dos Andes, a separar a Argentina do Chile e um monte mais alto, praticamente vertical, sem escarpas. Confirmei com a minha vizinha de banco: é o FitzRoy? Ela me respondeu que sim. Era para eles a fronteira, para mostrar que ali já era a Argentina. Outro europeu que se eternizou ali: a pior montanha, mais vertical, pior escalada do mundo, tem o nome do navegador Robert FitzRoy. Tudo na Patagônia chilena é o maior: o vento, as marés, a montanha íngreme, a paisagem desolada. E o desamparo humano. Se na Patagônia Argentina, Blaise Cendrars escreveu que a tristeza imensa que sentia cabia na imensidão do lugar, nessa região do Chile, Gabriela Mistral usou adjetivos parecidos: infinita, desolada. Escreveu: “O vento faz de minha casa uma ronda de soluços, e de alaridos, quebra, como um cristal, meu grito na planície branca, de horizontes infinitos, e vejo morrer imensos ocasos dolorosos”. É parte de seu poema desolação. Depois de falar de tantos homens europeus que foram para lá e deixaram seus nomes em tudo, recordo-me de uma mulher simples, uma chilena do norte que foi ao sul de seu país escrever os mais belos poemas sobre a Patagônia, uma professora e poetisa, única mulher da América Latina a ganhar o Prêmio Nobel da Literatura. Sua frase para designar a Patagônia: uma terra onde o vento não tem primaveras.
Ainda mais um conselho: enfrentem o desamparo que tal viagem evoca e não deixem de, pelo menos uma vez na vida, fazer parte dessa imensidão. Minhas idas à Patagônia não terminaram. Tenho de ir ao parque El Chaltén, perto de El Calafate e ver FitzRoy de perto. Procuro companhia para essa viagem, mas tem de ser das fortes.



Patagônia: no fim do mundo, um mundo imenso. Parte I: o lado argentino


Bruce Chatwin, na infância, tinha imenso interesse pelo pedaço de pele com chumaços de pelo avermelhado, guardado dentro do armário, atrás de uma porta de vidro, na casa de sua avó. Em seu livro Patagônia, descreve esse como o fato mais marcante de sua infância. O pedaço de pele, contou-lhe sua avó, era de um brontossauro, enviado por um parente dela que vivia nos confins do mundo, do outro lado do oceano, na Patagônia.
Na escola, falando do pedaço de pele de brontossauro, a professora o desmente: brontossauro não tem pelo, só couro. É debochado pelos colegas por contar uma mentira. Quando a avó morre, os herdeiros se desfazem de todos seus pertences e ele perde o pedaço de pele que gostaria de ter guardado para si.
Ficara o enigma que só depois, como adulto, desvendou: sua avó errou, o pedaço de pele era de uma preguiça gigante, pré-histórica, encontrada nas geleiras da Patagônia por Charley Milward, capitão de um navio mercante que afundou no Estreito de Magalhães. Sobreviveu ao naufrágio e passou a viver em Punta Arenas. Quando encontrou a preguiça gigante, mandou à parente inglesa, distante, um pedaço de sua pele. É esse pedaço de pele que determinará o interesse, ainda menino, de Chatwin pela Patagônia.
Quando adulto, Chatwin deixará um trabalho, deixará a Inglaterra, para uma viagem em busca dessa terra distante, inóspita, descrita por Júlio Verne em "O farol do fim do mundo”. Fará essa viagem como um viajante e não como um turista, percorrerá trechos de mata sozinho, lagos, encostas, pedirá carona em muitos lugares, dormirá em celeiros, junto com peões e ovelhas. Conversará com as pessoas do lugar, com ingleses, galeses, estrangeiros de muitos lugares do mundo, que antes dele, ficaram fascinados pela Patagônia e a escolheram para viver. História de mortes, aculturação e destruição dos índios, verdadeiros donos da terra, de revoluções; briga por terra, poder. Descrições de lugares maravilhosos. Li esse livro como um guia da Patagônia e um mapa para ir marcando os lugares por onde ele passou.

                                                            

Patagônia, de Bruce Chatwin é um livro lindo, uma mapa que levei anos depois para essa viagem que fiz até lá. E que, nem de longe consegui fazer tudo o que ele fez. E nem conseguirei descrever aqui para vocês com a beleza que ele descreveu em seu livro.
O livro de Chatwin começa com uma epígrafe que é um verso do poema do poeta e novelista suiço Blaise Cendrars: "A Patagônia, somente a Patagônia convém à minha imensa tristeza". Nesse poema, Cendrars – eu fui procurar que poema era esse depois de ler o livro de Bruce Chatwin – conta que passou sua infância em uma escola atrás da estação de trem e os trens estavam sempre de partida, isso fez com que, em sua vida, sempre corresse um trem atrás de si, de Bali a Tombouctou, de Paris a Nova York, de Madri a Estocolmo. A beleza é que é um trajeto ferroviário imaginário, impossível de ser feito de trem, pois em todos há um mar no meio do caminho. Eu o entendi imediatamente, pois eu já tive um sonho repetido em que ia de trem de Trieste a Bonifácio, também um trajeto com um mar no meio. E continuo em seu poema: e perdi todos meus pares, e não há mais do que a Patagônia, ela convêm a minha imensa tristeza, a Patagônia é uma viagem pelos mares do sul. “Eu estou nos trilhos, sempre estive nos trilhos. O trem faz um salto perigoso, mas novamente cai e retoma seu caminho, retoma seus trilhos.” É um poema lindo, o poeta faz uma metáfora: a vida é o trem com seus trilhos, mas ela tem acontecimentos inesperados, trajetos inesperados, aos quais ela salta, e depois volta aos trilhos. O mar é esse inesperado, misterioso, perigoso e incógnito. Mais ainda na Patagônia, com os imensos e gelados mares do sul. Na Patagônia os saltos perigosos são muito maiores. E convêm a uma tristeza imensa. Assim o entendi.
Depois de tudo isso que escrevo, constato e creio que meus leitores dessas crônicas já sabem desse óbvio: meus passeios pelos lugares do mundo são sempre, também, um passeio pela literatura. Aprendo muito com aqueles que estiveram lá antes de mim, são meu mapa. E já disse o que achei da Patagônia com Bruce Chatwin e Blaise Cendrars. Concordo completamente com o que eles escreveram. Só não estava nesse momento de grande tristeza, pois era um momento bom de minha vida – vejam que não escrevo depressão, para não adoentar e medicalizar as dores da alma e da existência que a modernidade vem fazendo – mas minha amiga estava, e compartilhei sua tristeza: ela tinha perdido o pai naquele ano e a Patagônia foi propícia para seu luto imenso. Ela estava lá, saltando sobre os Mares do Sul, como Blaise Cendrars. Diante da imensidão que é Perito Moreno, chorou a morte do pai. E quando, por um inesperado da vida, a geleira começou a ranger, barulhos secos, como de uma rachadura imensa, sentamos diante de Perito Moreno, as quatro amigas, e esperamos ele rachar. Quando um bloco imenso caiu, rachou e se perdeu no lago, deslizando para derreter no mar, minha amiga gritou, um grito pelo pai, em memória do pai.
Em dezembro de 2012, com Alba, Fabiana e Priscila, andei muito por suas terras, geleiras, estreitos, nesse lugar mais meridional do planeta, em uma viagem pela Patagônia argentina e brindamos a virada do ano na cidade de El Calafate, com os cacos de uma champagne cara que tínhamos comprado para comemorar e que eu, descuidadamente, quebrei. Improvisamos. Quatro amigas juntas em uma foto, assim veio para mim 2013, augúrio de um ano que se revelou excelente.
El Calafate é somente um ponto de parada para conhecer a natureza ao seu redor: o Glaciar Perito Moreno, El Chaltén e outros parques. Tem bons hotéis e bons restaurantes e Perito Moreno fica a setenta quilômetros, no Parque Nacional dos Glaciares. Fomos até El Calafate de avião, pois fica a quase três mil quilômetros ao sul de Buenos Aires. Ao sobrevoar o aeroporto, a paisagem é um espetáculo, pois viajamos margeando a Cordilheira dos Andes e ao pousar vimos o gigantesco Lago Argentino, nos arredores da cidade.

                                                            

Deixamos El Calafate em outro voo e mais mil quilômetros abaixo, chegamos a Ushuaia, conhecida como a cidade do fim do mundo, a última, o ponto mais meridional do planeta. Depois dela só o Estreito de Magalhães, onde os oceanos encontram-se, o Atlântico e o Pacífico e, mais abaixo o Polo Sul, a Antártida. Fomos até lá no verão – cerca de 7 graus positivos, se é que se pode dizer que é um verão – pois no inverno a temperatura é de cerca de trinta graus negativos e até os aviões têm dificuldades de pousar no aeroporto. Estávamos lá nesse “verão”, na primeira semana de janeiro. Ushuaia é uma cidade muito bonita. O Parque Nacional Tierra del Fuego, nos seus arredores, tem paisagens que enchem os olhos: a Cordilheira dos Andes se intromete no nosso olhar para onde quer que viremos, lagos gelados, a floresta destruída pelos castores, as árvores todas retorcidas pela força do vento, com seus galhos retorcidos. O vento antártico é cruel, atroz. Não existe outro tão forte.
Um imprevisto, um salto dos trilhos do programado: fizemos check-in e chegamos bem antes do embarque no aeroporto. Ele estava tumultuado. A companhia Aerolineas Argentinas fez over booking e colocou um grupo de passageiros, que chegou com um agente de viagem, no voo e a nós e outros tantos, colocou em um ônibus para irmos até a cidade de Rio Grande e lá, algumas horas depois, pegarmos o voo para Buenos Aires. Assim, entramos em um ônibus caindo aos pedaços, sem banheiro, sem cinto de segurança, para rodarmos por estradas ermas, montanhosas, contornando a onipresente cordilheira.
Disse-nos a companhia que era perto até Rio Grande. Abri meu mapa, todas um tanto nervosas – Priscila Guimarães estava em outro voo, poderia ter ido de avião e ter nos esperado em Buenos Aires, mas abdicou de sua passagem aérea e foi no ônibus-sucata com as amigas. Abri meu mapa para procurar Rio Grande, Alba, sentada na primeira fila do ônibus - já fica um tanto nervosa no dia de viagem, isso quando tudo corre bem - vem até mim: você viu no seu mapa qual trajeto vamos fazer? Vamos subir ou descer? Começamos imediatamente a rir com a pergunta que só foi reflexo da preocupação: se descermos, nós sairemos do mapa, não há mais nada abaixo. E assim, duzentos e dez quilômetros depois, chegamos sãs e salvas a Rio Grande, pegamos o voo para Buenos Aires e dissemos adeus à Patagônia. Dissemos adeus a suas paisagens ermas e selvagens, ao seu frio, ao seu vento gelado, ao Estreito de Magalhães, onde passeamos de barco e com leões-marinhos e pinguins olhando-nos das pequenas ilhas, avistamos o encontro dos oceanos. Tudo tem outra dimensão, tudo é maior: a pequenez humana se agiganta, as alegrias podem virar euforias e a tristeza pode parecer imensa.



sábado, 23 de julho de 2016

Visitando o Campo de Concentração de Auschwitz

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Todos os caminhos do Leste Europeu levam à Cracóvia

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Crônica sobre a Córsega: a indomável montanha perdida no mar

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Alma, de Manuel Alegre


                                                                           


O narrador de Alma nasceu nessa cidade imaginária situada nas proximidades de Aveiro e Vizeu, NA casa dos avós maternos, republicanos, onde também moravam seus pais. O pai, monarquista. Com esse pai monarquista e a mãe, que esperava um futuro diferente para ele, vai contando suas lembranças de infância.
Manoel Alegre escreve poesias e romances. E os romances escreve como se escrevesse poesia. Seu narrador vai desfiando as memórias do menino encantado com os ciganos e com o circo. Ambos vinham de fora, ficavam um tempo na cidade e partiam. Eis alguns trechos dessa que é uma das mais belas do livro: “Eu tinha inveja dos ciganos, das suas fogueiras em Além da Ponte, das suas carroças que os levavam para o sul e passavam a fronteira. Não tinham casa, não eram obrigados a ir à escola, não estavam sujeitos a nenhum horário, a nenhuma obrigação. Um dia, Zé Mafra, pai de um ciganito meu amigo disse-me uma coisa lindíssima, nunca mais a esqueci, parece um poema: cigano não tem casa, cigano só tem caminhos.”
E continua: “Era talvez por isso que eu não resistia a andar com eles: pelo que neles havia de vagabundagem, outros rios, outras terras, outras fronteiras. Hei de casar com uma cigana, dizia eu às vezes. E a minha mãe via nisso mais um sinal. Mais não sei se achava graça. Creio que ela sempre teve medo que eu lhe fugisse.
E quanto ao circo, ele conta que depois de dias felizes com o circo na cidade, ele partiu para Vizeu. Ele e Nicolau pegaram dinheiro escondido e planejaram ir para Vizeu encontrar o circo. Foram descobertos e surpreendidos na estação, quando iriam pegar o trem. O pai de Nicolau bateu no menino lá mesmo, na frente de todos. Sua mãe o conteve, disse ao pai tão nervoso que os meninos não sabiam o que faziam. Ele pensou: a gente sabia sim, mas não contradisse sua mãe. Em casa, a mãe muito ofendida e magoada com ele por não ter contado para ela o projeto, ter escondido dela algo tão importante, que sempre poderia contar tudo para ela, dizer tudo. “Então chorei e tentei explicar-lhe o que era difícil de explicar: que tinha uma paixão pelo circo, algo que eu nem sabia bem o que era. É uma saudade, mãe, uma saudade nem sei do quê.... Ela fez-me uma festa, deu-me um beijo e disse-me que percebia muito bem. Não sei ao certo se sim, se em tudo aquilo ela viu apenas mais um sinal, ou se ela própria por vezes também tinha um sentimento assim, uma saudade de saudade, uma paixão.”