Semana passada, 03 de maio, comecei a escrever crônicas sobre viagens para o Midiamax. A seção chama-se "A bagagem do viajante". Tento responder o que um viajante traz em sua bagagem. Não o turista, mas o viajante.
http://www.midiamax.com.br/variedades/brasil-foi-noticia-dias-portugal-reacoes-foram-indignacao-deboche-299649
Um espaço para comentar sobre literatura, viagens, filmes, artes e todas essas "coisas inúteis" que tornam a vida possível, prazerosa, humana.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
quinta-feira, 31 de março de 2016
Morreu Imre Kertész, o sobrevivente de Auschwitz
Há cinco anos, no começo da primavera, fui para Budapeste com duas amigas. Não fui para a Budapeste dos guias de Viagem lindos, que se espalham pelo mundo, fui à Budapeste de Kertész. Andei pelas ruas, nessa primavera gelada, como se estivesse em seu tempo, em que ele, homem jovem, sobrevivente de Auschwitz, tentava encontrar sentido na vida, escrevendo. Até descobrir que o regime totalitário comunista pós-guerra era outra prisão. E viveu sua vida-prisão ali, até se casar com uma mulher feliz, e poder deixar Budapeste.
Não foi só por isso que detestei Budapeste, com seu povo grosseiro, arrogante, segregativo. Se eu tinha alguma dúvida sobre isso, o tratamento recente aos refugiados só confirmou isso.
Por mim, não volto nunca mais lá. Por Kertész não volto nunca mais lá.
Um capítulo de meu livro "Sobre amores e exílios" foi sobre esse homem ímpar, que enobreceu a humanidade. Muitos escritores se suicidaram depois de sobreviverem à Auschwitz, e apregoaram como a vida ficou insuportável depois do campo. Ele continuou a viver, e muitos anos depois até encontrou a felicidade.
Coisa difícil nessa vida, mesmo sem Auschwitz.
Abaixo o capítulo de meu livro que é sobre ele.
Ele tornou minha vida melhor e hoje estou de luto por ele.
CAPITULO
9
Ser um sobrevivente de Auschwitz
Onde o assassinato é
lugar-comum, a pessoa
não se torna um assassino
por revolta,
mas por zelo.
Imre Kertész
O ódio, quando está bem
organizado, cria uma realidade,
assim como o amor também
pode criar uma realidade.
Imre Kertész
A persistência do tema sobre a Segunda Guerra Mundial deu-se após a
visita, em 2003, a um campo de concentração perto de Munique. O campo de
concentração de Dachau hoje é um museu que conta a história da guerra,
transformado em museu prioritariamente como um monumento do que não pode
acontecer nunca mais. Aliás, na entrada está escrito nunca mais em
muitos idiomas. O encontro com esse real, andar pelo campo, pelo crematório
deixou-me como resto uma necessidade de estudar mais sobre este período da
história, estudar sempre. E foi assim que me caiu às mãos o primeiro livro de
Kertész que li, Sem destino. Oito anos
depois da visita a Dachau, em 2011, estive no Campo de Concentração de
Auschwitz. Estive também na cidade de Budapeste, onde foi capturado para ser
enviado a Auschwitz. Depois de ter sobrevivido ao Campo, Kertész fez dela seu
cativeiro.
O campo de Auschwitz
Kertész,
ganhador do prêmio Nobel da literatura de 2002, era um garoto de quatorze anos
quando a caminho do trabalho – já instituído pelos nazistas – é preso
juntamente com outros simplesmente por ser judeu. Fica, junto com outros
garotos, detido em um quartel improvisado da SS. A violência é tamanha que ele
olha para as metralhadoras e pensa que seus suportes parecem os pés de uma
cegonha, “com um ridículo apetrecho em forma de funil, preso à boca do cano,
parecia o moedor de papoula de minha avó”.1
Sempre tentando dar sentido a irrupção desse real, relaciona a metralhadora com
coisas amenas e conhecidas, como um objeto da casa da avó.
É
enviado a Auschwitz, depois com o joelho machucado é reenviado a Buchewald, e
no terceiro campo, o de Zeitz, é resgatado pelos aliados.
Quando
volta, junto com tantos húngaros, a Budapeste, vê que a população da cidade não
quer olhar para ele. Entra na cidade, magro, raquítico, morto de fome,
maltrapilho e as pessoas desviam dele o olhar. No bonde que o leva a sua rua,
encontra um jornalista que lhe pergunta se está voltando de um campo de
concentração, lembra que o jornalista diz que aquilo que aconteceu com ele
precisa ser falado, contado a todos. Afasta-se. Quando toca a campainha de sua
casa, estranhos o atendem, ali não é mais sua casa. Os vizinhos antigos
chamam-no, contam que seu pai morreu, sua madrasta vive com outro, e todo o
acontecido foi uma fatalidade, o destino, que deve esquecer tudo, “pois com um
peso assim não se pode começar uma nova vida”.2
Ele concorda.
Mas
não concorda com a explicação sobre o destino: se tudo foi o destino, qual a
liberdade do homem? Não era o seu
destino, mas o viveu. É por isso que o primeiro volume de sua história
intitula-se Sem destino. No livro A
língua exilada conta que Auschwitz destruiu sua noção de pátria, nação,
povo: sente-se de lugar nenhum. “Ante uma aparição como Auschwitz, a lógica,
indiscutivelmente, não nos leva longe: parece que a razão declara falência”.3
O
autor faz uma listagem dos escritores que viveram a realidade de Auschwitz e se
mataram; por enquanto ele está se agüentando sem fazê-lo.
Mas
continuando em sua trilogia, depois de Sem destino, escreveu O
Fiasco. Essa obra retrata a experiência de um escritor que quer escrever
sobre Auschwitz, mas isso não é aceito pelo seu editor. Kertész mostra-nos como
o regime comunista húngaro tentou esconder as atrocidades nazistas. A esses
“humanistas profissionais” é preferível acreditar que “Auschwitz ocorreu
somente para aqueles com quem as coisas, casualmente, aconteceram lá e naquele
momento e que, ao contrário, com outras pessoas, com quem as coisas,
casualmente, não aconteceram lá e naquele momento, ou seja, à maioria, ao ser
humano – o Ser Humano! - de um modo geral nada aconteceu”.4
Em
O fiasco retoma suas lembranças sobre Auschwitz e nos mostra como esse
campo de concentração ficou em sua vida, quase como um non sens, um real
que escapa ao sentido, e por isso mesmo, insiste. Uma paisagem desolada lhe
lembrava Auschwitz, uma árida região industrial também, o cheiro do couro da
corrente de seu relógio lembrava-lhe o fedor dos cadáveres.5
Em
Kadish. Por uma criança não nascida, final da trilogia, vai sustentar
que depois de Auschwitz não poderia colocar uma criança no mundo, “não poderia
ser Deus de um outro homem.”6 Ele
sente-se culpado demais para suportar a idealização, a deificação que um filho
faz do pai. E, além disso, ele é o rejeitado da díade mãe-filho. A rejeição ele
mesmo a relata como motivo, no que ele chama a análise de seu complexo de
Édipo. Quanto à relação entre não poder ser pai e a culpa é uma hipótese nossa.
Mas por que ele, o sobrevivente, é culpado? “Só os mortos não caíram manchados
de infâmia do holocausto. É amargo levar o selo da sobrevivência que não tem
explicação.”7 É por isso que não se
aprofundará na tese de que foi ajudado por alguém quando estava no hospital de
Buchenwald.8
No
Dossier K., compilação de entrevistas
que ele faz com ele mesmo9 afirma
que “a vivência dos campos de extermínio tornou-se uma experiência humana
quando descobriu a universalidade da vivência. E esta é a ausência de destino,
esse traço específico das ditaduras, a expropriação e estatização do destino
próprio, sua conversão em destino de massas, o despojamento da substância mais
humana do homem”.10 É
exatamente nesse apagamento do sujeito – embora ele esteja chamando de
indivíduo, ou da história individual em contraposição à massa – promovido por
toda ditadura, que Kertész relacionará o nazismo e o socialismo.
Podemos
dizer que, primeiramente, com os nazistas e, depois, vivendo sob o jugo
socialista soviético que governou a Hungria por tantos anos11, o autor descobriu a capacidade
destrutiva do ser humano. Lacan concordaria com ele em sua teorização sobre os
campos de extermínio e Freud com sua decepção sobre o ser humano. Lacan
sustentou que a existência dos campos evidenciou a exclusão do sujeito, que o
discurso científico também faz e que promoveria maior segregação12 E quanto a Freud, em O mal-estar na
civilização mostrou que as tendências destrutivas estão presentes em todos
os homens e, portanto, as tendências anticulturais.
Ainda
no citado Dossier, conta-nos que, ao
final dos anos 90, conheceu o diretor do Memorial de Buchenwald e, então, com a
ajuda dele, pesquisou sobre a “Sala seis”, quarto do hospital do referido campo
em que ele ficou internado quando machucado. E não encontraram nenhuma
referência da existência dessa sala em Buchenwald, mas descobriram que ele,
Imre Kertész, prisioneiro húngaro de número 64.921 faleceu em 18 de fevereiro
de 1945. Para ele trata-se de mais uma prova de que alguém o ajudou, seu nome
foi apagado da lista dos doentes em tratamento para não ser morto. Qual a
explicação sobre quem o ajudou? Não a tem. O que aconteceu? Não sabe. Mas
qualquer explicação necessitaria de outras explicações “e o mistério do mundo
continuaria sendo um espinho torturante como sempre.”13
A identidade: desprender-se da
própria história
Mas
qual a importância para um psicanalista de ler a obra de Kertész? Respondemos:
deixando de lado a afirmativa de que um psicanalista deve ser um conhecedor de
literatura, filosofia e mitologia14;
deixando de lado, também, que um psicanalista tem de responder às questões
colocadas pela sua época15;
deixando de lado, ainda, a beleza dessa escrita; e deixando mesmo de lado ser o
autor testemunha de um acontecimento terrível que assolou o século XX, ainda
assim, nós, psicanalistas, teríamos dois motivos para ler sua obra: o primeiro
é pela importância de sua denúncia do apagamento do sujeito. Kertész sustenta
que nossa época não é propícia à conservação do indivíduo, pois os moralistas
têm conduzido os movimentos de massas com suas teorias de salvação do mundo.
Como fazer frente a isso? Responde: eleger nossa própria verdade em vez de a
verdade.16
E
o segundo é que Kertész mostra-nos que a identidade não tem “nenhum
significado”, ou dizendo lacanianamente, os significantes não dizem o ser. À
medida que o sujeito é representado pelos significantes, e que só pode ser no
espaço entre um significante e outro, sua identidade comporta sempre uma
divisão, uma queda. Se ele se agarra ao significante, ao “tu és isso”, está na
alienação; se desliza todo o tempo na cadeia significante, está à deriva. O
psicótico sabe dessa sensação de deriva, dessa limitação do simbólico.
Kertész
uniu ao nome um denotativo, “o sobrevivente de Auschwitz”. Ainda que essa
nomeação que ele se fez não se resuma a uma autonomeação, pois é solidária ao
laço social17, fez sua identidade por
muito tempo. Até poder se desprender dela, deixá-la cair e sustentar-se com a
escrita.
O livro “Eu, um outro” funciona quase como um
percurso analítico para o autor. Ele vai dizer que é uma novela sobre a
liberação.18 Começa se perguntando
quem é e qual a sua história. Assim, já evidencia que a identificação de ser o
sobrevivente de Auschwitz não lhe basta para dizer seu ser. E para isso cita
Rimbaud: “o Eu é uma ficção na qual, no máximo, podemos ser co-autores”.19 E afirma que não consegue saber nada
essencial sobre si mesmo e a imaginação cria uma realidade que parece mais real
que o Real.20
Conta-nos, no início do livro, duas histórias que mostram o estigma de
ser judeu, uma da Segunda Guerra Mundial e outra mais atual, uma experiência
pela qual passou com um taxista em Frankfurt.
A primeira: Moritz Schlick, filósofo e estudioso da linguagem, professor
da Universidade de Budapeste foi morto a tiros no salão nobre da universidade,
em 1936, por um aluno que não gostava de judeus. Condenado e preso, o aluno foi
solto e homenageado logo que os nazistas tomaram o poder no país.
A segunda história: Kertész pega um táxi para ir à estação de trens, em
Frankfurt e o motorista, um muçulmano egípcio, fala muito, discorre sobre a
política e xinga os judeus. Ele não diz ao motorista que é judeu, desce
correndo do táxi e esquece sua carteira com todo o dinheiro. Quando está
tomando o trem, o motorista vem correndo e lhe entrega a carteira com todo o
dinheiro dentro. Ele fica atordoado e até esquece de dar uma gorjeta ao homem.
Só depois pensa que agradeceu com tamanha naturalidade “como se nada fosse mais
comum do que motoristas de táxi em cidades grandes correrem atrás do passageiro
estrangeiro com sua carteira esquecida no banco”.21 Sua conclusão: “é possível que
suportemos a vida tão somente por ela ser tão improvável; por outro lado, a
consciência procura investigar o tempo todo, a chamada realidade, deseja a
realidade”.22
Acredito que esta cena contradiz sua condição de “estigmatizado por ser judeu”,
pois nesse livro ele dá um passo a mais, o que faltava na trilogia acima
citada: ele não se afirma mais como o judeu sobrevivente de Auschwitz. E afirma
ser “um judeu diferente. Que tipo de judeu sou, afinal? Nenhum. Há muito tempo
não estou mais à procura de minha pátria, nem de minha identidade. Sou
diferente deles, sou diferente dos outros, sou diferente de mim”. Sua
identidade é escrever: “tenho uma única identidade, a identidade de escrever”.23 Nisso ele se iguala a Thomas Bernard.
Ele mesmo tenta uma analogia em “Liquidação.”24
E ele conclui este livro de uma forma bem linda – não pensem que estarei
relevando o final, têm muitas histórias contadas que valem o livro e só conto
um pequeno trecho do final – “o passado é um depósito abandonado de coisas,
experiências, sons e imagens de tempos longínquos, já completamente
distanciados de suas fontes vivas, da vida que outrora os tinha produzido e,
por algum tempo, os guardava intactos. Minha história desprendeu-se de mim: de
repente, perco o equilíbrio como alguém que perdeu seu caminho e, entre passado
e futuro, escapuliu do tempo”.25
Há uma semelhança nesse vacilo das identificações com um final de
análise. Mas seu “passe” foi feito com a literatura. O passe é um dispositivo
criado por Jacques Lacan para averiguar o final de análise. Nele, o analista
põe a prova o que foi seu percurso analítico, enfim, sua relação com o
inconsciente e pode – essa é a aposta – deixar cair suas identificações.26
A relação entre identidade e tempo também aparece no Dossier K, falando sobre sua vida em Berlim: “observando entretido
o movimento de última hora da tarde na metrópole [Berlim] embaixo dos
gigantescos plátanos, cujas frondosas copas se fundem, saio por uns momentos do
tempo e penso, por um instante, assombrado, sobre a aventura que foi a minha
vida.”27
Essa alegria – ele mesmo vai designá-la assim – não por acaso a tem no
exterior, longe de sua Budapeste. Sua vida na Hungria, e fora dela, em
Auschwitz, foi uma história de prisões.28
Se sua condição de estrangeiro lhe permitiu despregar-se de sua história, por
que não saiu de seu país antes, por que não fugiu antes? Ele mesmo se faz essa
pergunta em suas obras e a resposta é: só tenho uma língua, só posso escrever
uma novela nessa língua.29
Faço uma inferência: depois da liberação que alcança escrevendo Eu, um
outro - ou melhor, porque alcançou essa liberdade, pôde escrever esse livro
- pôde desprender-se de sua pátria, de sua judeidade, de sua cidade, e ser de
lugar nenhum, pôde ser de todo o mundo. Tenho, também, uma segunda hipótese:
sua segunda mulher é que lhe propõe alugar um apartamento e morar em Berlim.
Ela é uma mulher que retorna a sua terra natal, a Hungria, após a queda do
regime comunista, depois de trinta anos de exílio. E parece ser alguém que a
condição de exilada não amargurou.30
E assim, vivendo no estrangeiro, torna-se menos apátrida.31
Enfim, termino a seção dos exílios com Kertész porque creio que ele foi
além, deu um passo a mais, que poucos dão, na relação com as identificações que
marcaram sua vida. Ele e Edward Said32
tornaram-se fora-do-lugar e não buscaram mais a terra pátria. Eles alcançaram a
meta de perfeição traçada pelo monge saxão Saint-Victor, que está como epígrafe
deste livro: perfeito é o homem que se sente estrangeiro em todo lugar.
Kertész: ele, o outro, o estrangeiro em seu país, o estrangeiro em
Berlim, o que pôde ser feliz depois de Auschwitz, o que pôde encontrar uma
mulher feliz, o que pôde se exilar de sua língua, porque afinal descobriu – sem
cair na loucura – que somos sempre estrangeiros em uma língua. Seja a nossa ou
outra. Afinal, “a nossa” nunca é nossa.
2
Imre Kertész. Sem destino. São Paulo: Editora Planeta, 2003, p. 172.
3
Imre Kertész. A língua exilada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004,
p. 40.
4
Imre Kertész. O fiasco. Op. Cit.,
p. 39.
5 Ibid, p. 71.
7 Imre
Kertész. Dossier K.. Barcelona: Acantilados, 2007, p. 182.
8 Ver
explicação mais adiante neste capítulo.
9
Ainda que elaboradas a partir do envio, por seu editor, de algumas entrevistas
a que ele respondeu, Kertész as organiza e transforma em um livro que ele mesmo
designa como autobiográfico. Assim surgiu o Dossier K. lançado em 2006,
traduzido para o espanhol pela Editora Acantilados no ano seguinte e que
aguardamos sair no Brasil em algum momento no futuro.
10 Imre Kertész. Dossier K.. Op.
cit, p. 68.
11 Sobre este período ver Doze dias, a revolução de 1956. Victor
Sebestyen. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2006.
13 Imre Kertész. Dossier K.. Op.
cit, p. 73.
15 Lacan, J.. “Função e campo da fala e da
linguagem em psicanálise” (1953). Escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 322.
17
Soler, C. Le noms de l´identité. In : L´identité em question dans la psychanalyse.
Paris: Revue de EPFCL-France., mars
2008, p. 13.
18 Imre
Kertész. Dossier K.. Op. cit, p. 196.
19 Imre Kertész. Eu, um outro. São Paulo: Editora Planeta, 2007,
p. 14.
20 Ibid., p. 165.
21 Ibid.,
p. 44. O que mostra que o racismo às vezes não se encaixa na pessoa real,
no vizinho, no amigo, no passageiro do táxi.
22 Imre Kertész. Eu, um outro.Op. Cit., p. 45.
23 Ibid., p. 73.
24 Em Liquidação,
o protagonista pensa “De novo se tornam válidos os dizeres da Bíblia:
resista à tentação , evite conhecer-se, porque, se o fizer, estará danado, disse” . E, em seguida, acalentando a
idéia de suicídio, nessa era de catástrofes,
refere-se a Bernhard, de como pensou em escrever com o estilo que ele
escreve. In: Kertész, I. Liquidação. São Paulo: Companhia das Letras,
2005, p. 49.
25 Imre
Kertész. Eu, um outro.Op. Cit., p. 172-73.
27 Imre Kertész. Dossier K.. Op.
cit, p. 203.
28 Parece próprio de minha vida que só
posso me livrar de um cativeiro se imediatamente me lançar em outro” Imre
Kertész. O fiasco. Op. cit., p. 42.
29 Ele era
tradutor de alemão, então o que quer dizer esse monolinguismo?
30 “A capacidade de M. ser feliz é uma
dádiva mais extraordinária que qualquer outro talento”. Imre Kertész. Eu, um
outro. Op. cit., p. 117.
31 “É diferente ser sem pátria em seu
próprio país e sê-lo no estrangeiro, onde justamente essa falta de pátria pode
nos levar a encontrar um lar”. Imre Kertész. Eu, um outro. Op. Cit., p.
88. Relaciono com Edward Said, o fora-do-lugar.
32 Edward Said, que tratei tão brevemente
na introdução desse livro, é um deslocado, estrangeiro, que só sobre sua
autobiografia Fora do lugar - uma das
melhores coisas que já li sobre o estrangeiro - vale escrever um livro sobre
ele.
sábado, 5 de março de 2016
Estradas: Marcos Lessa e Gonzaguinha
Semana passada comprei um ingresso para o show Estradas, tributo a Gonzaguinha. O show era em apoio a um instituição bastante séria. Por isso comprei. E também porque minha amiga é que me convidou. Enfim, por uma boa causa e para confraternizar com as amigas, fui.
Adoro Gonzaguinha. Lembro o dia em que ele morreu. De madrugada, dirigindo no Paraná - creio que perto de Pato Branco - voltando para casa depois de um show. Era domingo de manhã quando o Brasil descobriu que esse grande compositor e cantor, tinha ido. Chorei, chorei, chorei. É a vida, é a vida, é a vida. As vezes bela, às vezes triste.
Nunca tinha ouvido falar de Marcos Lessa. Não assisto The Voice Brasil. Nenhuma vez. Não gosto. Acho vexatório. Esse jovem é uma figura muito carismática. Cearense, alto, magro, um menino, jeito de menino - embora tivesse nos avisado que em alguns dias faria 25 anos - mas uma voz enorme, forte, possante, linda. Voz suficiente para fazer um tributo a Gonzaguinha. Durante o show, a imagem e a voz de Gonzaguinha se fazem presente.
E o show tem o apoio de Daniel Gonzaga, o filho de Gonzaguinha.
Show maravilhoso, com um cantor jovem, com uma voz linda, um grande futuro para a música brasileira. Homenageando um grande cantor e compositor, nosso passado, nosso presente, nosso futuro. Um auditório lotado, lembrando das músicas de Gonzaguinha. Fiz as contas: quando ele morreu, Marcos Lessa nem tinha nascido ainda. Um belo exemplo das estradas da vida. E do tempo.
O CD do show também é lindo.
Adoro Gonzaguinha. Lembro o dia em que ele morreu. De madrugada, dirigindo no Paraná - creio que perto de Pato Branco - voltando para casa depois de um show. Era domingo de manhã quando o Brasil descobriu que esse grande compositor e cantor, tinha ido. Chorei, chorei, chorei. É a vida, é a vida, é a vida. As vezes bela, às vezes triste.
Nunca tinha ouvido falar de Marcos Lessa. Não assisto The Voice Brasil. Nenhuma vez. Não gosto. Acho vexatório. Esse jovem é uma figura muito carismática. Cearense, alto, magro, um menino, jeito de menino - embora tivesse nos avisado que em alguns dias faria 25 anos - mas uma voz enorme, forte, possante, linda. Voz suficiente para fazer um tributo a Gonzaguinha. Durante o show, a imagem e a voz de Gonzaguinha se fazem presente.
E o show tem o apoio de Daniel Gonzaga, o filho de Gonzaguinha.
Show maravilhoso, com um cantor jovem, com uma voz linda, um grande futuro para a música brasileira. Homenageando um grande cantor e compositor, nosso passado, nosso presente, nosso futuro. Um auditório lotado, lembrando das músicas de Gonzaguinha. Fiz as contas: quando ele morreu, Marcos Lessa nem tinha nascido ainda. Um belo exemplo das estradas da vida. E do tempo.
O CD do show também é lindo.
UM POETA E UM CASTELO. E DUAS MULHERES. TALVEZ TRÊS
Mesmo que agora busque um novo laço
com que prender-me, é certo que do antigo
Não me liberto do apertado abraço
Um fogo apaga outro, sempre digo:
E tu, que és meu carrasco nesse passo,
Faz que assim seja, Amor, mas não comigo.
Gaspara Stampa
O
presente texto é o desfecho de meses de leitura da obra de Rainer Maria Rilke e
da visita a um castelo onde ele começou a gestar uma obra imprescindível para a
história da poesia, o Castelo de Duíno, em Trieste. E lá, no castelo, vinha à
memória da autora dessas páginas, trechos do ensino de Lacan, no qual ele
relacionou o ato analítico com a poesia. Ainda há mais um motivo para escrever
o texto: a descoberta, lá, de que Marie Bonaparte frequentou o castelo, tendo
ainda livros de psicanálise que retratam seus períodos de leituras freudianas,
espalhados pelos cômodos do castelo. A autora foi para encontrar Rilke, e o
inesperado foi encontrar Freud.
A
poesia é uma violência à língua
Em seu seminário O saber
do psicanalista, proferido no final de 1971 e em 1972, na capela do Hospital
Sainte-Anne, Lacan está às voltas com a lógica matemática. É preciso revirar a
coisa, diz em sua aula de 6 de janeiro de 1972, ainda que a lógica “possa
tornar o mundo odioso”, permite não se deter no senso comum, em um sentido
fácil. A lógica permite a Lacan apreender o objeto a como “inteiramente estranho à questão do sentido”. Uma outra
razão, e escreve RESON[i],
como Francis Ponge, como esse grande poeta o faz. Em seguida, após apresentar o
poema de Tudal – que já estava citado em Função e Campo da Fala e da linguagem em
Psicanálise – diz que ele é um poeta “não desprovido de talento”. Francis
Ponge, para Lacan, é um grande poeta[ii],
e Antoine Tudal, um poeta menor. Nessa aula desse seminário, há um elogio a um
poeta, e certo menosprezo ao outro. Por que? Essa questão me ocupou enquanto
estudava para o seminário que proferi em agosto de 2015, no Fórum do Campo
Lacaniano de Fortaleza.
Ensaio
uma resposta: Ponge garatuja com as palavras. Nessa aula, ele mesmo, Lacan,
brinca com o poeta, papua, papuasia. Ele quer abordar a linguagem na sua função
topológica (aula de 3 de março de 1972). Isso lhe permitiu, inclusive, fazer
sua proposição da lógica da sexuação. “Isso permitiria à psicanálise operar
sobre o real, único a estar mais além da linguagem”.
Em
Rumo a um significante novo (1977), afirma que a psicanálise tem efeitos de
sentido – ela tem relação a isso que é o significante – e isso faz dela uma escroqueria. Mas não mais escroqueria que a poesia. “A poesia se
funda precisamente nessa ambiguidade da qual falo e que qualifico de duplo
sentido”. (aula de 15 de março de 1977) A poesia faz uma violência à
cristalização do uso da língua. A poesia amorosa marca essa violência, alega
Lacan. E para isso cita Dante. “A poesia joga inocentemente com o
imaginariamente simbólico e com isso ela mostra a verdade sobre a relação
sexual”. E, mais adiante nesse seminário, dirá que a verdade é poética, assim
como uma interpretação, ela desmancha um sentido.
Por
isso Lacan diz que o psicanalista pode ser um poata, um poeta do ato. É a aposta de Lacan de que o ato analítico
pode ser uma violência ao sentido, como a poesia também o é, ao sentido e,
consequentemente, à língua. “É à medida que uma interpretação justa desmancha
um sintoma, que a verdade se especifica em ser poética”. (aula de 19\04\77)
Rilke e o Duíno
Rainer Maria Rilke escreveu suas Elegias do Duíno entre 1912 e 1922. Dez anos para gestar alguns dos
mais belos poemas que alguém já escreveu. Seu livro retrata o amor, as
perguntas sobre a existência, sobre o tempo, a busca do absoluto, a angústia
diante da morte, a solidão, a nostalgia e o amor perdido. O homem, esse anjo
terrível, que “vive sem amparo neste mundo definido”. Depois de passar por
Roma, Nápoles, Florença, atormentado por seu amor infeliz por Lou Andreas-Salomé,
chega a Trieste e ao castelo.
Escreveu as primeiras elegias no
Castelo do Duíno, nos arredores de Trieste, quase fronteira com a Eslovênia. O
castelo é majestoso, construído sobre um rochedo, numa ponta de terra que
avança mar adentro, com todas suas janelas penduradas sobre o Mar Adriático.
Nele, Rilke perdeu o bloqueio criativo em que estava e começou a gestar essa
obra. O Castelo é propriedade há séculos da família de nobres Torres e Tasso, e
já foi local de veraneio para muitos escritores, artistas e nobres através dos
tempos. Uma parte da Divina Comédia foi escrita lá; depois de uma temporada de
férias nele, em 1914, Francisco Ferdinando saiu do castelo, pegando o trem para
ser assassinado em Sarajevo.
Sabemos da paixão que Rilke declarou
por Lou Andreas-Salomé. Escreveu para ela as palavras mais lindas que um homem
pode escrever a uma mulher. “Apaga-me os
olhos: ainda posso ver-te, tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te.” E
continua para, no fim do poema, afirmar que a traz em seu sangue. E em outro,
escreve que o amor de um ser humano por outro é a experiência mais difícil para
cada um de nós, “o mais superior testemunho de nós próprios, a obra absoluta em
face da qual todas as outras são ensaios”. Quando a conheceu tinha vinte e dois
anos, ela era quinze anos mais velha que ele. Estava casada, já tinha
descartado a proposta amorosa de Nietzsche, já tinha fugido de casa e da terra
pátria, a Rússia. E já era uma escritora conhecida. Ainda não tinha se
aproximado de Freud e da Sociedade Psicológica das Quartas-feiras. Depois de um
desentendimento com ela, ele viaja à Itália. Rilke chegou a mudar de nome sob a
influência dela: ela achava que René não lhe ficava bem, não para um poeta que
iria ter a projeção que ele teria no futuro. Foi ela a primeira pessoa a ver nele
o escritor que ele iria se tornar. Mas não queria se separar do marido, o
acomodou em uma casa próxima de sua casa e se encontravam muito, viajavam
juntos, foram duas vezes juntos a amada Rússia, terra natal dela. Uma vez os
três, Rilke, Salomé e o marido. E a segunda vez só Rilke e Salomé. Para essa
viagem ele se preparou, estudou sobre a Rússia. E ela o apresentou a Tolstói.
Se essas primeiras elegias foram
gestadas em um momento de turbulência em seu relacionamento com Lou Andreas-Salomé,
se ela foi a inspiração para a elegia (“sim, as primaveras precisavam de ti”) o
nome de mulher que aparece na primeira elegia é o de Gaspara Stampa. O poeta
escreve que está distraído, à espera da amada. E se a nostalgia vier, ele
cantará as amantes, essas abandonadas “que te parecem mais ardentes que as
apaziguadas”. E mais adiante: “Com que fervor lembraste Gaspara Stampa, cujo
exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem qualquer, abandonada pelo amante:
por que não sou como ela? Frutificarão afinal esses longínquos sofrimentos? Não
é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-lo, frementes?”
Gaspara Stampa (1524-54), poetisa do
Século XVI, nascida em Pádua, apaixonada aos vinte e quatro anos por um conde,
por quem tinha uma devoção desesperada. Tiveram um relacionamento breve e
depois ele não mais retribuiu seu amor. Ela endereçou a ele, Conde Collaltino,
seus poemas de amor. E o intitulava de “meu ilustre senhor”. “Extinta” sua
paixão pelo conde, se apaixona por Bartolomeu Zen, e escreve para ele quatorze
sonetos de amor. O amor pelo veneziano Bartolomeu suplantou seu sentimento
desesperado pelo conde? Creio que a epígrafe desse texto, parte de um soneto de
Gaspara, responde a pergunta.
Ela morreu aos trinta anos, depois de
quinze dias de uma febre intensa que não cedia. Dois anos depois que Collaltino
tinha se casado. Na verdade, sua febre intensa foi o amor. Uma amante, uma
ardente, febril, diferente de uma apaziguada, como Rilke retrata em sua
primeira elegia.
Marie Bonaparte e o
Duíno
Essa princesa grega e dinamarquesa, aparentada de várias
famílias reais da Europa, sobrinha-bisneta de Napoleão Bonaparte, riquíssima,
conheceu Freud quando tinha cerca de quarenta anos. Estava à beira do suicídio
e sua análise com Freud, que durou mais de 15 anos, não apenas salvou sua vida,
mas lhe trouxe uma paixão e entusiasmo que carregou até o final: a psicanálise.
E é graças a ela que Freud e sua família não foram exterminados pela Gestapo e
que a obra freudiana pôde deixar a Áustria e chegar intacta a Londres. Ela
investiu sua energia, seu dinheiro e seu tempo para fazer a psicanálise
prosperar. Foi a grande embaixadora da Sociedade Psicanalítica de Paris, afirma
Elizabeth Roudinesco. Sua importância para a psicanálise ter prosperado na
França também é inquestionável.
Em 1949, Eugênia, a filha de Marie, casa-se em segundas
núpcias com o Príncipe Raymond de Thurn and Taxis. O príncipe é o herdeiro do
castelo de Duíno. E três anos depois nasce Carlos Alessandro della Torre e
Tasso[iii].
É esse neto que foi entrevistado pela jornalista italiana Francesca Graziano e
que conta a ela várias histórias dessa avó famosa. Não há no livro nada que
conte sobre suas estadias no castelo.
Segundo Roudinesco, “com essa mulher que o cumulava de
presentes, Freud manifestou o seu extraordinário gênio clínico. Gostava tanto
dela que, para recompensar sua fidelidade, ofereceu-lhe, como fizera a Lou Andreas-Salomé,
um dos famosos anéis reservados aos membros do Comitê Secreto”. Assim, tanto
Lou Andreas-Salomé quanto Marie Bonaparte, as duas mulheres a quem Freud tinha
tanta confiança, se enlaçam, cada uma a sua maneira, à história do Castelo de
Duíno. E também, indiretamente, Gaspara Stampa, pois Rilke a colocou no
castelo, em sua primeira elegia do Duíno.
E deixando o castelo
E também podemos pensar em uma quarta mulher envolvida com o
castelo, essa que vos escreve, que leu toda essa história e quis ir até lá,
andar por seus cômodos e olhar o Adriático, esse gigante azulado que bate sobre
as rochas, sobretudo nas grandes noites de verão, “as grandes noites de verão,
e as estrelas, as estrelas da terra”, escreveu Rilke. Para ela, essas estrelas
também pareceram maiores nessas noites que passou em Trieste. Talvez
influenciada por Rainer Maria Rilke, talvez influenciada pela história, achou
que a estrelas brilhavam para ela.
Referências
bibliográficas
Graziano, Francesca. Marie
Bonaparte, la Principessa della psicoanalisi. Trieste: Edizioni Fenice
Trieste, 2005.
Lacan, Jacques. Função e Campo da Fala e da linguagem em
Psicanálise. Escritos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
_______ O saber do
psicanalista (1971-72). Inédito.
______ Rumo a um significante novo. Opção Lacaniana. São Paulo: Edições Eólia, número 22, agosto de
1998.
Ponge, Francis. A
mimosa. Coleção Poetas do mundo. Tradução e notas de Adalberto Müller.
Brasília: Editora da UnB, 2003.
Rilke, Rainer Maria. Elegias
de Duíno. Rio de Janeiro: Editora Globo. 4 ed. Tradução Dora Fereira da
Silva. s/d.
Rilke, Rainer Maria; Andréas-Salomé, Lou. Correspondência amorosa. Lisboa: Relógio
d’Água, 1994.
Roudinesco, Elizabeth; Plon, Michel. Dicionário de Psicanálise.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
Stampa, Gaspara; Labé, Louise; Browning, Elizabeth Barrett. Três mulheres apaixonadas. São Paulo:
Cia das Letras, 1999.
Thurn und
Taxis, Marie von. Ricordo di Rainer Maria Rilke. Trieste: Edizioni
Fenice Trieste, 2005.
[i]
A homofonia entre résonner [ressoar]
e raisonner [raciocinar] permite o
jogo de palavras entre réson e raison.
[ii]
E não apenas para Lacan. Ponge ganhou vários prêmios literários e ganhou
reconhecimento na França e no mundo. Foi lido, debatido, e muitas teses e
livros de autores famosos tiveram por tema sua obra. Dentre elas assinalo a de
Derrida e de Haroldo de Campos. Ponge brinca com os significantes, e usa a
palavra em sua sonoridade como Manoel de Barros também o fez. Em seu livro A mimosa, usa o arbusto, a mimosa pudica,
e diz o porquê: minha sensualidade infantil acordou sob os sóis da mimosa. E
desfia os significantes: mimosa, mimosa sans moi, mimésis, le mimosa et moi, le
mimosa lui-mêmê. E ainda: como em tramaga há trama, em mimosa há mimo [como
dans tamaris il y a tamis, dans mimosa il y a mima]. É uma poesia tão difícil
de ser traduzida. Nessa edição que tenho, abundam notas de rodapé. E não
poderia ser diferente. Uma pequena curiosidade: em agosto passado, no seminário
que proferi em Fortaleza, comentei a citação de Lacan sobre Francis Ponge e
falei da mimosa pudica. Em meu Estado, MS, a mimosa é chamada de Dorme-dorme.
Os colegas cearenses deram dois nomes pelos quais o arbusto é conhecido no
Estado: Acorda-Malícia-teu-pai-morreu. E também: Maria-fecha-a-porta-que-teu-pai-vem-bêbado.
Enfim, de pudica, no Ceará, a mimosa virou malícia, outro deslizamento
possível. E tem pai que não acaba mais nas nominações. Um brinde a poética
cearense.
[iii]
Em algumas partes desse livro que consulto, o sobrenome está em inglês [Thurn
and Taxis] e noutras em italiano [Torre e Tasso].
domingo, 29 de novembro de 2015
TRÁGICA 3: Sobre a importância de um irmão
Ontem, no Teatro Aracy Balabanian, aqui em Campo Grande, assisti TRÁGICA 3. A peça, dirigida por Guilherme
Leme e patrocinada pelo Ministério da Cultura e pela Petrobrás, apresenta três
mulheres trágicas das tragédias gregas: Electra, Medéia e Antígona. Assim está
a ordem no caderno que nos apresenta a peça, porém, na peça, a ordem de
apresentação dessas trágicas é a seguinte: primeiro Antígona, apresentada por
Letícia Sabatela, a jovem tebana, filha de Édipo, emparedada viva por
descumprir a ordem de Creonte, seu tio, e enterrar o irmão Polinice, proscrito
pelo tio tirano. Depois a Electra da atriz Miwa Yanagizawa, uma irmã que
espera o retorno do irmão Orestes, que vingará a morte do pai Agamenon, pela
própria mãe Clitemnestra e seu amante Egisto. Electra salvou o irmão quando
criança, mandando-o ao exílio. E vive como escrava, banida do palácio real, ela
a filha do assassinado rei Agamenon. E espera sua vingança. E será pelas mãos
desse irmão, que ela tanto ama e espera que sua vingança se concretizará.
E a terceira trágica, Medéia, a
mulher que abandonou tudo pelo amor de um homem, o primeiro e único. Abandonou
sua amada pátria, a Cólquida, que traiu um pai, matou um irmão e o despedaçou
pelo caminho para distrair o pai, o rei da Cólquida, que reconheceu os pedaços
do corpo do filho e assim Jasão escapou de sua fúria. Ela, exilada de tudo,
casa-se com Jasão e os dois têm dois filhos, dois meninos. Vista pelo seu povo
e pelos outros, os estrangeiros, como a bárbara, é aceita como refugiada e
exilada em Corinto. Jasão, já em outras conquistas, vai se casar com outra, uma
nova mulher nova. E aí começa a vingança de Medéia.
Medéia é representada por Denise
Del Vecchio, embora as duas atrizes que vieram antes tenham sido excelentes,
Del Vecchio é de uma grandeza inigualável no palco. Ela é a mulher que está
envelhecendo, que se desfez de tudo pelo amor a um homem. Perdeu a pátria,
perdeu o pai, perdeu o irmão, e está disposta a perder esses filhos para vingar-se
de Jasão. Tomará dele o que ele mais dá valor: os filhos que carregam seu nome,
sua herança, sua honra. Se é que alguma o personagem carrega. Essas crianças,
filhos amados seus, e ao mesmo tempo, filhos do homem que ela precisa destruir
para cumprir sua vingança. A rival jovem, ela mata de um golpe só: manda seu
vestido de noiva para que ela use para Jasão. Ele pede a jovem esposa que o
coloque. O veneno colocado no vestido entra em seu corpo e ela se consome em
chamas.
A direção de Guillerme Leme
consegue salientar a grandeza da vingança de Medéia. A disposição das três
trágicas está perfeita. Enquanto Sabatella e Yanagizawa entram no palco com
roupas claras, Medéia já entra de negro e trás na face a dor que deforma as
feições. E o que mais gostei: colocando nessa ordem as trágicas, fica evidente
a força dos laços fraternais. O amor por um irmão aparece em todas elas. A
primeira, disposta a morrer para respeitar seu irmão. Fosse ele quem fosse,
com avidez de poder, guerreiro insano a guerrear com o outro irmão, não
importa, merece os ritos fúnebres. E ela pagará com a vida por isso. É por isso
que ela é a imagem da ética. A ética dos laços sociais que se sobrepõem à lei instituída
por um tirano. Sou psicanalista e por isso já li várias vezes Antígona. Lacan
dedicou um ano inteiro de seu ensino a comentar sua ética.
Depois, Electra, centrada no amor
pelo pai e pelo irmão e no ódio à mãe, essa lasciva que pelas mãos de Egisto
matou o marido, o pai de seus filhos, e se deitou com seu assassino e vive com
ele, deixa ele se sentar no trono que seria de seus filhos. Uma mãe que passa a
perna nos filhos por causa de um homem. Electra vai mostrar a ela, pelas mãos de
um irmão, como os laços familiares são superiores a tudo.
E Medéia, que dispôs de tudo por
Jasão e foi traída por ele. Também já tinha lido Medéia mas nunca
tomei a peça pelo viés que o diretor nos apresenta. E essa foi a grandeza
maior dessa peça. Pelo menos para mim: mais do que repetir a traição de Jasão
com outra mulher, ela repete ‘Jasão, você me deve um irmão’. E o ator, que é
quase só uma voz, do lado escuro do palco, responde: te dei dois filhos no
lugar de um irmão. E mais adiante, ela repete: você me deve um irmão. E mais
adiante, novamente, ela reclama a Jasão sua dívida: você me deve um irmão.
Assim, a Medéia de Guilherme
Leme, pode se perdoar de tudo, menos do que fez a um irmão. E mesmo tendo nova
pátria, tendo marido, tendo filhos, não se apaga um irmão. E quando perde quase
tudo, a caminho de perder, pelos assassinatos que cometerá, os filhos, seus
últimos recursos – se é que os filhos são posse de sua mãe. Não vou entrar
nessa contenda – aquilo do qual não se pode perdoar é ter sacrificado um irmão.
Assim, a fala de Jasão é pura baboseira: dois filhos não valem um irmão. O que
não quer dizer que valem menos. O que Medéia mostra é que não se faz uma
equação disso. Um irmão é um irmão. E é um laço que não se suplanta por nada
que venha a se adquirir na vida. Esse foi o viés novo que nunca antes tinha
visto em Medéia e que a direção de Guilherme Leme e a atuação soberba de
Denise Del Vecchio me deu.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Fulgencio Argüelles e uma Asturias de poesias, flores, amores e dores
Fulgencio Argüelles é um psicólogo espanhol. Depois de um período em Madri, onde fez o curso de psicologia, regressou a sua terra natal, Astúrias, lugar de sua infância e juventude. E começou a escrever romances. Ganhador de vários prêmios de literatura. Um deles (Prêmio Café Gijon, de 2003) pela sua quarta novela, El palácio azul de los ingenieros belgas, que estou lendo agora.
O romance é uma narração da juventude de Nalo, aprendiz de jardineiro, em um povoado em Astúrias, durante o período franquista.
Nalo começa o relato com a morte do pai, O pai morre e ele começa a relatar sua história. A vida de todos os personagens circulam ao redor do palácio dos ricos belgas, donos da mina que existe no povoado, sua riqueza, sua língua estranha, seus banquetes, suas mulheres, uma delas tida como louca, cheia de segredos.
Nalo aprende sobre jardinagem com Eneka, o culto jardineiro que se casou com uma das ninfas do Olimpo, esse lugar que ele não sabe onde é.
A tristeza de todos é evidenciada pelo garoto que está ali, observando tudo. ainda que ignore os motivos, Eis um relato sobre o alcoolismo do avô Cosme: "..aunque el alcohol fuera capaz de privarlos de la tristeza, la vergûenza, el silencio y la soledad, por este ordem, nunca conseguiría redimirlos del peso de ciertos recuerdos, porque non hay alcohol suficiente sobre la tierra para anegar la memoria, así me lo había transmitido en no pocas ocasiones mi abuelo Cosme, quien andaba en ese intento del olvido selectivo desde hacía años, y cuanto mas alcohol se ingería para olvidar más imposible resultaba el olvido y más desnudos se quedaban los recuerdos,..."
Por alusão, o pano de fundo é o período pré-revolucionário, que será sufocado pelos militares, antes de Francisco Franco. As diferenças sociais aparecem muito no romance: os ricos engenheiros e seus comensais, como moscas, zunindo às voltas do poder.
Lançado pela Editora Acantilado, em 2003.
Novela formidável.
O romance é uma narração da juventude de Nalo, aprendiz de jardineiro, em um povoado em Astúrias, durante o período franquista.
Nalo começa o relato com a morte do pai, O pai morre e ele começa a relatar sua história. A vida de todos os personagens circulam ao redor do palácio dos ricos belgas, donos da mina que existe no povoado, sua riqueza, sua língua estranha, seus banquetes, suas mulheres, uma delas tida como louca, cheia de segredos.
Nalo aprende sobre jardinagem com Eneka, o culto jardineiro que se casou com uma das ninfas do Olimpo, esse lugar que ele não sabe onde é.
A tristeza de todos é evidenciada pelo garoto que está ali, observando tudo. ainda que ignore os motivos, Eis um relato sobre o alcoolismo do avô Cosme: "..aunque el alcohol fuera capaz de privarlos de la tristeza, la vergûenza, el silencio y la soledad, por este ordem, nunca conseguiría redimirlos del peso de ciertos recuerdos, porque non hay alcohol suficiente sobre la tierra para anegar la memoria, así me lo había transmitido en no pocas ocasiones mi abuelo Cosme, quien andaba en ese intento del olvido selectivo desde hacía años, y cuanto mas alcohol se ingería para olvidar más imposible resultaba el olvido y más desnudos se quedaban los recuerdos,..."
Por alusão, o pano de fundo é o período pré-revolucionário, que será sufocado pelos militares, antes de Francisco Franco. As diferenças sociais aparecem muito no romance: os ricos engenheiros e seus comensais, como moscas, zunindo às voltas do poder.
Lançado pela Editora Acantilado, em 2003.
Novela formidável.
domingo, 13 de setembro de 2015
Tchekhov em Sacalina
Aos trinta anos, médico e já escritor conhecido, Tchekhov vai até a Ilha de Sacalina, onde estava instalado o temível presídio czarista.
Desaconselhado por todos, que achavam uma loucura, ele foi.
Em 1890 parte para Sacalina, atravessa a Rússia toda, antes de haver a Transiberiana, parte em abril e só chega em julho a esse ponto extremo da Rússia, já no Oceano Pacífico, quase Japão.
Sua descrição da vida dos presos, e da família dos mesmos que vivem nessa ilha e em outras ao redor, é já uma amostra do escritor genial.
A descrição da miséria humana em um lugar da terra em que o frio torna quase impossível viver é impressionante.
Tem frases como essa: "aqui, de qualquer forma, o clima é mais ameno, os matizes da natureza são mais suaves e um homem esfomeado e transido de frio encontra condições naturais menos adversas do que no curso médio ou inferior do rio."
Encontrar essa obra de Tchekhov foi um presente.
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