quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Pescando na Lagoa do Itatiaia

          Uma última coisa meio estranha que aconteceu domingo. Conto e vou dormir: um garoto que mora no condomínio veio me mostrar, dentro de uma vasilha, um peixe que ele pescou na piscina do condominio. Digo que não é verdade, que ele pescou na Lagoa do Itatiaia. Ele responde que sim, envergonhado. Na verdade, ele sabe que não poderia ter pescado lá. Ai eu digo - foi automático, não queria colocar tanta culpa na criança - eu acho que você devia devolver à lagoa, no mesmo lugar onde pegou, por que o pai e a mãe do peixinho devem estar atras dele. Foi imediato: a criança fez uma cara de tristeza e culpa. Não tinha pensado no peixinho como tendo familia. Ajudei a criar a neurose em uma criança no dia de hoje. Que coisa.......

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Diário argentino

        Quando descubro um novo autor é como se descobrisse um mundo. Dois escritores argentinos escreveram sobre ele: Witold Gombrowicz. Em 1942, ele foi para um congresso de literatura em Buenos Aires. Estava no navio, à caminho, e os alemães tomam seu país, a Polônia. Sua familia judia é enviada aos campos de concentração. Ele não tem para onde voltar. Está "preso" em Buenos Aires. E fica lá, quase 25 anos. Anos depois, passa a escrever não mais em polonês, mas em espanhol.      
      Estou, agora, deitada na cama e olhando a lua pela janela aberta. E lendo "Diário argentino", de Witold Gombrowicz, o mais novo escritor exilado que descobri. Uma partezinha para vocês, em que fala que a alegria é o melhor do ser humano: "essa alegria que es nuestra única victoria sobre la existencia, la unica gloria del hombre.".
      Não quero interpretar o escritor, mas se vocês lerem o livro, verão que a alegria falta nesse relato diário de seus dias portenhos.

domingo, 16 de setembro de 2012

Minha "relação emocional" com o divã

            A jornalista Angela Kempfer pediu-me um relato de minha "relação emocional" com o divã para uma matéria que está escrevendo sobre o mobiliário. Escrevi o que está abaixo. Gostei e resolvi publicar também aqui.        
          Freud inventou o uso do divã - o mobiliário era bem comum à época, uma peça clássica - porque descobriu que a hipnose não funcionava, os pacientes não lembravam o que estava realmente no inconsciente. E também aquilo que ele sugestionava-os, hipnotizados, não tinha efeito senão por dias. O cara a cara também não lhe serviu, pois percebeu que as pessoas precisavamm controlar pelo olhar do outro como estavam sendo vistas, aprovadas. Fazemos isso toda hora (fulano me olhou de tal jeito, será que é de aprovação? me disse bom dia com um olhar tão sério, está bravo comigo? Está ou não gostando do que eu estou falando?), então imagina o peso disso durante o tratamento? É maior ainda.Assim ele inventou o uso do divã: o sujeito deita e olha para qualquer lugar, não conseguindo controlar como está sendo olhado, diz o que vir à cabeça. A regra: associação livre.
         Então, o principal não é o divã, é estar fora do controle do olhar.Quando comecei a fazer minha formação psicanalítica, mandei fazer um divã. Um bem simples, que era o que o meu dinheiro conseguia pagar. Meu analista também tinha um divã simples. Então não me preocupava com a simplicidade do divã. Porém, eu deitada no divã, enquanto fazia minhas sessões, olhava para o lado, uma parede toda de vidro e,para além do jardim de inverno da sala dele, ao longe, enxergava o Cristo Redentor. Como eu não conseguiria em minha sala, ter ao longe um Cristo Redentor, não me importava que o divã fosse simples.
           Uma parte de minha formação psicanalítica, fiz olhando para o Cristo. Depois ele se mudou para outro consultório,continuei minha análise, mas faltava a vista. Estou fazendo humor disso, só para dizer que o mais importante é olhar para outro lugar e com isso se afloram lembranças, cenas que não se tinham antes, que estavam apagadas, no inconsciente.
           O divã é secundário. Tanto que, por vezes, estando em outras cidades para dar seminários e cursos, atendo em quartos de hotel, consultórios emprestados de colegas e, metaforicamente, carrego meu divã comigo: ele é minha escuta, que propicia aos pacientes que se "deitem no divã da linguagem".
Mas à parte tudo isso, conto duas histórias, primeiro uma de Freud e, depois, uma minha: O consultório de Freud era de mobiliário simples, divã simples e para não ficar tão clean, tinha um tapete persa pregado na parede, atrás do divã, porém no anteparo da lareira, ele colocou pequenas estatuetas, de sua rara coleção de estátuas antigas, estátuas egipcias, uma coleção de falos, vasos etruscos, etc. O divã simples era ofuscado por essa coleção. Para imitar Freud, e sem condições financeiras para coleção de arte antiga, nem para mirada do Cristo Redentor, coloco na prateleira de livros em frente, uma coleção de bolinhas de neve, dentro com pontos turísticos de todas as cidades por onde passei. Não é a mesma coisa. É muito menos.
         Outra história: anos atrás, andando em uma loja de móveis em Bruxelas - Maison du Monde - uma das lojas mais lindas que já fui, vi um divã lindo e quis muito ter um igual em minha sala. Logo eu que sou adepta do divã simples, vou gostar de um do outro lado do mundo. Tirei uma foto dele, continua guardada a foto. Foi um sonho de consumo. Quem sabe um dia mando fazer um igual? Por ora, continuo reformando meu antigo divã, gosto dele, tem me dado sorte na vida profissional. Eis uma pequena superstição boba que me impede de ter o caro-cópia-plágio do divã de Bruxelas.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Lebre da Patagônia

A Lebre da Patagônia é um livro imprescindível para se compreender o que foi o século XX. Escrito pelo jornalista francês Claude Lanzmann, da revista Les Temps Modernes, nascido em 1925 e vivo até hoje, ele traça um panorama da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto, da revolução de 68. O autor visitou a China e a Coréia do Norte, para conhecer os regimes comunistas que se instalavam ali; militou a favor da liberação da Argélia pelo regime francês; relata as impressões que teve em diferentes momentos que visitou Israel.


Viveu durante sete anos com Simone de Beauvoir, em uma relação a três – eles dividiam um apartamento e Beauvoir continuava com Sartre, que morava em outro apartamento, nas arredondezas. Com Simone de Beauvoir, nesses anos que viveram juntos, correram o mundo, por seus vários continentes. Por vezes com Sartre, outras vezes só os dois. No começo do livro conta sobre sua judeidade, a condição de ser judeu nos colégios franceses, o antissemitismo nos anos antes da guerra, de como ele, o pai e os irmãos sobreviveram porque tinham passaportes falsos, com sobrenomes não-judeus. Enfim, reafirmo sua importância: é uma aula de história.

Para contar sobre o Holocausto dirigiu um filme sobre ele, intitulado em hebraico, Shoah, que demorou mais de 10 anos para finalizar e que tem quase oito horas de duração. Nos últimos capítulos do livro conta-nos detalhes sobre a produção do filme, sua obstinação em convencer alguns membros da SS a lhe dar testemunho sobre como operacionalizavam a Solução Final; as filmagens nos Campos de Extermínio da Polônia, o antissemitismo que ainda grassava por lá, entre os camponeses das cidades pequenas, nos arredores dos Campos; os problemas políticos que teve com o lançamento do filme. Em 1985 ele ficou pronto, quando ninguém mais acreditava que ele fosse finalizá-lo. Nessa questão judaica só há uma coisa que não gostei: quando ele chega ao nome de Ariel Sharon. Ele, um autor que é veemente em sua opinião e denúncia dos erros/crimes de todos, cita Sharon e nada. Nem uma palavra, nenhuma crítica. Nada. Nessa parte decepcionei-me com o autor.

Perguntei-me porque o livro assim se intitulava. Na epígrafe, o autor cita um trecho de um livro: A lebre dourada, de Silvina Ocampo e mesmo lendo essa epígrafe fica o enigma a ser solucionado, no final. Eis um resumo da epígrafe: em um campo, uma lebre corre, atenta a tudo, aos menores ruídos. Um dia, como outro qualquer, escuta muitos latidos. Começa a correr. Grita para os cachorros uma pergunta, “aonde vamos?”. E os cachorros respondem: “Até o fim de sua vida!”. E a lebre aparece novamente em uma cena que o autor não esquece e nos conta em dois momentos do livro: ele e Simone de Beauvoir, viajando à noite, pela Sérvia, dirigindo um carro velho, atropelam muitas lebres. Ficara muito angustiado, desviava o carro sempre que possível, queria salvá-las da morte. Quando visitou a Patagônia, algo parecido aconteceu: quase matou uma. Por estas situações podemos entender que as lebres são os seres para a morte. Em seu filme queria captar, a partir dos depoimentos, todos os detalhes de como foi o momento final dos milhões de judeus, enquanto marchavam para morrerem na câmara de gás (Não sei como ele escreveu em francês, mas em português isso foi traduzido simplesmente como “gazeados”. Achei horrível escrever ou traduzir assim: dizer gazeado retira o caráter de assassinato do ato). Ele queria captar algo ainda não dito que pudesse entender o momento final. Reprisa a pergunta: por que não fugiram? Por que não correram? Mas não colocada por ele, por outros historiadores. Não quer dizer que tenha validade para ele a pergunta, porém há uma relação entre correr e mesmo assim morrer, na lebre e não correr, não fugir e mesmo assim morrer, nos judeus. Posteriormente descobriu, durante as pesquisas para seu filme, relatos de que muitas lebres freqüentavam o Campo de Concentração de Birkenau, e contorciam-se entre as cercas e saíam do campo quando queriam. Assim, a lebre é, também, uma sobrevivente, a que escapa, faz um malabarismo, corre, foge e então, símbolo da vida.

Tem uma coisa que não gostei em tudo que ele relata, não tem relação com essa densa e importante história de vida e de forma alguma com sua visão sobre o Holocausto. Fiquei meio enojada de seu jeito de escolher as mulheres. Fiquei pensando uns dois dias nisso, fazendo a pergunta freudiana, ao inverso, o que quer o homem? É claro que só pode ser respondida na singularidade do caso a caso. Ele se orgulha de ter vivido com Simone de Beauvoir, depois se casou com uma atriz famosa de teatro, filha de industriais em que fica nos relatando o alpinismo nas montanhas chiques que fazia com o sogro. Depois nova esposa, uma escritora alemã, segundo ele a “mulher mais linda da Alemanha”. Fiquei curiosa e digitei no Google o nome dela. Nada de linda, mas para ele ficar com uma mulher tem que dizer que é muito linda, muito rica, muito conhecida, muito, muito, muito. Mas se apaixonou por uma mulher da Coréia do Norte, uma enfermeira que cuidou dele por alguns dias, uma mulher calada, da qual não entendia uma palavra da língua, que se comunicavam por desenhos, que mostrou a ele seu seio queimado por gás, com a qual só pôde ter um beijo, escondido em um canto do hospital. Quando ele retorna à Paris, ela manda uma carta para ele. Ele não responde, não faz nada. Volta cinqüenta anos depois à Coréia do Norte, com quase oitenta anos, atrás dela, fica andando a esmo pela cidade, não investiga nada, nem para saber se ela estaria viva ou morta, não pergunta sobre ela e volta para casa. Volta para suas mulheres, ricas, “lindas” e famosas.

Acho meio desprezível um homem que precisa se afirmar ficando com mulheres ricas, famosas, estilo celebridades. Isso é coisa de coluna social. Ele não precisava, com tudo que viveu, com tanto que escreveu, dirigiu, com seu papel de testemunha dos principais acontecimentos do mundo, com todas as viagens que fez por esse mundo enorme de meu Deus – eu gosto de gente que corre o mundo – não precisava disso. E além de tudo, na foto da capa do livro, tirado no Egito, com Beauvoir e Sartre, ele com cerca de uns 35 anos, era um homem bonitíssimo. Precisava disso? Precisava. Resta saber o por quê. Só ele pode respondê-lo.

O livro é ótimo, a história de vida e do século é ótima, só o homem é que é decepcionante. Mas leiam, vale a pena.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Abre-me e eu te devoro

A peça de Antonio Quinet, “Abrem-se os histéricos”, é um balé sincronizado de quatro histéricas mais uma, retratando os impasses de uma época que, de certa forma, ainda é hoje.

No final do Século XIX, Charcot encontrou na histeria uma doença verdadeira e não uma simulação ou degeneração. Uma doença encenada no corpo. E Charcot tornou-se à época, uma celebridade em Paris, um médico e mestre construindo um saber encenado no palco por suas pacientes histéricas. Era assistido por muitos, jovens cientistas como Babinski, que não acreditava na histeria – achava que as histéricas eram umas falsificadoras de sintomas, por isso propôs para a histeria um novo nome, pitiatismo, piti – e Freud, que apostava em outra cena como a causa da doença, uma outra cena, infantil e traumática, explicava esse teatro no corpo; bem como era assistido por literatos como Leon Daudet e Maupassant. Esse momento histórico é o eixo da peça do psicanalista e dramaturgo Antonio Quinet.

Em “Abrem-se os histéricos”, Babinski, Freud e mesmo Charcot são um tanto apagados, ficando em segundo plano. Não sei se foi intencional ou se os atores ainda estão meio deslocados diante do balé das histéricas – e como dançam bem! Não apenas Sarah Bernhardt, todas.

Quando as histéricas estão na primeira cena, os homens/doutores desaparecem e ficamos encantados com a dança/doença delas, com seu sofrimento, suas contrações, seus desmaios, suas contraturas. O que reina é o corpo, palco de uma verdade que denuncia uma mentira. Quinet contrapõe a histeria ao teatro, que encena uma mentira para dizer uma verdade.

E a histeria reinava na Salpetrière, no Século XIX, como reinará no século seguinte. Tanto que Freud a elegerá como a neurose de base, sendo a outra apenas seu dialeto. E Lacan a elevará a categoria de um discurso. Hoje os sintomas podem estar um pouco diferentes – embora ainda encontremos na clínica alguns casos como as pacientes de Charcot – porém o sofrimento no corpo continua o mesmo, com as fibromialgias, anorexias, LER e outros tantos que evidenciam que as mulheres – não somente elas, mas sobretudo elas – continuam sofrendo com seus corpos.

Os homens da ciência de hoje, como os da época de Charcot, continuam querendo abrir o cérebro e o corpo das histéricas, para decifrá-las, inventando remédios e terapêuticas e se irritando porque essas histéricas, ah, elas insistem. E continuam fechadas, enigmáticas, não querendo seu ser reduzido a uma compreensão débil.

A peça de Quinet mostra que a histérica encena o desejo sempre um tanto inominável, apreendido por um desvio, inassimilável a não ser pela palavra. Mesmo Freud se enganou em vários de seus casos sobre o que queriam suas pacientes histéricas nesse caminho em que acreditava decifrá-las, até se perguntar “mas o que quer uma mulher?” Para ele também a histeria ficou sempre sendo uma esfinge, mesmo com toda sua descoberta do inconsciente e do desejo.

A iluminação, o figurino e a música da peça são um primor. E a disposição do palco, com duas cenas, em que podemos ver a outra cena, através do vidro, foi uma estratégia excelente do diretor.

O dramaturgo nos mostra que as histéricas se furtam à decifração, se furtam a se abrirem, escapam de serem devoradas, classificadas, compreendidas e continuam a encenar no palco de seu corpo a verdade do desejo. Seu e do Outro. As quatro assim o fazem e também Madame Charcot, presa ao desejo do marido, correndo de um canto ao outro, despenteada e desgrenhada, atrás das histéricas, as outras mulheres para quem seu marido só tinha olhos.

Ao sair da peça, pensei: “se demorasse mais cinco minutos, iria sair daqui com o braço torto”. O engraçado foi que duas amigas, uma logo na saída, e outra no dia seguinte, disseram-me quase o mesmo. A histeria é contagiosa e quer continuar fechada – a despeito que tantas histéricas queiram se analisar – tal como uma esfinge. Na peça, os devorados somos nós. E também os atores masculinos, um pouco. Somos nós os devorados que saímos quase meio tortos.

Aliás, conclamo vocês a assistirem a peça e saírem dela sem entortar nem um dedinho sequer.



















sexta-feira, 29 de junho de 2012

Aniversário de minha mãe

Dona Eugênia, minha mãe, faz hoje 70 anos. No almoço de ontem, com filhos e netos, estávamos combinando o que fazer de almoço hoje e lá vem ela com seu jeito temperamental e suas ordens que não são desobedecidas: amanhã não terá almoço nessa casa, vou fazer minha cuca (típico bolo que os descendentes de alemães do sul fazem). E ela incrementou a receita há alguns anos atrás, colocou ricota, e fica melhor do que o que minha avó (mãe dela) e tias fazem.


Um episódio define bem minha mãe: dois anos trás, estávamos viajando, eu, ela, meu pai e meu sobrinho e teve um acidente na rodovia. Um caminhão de bebidas tombou, minha mãe abriu a porta e foi andando pela rodovia para ver o acidente. Imediatamente veio-me a lembrança o perigo disso, quantos acidentes não sabemos que acontecem com aqueles que param e andam à beira da rodovia? Rafael foi chamá-la e ela voltou. Dei uma bronca, lembrando a idade que ela tem. E ela me sai com essa: sinto-me com uns cinquenta anos. É muito curiosa!

E saúde de cinquenta ela tem. Adquiriu uma insônia e uma labirintite depois que perdeu um filho, o caçula, Osni, que partiu em 2008. Convive com uma insônia ocasional, uma labirintite ocasional, que junto com a saudade, não a deixou esquecer diuturnamente que perdeu um filho. Mas isso não lhe tirou a energia de vida que sempre teve.

Estamos proibidos de aparecer lá hoje na hora do almoço - estou em dúvida se posso ligar para dar os parabéns - mas terá um jantar e cuca de ricota depois, é claro.

Já nos disse tudo o que não quer ganhar de presente. Não gosta de coisas caras, nesse aniversário não quer flores, roupas, joías não usa. Praticamente só tive a idéia de lhe dar um chinelo de inverno, pois disso ela está precisando e não sabe.

Depois de escrever isso, afinal, nem sei mais quantos anos minha mãe está comemorando hoje.

sábado, 2 de junho de 2012

Saudades

É sábado de manhã, faz sol, faz calor e eu faço uma horinha para ir trabalhar. Sinto saudades da Bélgica, de uma janela para um canal, de andar pelas Ardennes Flamandes, dos pralinés da padaria da esquina, de viajar até uma cidadezinha próxima de Gand e, ao longe, enxergar o Mar do Norte. Sinto saudades do crepe artesanal, com geléia caseira de framboesa, feito pelas velhas senhoras flamencas; dos rodedendros nos jardins das primaveras frias. Sinto saudades da língua, do país, do povo, tão diferente de nós, brasileiros: receosos, cautelosos, mas quando abrem a casa e o coração, é uma entrega tal. Sinto saudades desse outro país, que não o meu, mas que habita em minhas lembranças.

Amanheci estrangeira.