A jornalista Angela Kempfer pediu-me um relato de minha "relação emocional" com o divã para uma matéria que está escrevendo sobre o mobiliário. Escrevi o que está abaixo. Gostei e resolvi publicar também aqui.
Freud inventou o uso do divã - o mobiliário era bem comum à época, uma peça
clássica - porque descobriu que a hipnose não funcionava, os pacientes não
lembravam o que estava realmente no inconsciente. E também aquilo que ele
sugestionava-os, hipnotizados, não tinha efeito senão por dias. O cara a cara
também não lhe serviu, pois percebeu que as pessoas precisavamm controlar pelo
olhar do outro como estavam sendo vistas, aprovadas. Fazemos isso toda hora
(fulano me olhou de tal jeito, será que é de aprovação? me disse bom dia com um
olhar tão sério, está bravo comigo? Está ou não gostando do que eu estou
falando?), então imagina o peso disso durante o tratamento? É maior
ainda.Assim ele inventou o uso do divã: o sujeito deita e olha para qualquer
lugar, não conseguindo controlar como está sendo olhado, diz o que vir à cabeça.
A regra: associação livre.
Então, o principal não é o divã, é estar fora do
controle do olhar.Quando comecei a fazer minha formação psicanalítica,
mandei fazer um divã. Um bem simples, que era o que o meu dinheiro conseguia
pagar. Meu analista também tinha um divã simples. Então não me preocupava com a
simplicidade do divã. Porém, eu deitada no divã, enquanto fazia minhas sessões,
olhava para o lado, uma parede toda de vidro e,para além do jardim de inverno da
sala dele, ao longe, enxergava o Cristo Redentor. Como eu não conseguiria em
minha sala, ter ao longe um Cristo Redentor, não me importava que o divã fosse
simples.
Uma parte de minha formação psicanalítica, fiz olhando para o
Cristo. Depois ele se mudou para outro consultório,continuei minha análise, mas
faltava a vista. Estou fazendo humor disso, só para dizer que o mais importante
é olhar para outro lugar e com isso se afloram lembranças, cenas que não se
tinham antes, que estavam apagadas, no inconsciente.
O divã é secundário.
Tanto que, por vezes, estando em outras cidades para dar seminários e cursos,
atendo em quartos de hotel, consultórios emprestados de colegas e,
metaforicamente, carrego meu divã comigo: ele é minha escuta, que propicia aos
pacientes que se "deitem no divã da linguagem".
Mas à parte tudo isso, conto
duas histórias, primeiro uma de Freud e, depois, uma minha: O consultório de
Freud era de mobiliário simples, divã simples e para não ficar tão clean, tinha
um tapete persa pregado na parede, atrás do divã, porém no anteparo da
lareira, ele colocou pequenas estatuetas, de sua rara coleção de estátuas
antigas, estátuas egipcias, uma coleção de falos, vasos etruscos, etc. O divã
simples era ofuscado por essa coleção. Para imitar Freud, e sem condições
financeiras para coleção de arte antiga, nem para mirada do Cristo Redentor,
coloco na prateleira de livros em frente, uma coleção de bolinhas de neve,
dentro com pontos turísticos de todas as cidades por onde passei. Não é a mesma
coisa. É muito menos.
Outra história: anos atrás, andando em uma loja de
móveis em Bruxelas - Maison du Monde - uma das lojas mais lindas que já fui, vi
um divã lindo e quis muito ter um igual em minha sala. Logo eu que sou adepta do
divã simples, vou gostar de um do outro lado do mundo. Tirei uma foto dele,
continua guardada a foto. Foi um sonho de consumo. Quem sabe um dia mando fazer
um igual? Por ora, continuo reformando meu antigo divã, gosto dele, tem me dado
sorte na vida profissional. Eis uma pequena superstição boba que me impede de
ter o caro-cópia-plágio do divã de Bruxelas.
Um espaço para comentar sobre literatura, viagens, filmes, artes e todas essas "coisas inúteis" que tornam a vida possível, prazerosa, humana.
domingo, 16 de setembro de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
A Lebre da Patagônia
A Lebre da Patagônia é um livro imprescindível para se compreender o que foi o século XX. Escrito pelo jornalista francês Claude Lanzmann, da revista Les Temps Modernes, nascido em 1925 e vivo até hoje, ele traça um panorama da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto, da revolução de 68. O autor visitou a China e a Coréia do Norte, para conhecer os regimes comunistas que se instalavam ali; militou a favor da liberação da Argélia pelo regime francês; relata as impressões que teve em diferentes momentos que visitou Israel.
Viveu durante sete anos com Simone de Beauvoir, em uma relação a três – eles dividiam um apartamento e Beauvoir continuava com Sartre, que morava em outro apartamento, nas arredondezas. Com Simone de Beauvoir, nesses anos que viveram juntos, correram o mundo, por seus vários continentes. Por vezes com Sartre, outras vezes só os dois. No começo do livro conta sobre sua judeidade, a condição de ser judeu nos colégios franceses, o antissemitismo nos anos antes da guerra, de como ele, o pai e os irmãos sobreviveram porque tinham passaportes falsos, com sobrenomes não-judeus. Enfim, reafirmo sua importância: é uma aula de história.
Para contar sobre o Holocausto dirigiu um filme sobre ele, intitulado em hebraico, Shoah, que demorou mais de 10 anos para finalizar e que tem quase oito horas de duração. Nos últimos capítulos do livro conta-nos detalhes sobre a produção do filme, sua obstinação em convencer alguns membros da SS a lhe dar testemunho sobre como operacionalizavam a Solução Final; as filmagens nos Campos de Extermínio da Polônia, o antissemitismo que ainda grassava por lá, entre os camponeses das cidades pequenas, nos arredores dos Campos; os problemas políticos que teve com o lançamento do filme. Em 1985 ele ficou pronto, quando ninguém mais acreditava que ele fosse finalizá-lo. Nessa questão judaica só há uma coisa que não gostei: quando ele chega ao nome de Ariel Sharon. Ele, um autor que é veemente em sua opinião e denúncia dos erros/crimes de todos, cita Sharon e nada. Nem uma palavra, nenhuma crítica. Nada. Nessa parte decepcionei-me com o autor.
Perguntei-me porque o livro assim se intitulava. Na epígrafe, o autor cita um trecho de um livro: A lebre dourada, de Silvina Ocampo e mesmo lendo essa epígrafe fica o enigma a ser solucionado, no final. Eis um resumo da epígrafe: em um campo, uma lebre corre, atenta a tudo, aos menores ruídos. Um dia, como outro qualquer, escuta muitos latidos. Começa a correr. Grita para os cachorros uma pergunta, “aonde vamos?”. E os cachorros respondem: “Até o fim de sua vida!”. E a lebre aparece novamente em uma cena que o autor não esquece e nos conta em dois momentos do livro: ele e Simone de Beauvoir, viajando à noite, pela Sérvia, dirigindo um carro velho, atropelam muitas lebres. Ficara muito angustiado, desviava o carro sempre que possível, queria salvá-las da morte. Quando visitou a Patagônia, algo parecido aconteceu: quase matou uma. Por estas situações podemos entender que as lebres são os seres para a morte. Em seu filme queria captar, a partir dos depoimentos, todos os detalhes de como foi o momento final dos milhões de judeus, enquanto marchavam para morrerem na câmara de gás (Não sei como ele escreveu em francês, mas em português isso foi traduzido simplesmente como “gazeados”. Achei horrível escrever ou traduzir assim: dizer gazeado retira o caráter de assassinato do ato). Ele queria captar algo ainda não dito que pudesse entender o momento final. Reprisa a pergunta: por que não fugiram? Por que não correram? Mas não colocada por ele, por outros historiadores. Não quer dizer que tenha validade para ele a pergunta, porém há uma relação entre correr e mesmo assim morrer, na lebre e não correr, não fugir e mesmo assim morrer, nos judeus. Posteriormente descobriu, durante as pesquisas para seu filme, relatos de que muitas lebres freqüentavam o Campo de Concentração de Birkenau, e contorciam-se entre as cercas e saíam do campo quando queriam. Assim, a lebre é, também, uma sobrevivente, a que escapa, faz um malabarismo, corre, foge e então, símbolo da vida.
Tem uma coisa que não gostei em tudo que ele relata, não tem relação com essa densa e importante história de vida e de forma alguma com sua visão sobre o Holocausto. Fiquei meio enojada de seu jeito de escolher as mulheres. Fiquei pensando uns dois dias nisso, fazendo a pergunta freudiana, ao inverso, o que quer o homem? É claro que só pode ser respondida na singularidade do caso a caso. Ele se orgulha de ter vivido com Simone de Beauvoir, depois se casou com uma atriz famosa de teatro, filha de industriais em que fica nos relatando o alpinismo nas montanhas chiques que fazia com o sogro. Depois nova esposa, uma escritora alemã, segundo ele a “mulher mais linda da Alemanha”. Fiquei curiosa e digitei no Google o nome dela. Nada de linda, mas para ele ficar com uma mulher tem que dizer que é muito linda, muito rica, muito conhecida, muito, muito, muito. Mas se apaixonou por uma mulher da Coréia do Norte, uma enfermeira que cuidou dele por alguns dias, uma mulher calada, da qual não entendia uma palavra da língua, que se comunicavam por desenhos, que mostrou a ele seu seio queimado por gás, com a qual só pôde ter um beijo, escondido em um canto do hospital. Quando ele retorna à Paris, ela manda uma carta para ele. Ele não responde, não faz nada. Volta cinqüenta anos depois à Coréia do Norte, com quase oitenta anos, atrás dela, fica andando a esmo pela cidade, não investiga nada, nem para saber se ela estaria viva ou morta, não pergunta sobre ela e volta para casa. Volta para suas mulheres, ricas, “lindas” e famosas.
Acho meio desprezível um homem que precisa se afirmar ficando com mulheres ricas, famosas, estilo celebridades. Isso é coisa de coluna social. Ele não precisava, com tudo que viveu, com tanto que escreveu, dirigiu, com seu papel de testemunha dos principais acontecimentos do mundo, com todas as viagens que fez por esse mundo enorme de meu Deus – eu gosto de gente que corre o mundo – não precisava disso. E além de tudo, na foto da capa do livro, tirado no Egito, com Beauvoir e Sartre, ele com cerca de uns 35 anos, era um homem bonitíssimo. Precisava disso? Precisava. Resta saber o por quê. Só ele pode respondê-lo.
O livro é ótimo, a história de vida e do século é ótima, só o homem é que é decepcionante. Mas leiam, vale a pena.
Viveu durante sete anos com Simone de Beauvoir, em uma relação a três – eles dividiam um apartamento e Beauvoir continuava com Sartre, que morava em outro apartamento, nas arredondezas. Com Simone de Beauvoir, nesses anos que viveram juntos, correram o mundo, por seus vários continentes. Por vezes com Sartre, outras vezes só os dois. No começo do livro conta sobre sua judeidade, a condição de ser judeu nos colégios franceses, o antissemitismo nos anos antes da guerra, de como ele, o pai e os irmãos sobreviveram porque tinham passaportes falsos, com sobrenomes não-judeus. Enfim, reafirmo sua importância: é uma aula de história.
Para contar sobre o Holocausto dirigiu um filme sobre ele, intitulado em hebraico, Shoah, que demorou mais de 10 anos para finalizar e que tem quase oito horas de duração. Nos últimos capítulos do livro conta-nos detalhes sobre a produção do filme, sua obstinação em convencer alguns membros da SS a lhe dar testemunho sobre como operacionalizavam a Solução Final; as filmagens nos Campos de Extermínio da Polônia, o antissemitismo que ainda grassava por lá, entre os camponeses das cidades pequenas, nos arredores dos Campos; os problemas políticos que teve com o lançamento do filme. Em 1985 ele ficou pronto, quando ninguém mais acreditava que ele fosse finalizá-lo. Nessa questão judaica só há uma coisa que não gostei: quando ele chega ao nome de Ariel Sharon. Ele, um autor que é veemente em sua opinião e denúncia dos erros/crimes de todos, cita Sharon e nada. Nem uma palavra, nenhuma crítica. Nada. Nessa parte decepcionei-me com o autor.
Perguntei-me porque o livro assim se intitulava. Na epígrafe, o autor cita um trecho de um livro: A lebre dourada, de Silvina Ocampo e mesmo lendo essa epígrafe fica o enigma a ser solucionado, no final. Eis um resumo da epígrafe: em um campo, uma lebre corre, atenta a tudo, aos menores ruídos. Um dia, como outro qualquer, escuta muitos latidos. Começa a correr. Grita para os cachorros uma pergunta, “aonde vamos?”. E os cachorros respondem: “Até o fim de sua vida!”. E a lebre aparece novamente em uma cena que o autor não esquece e nos conta em dois momentos do livro: ele e Simone de Beauvoir, viajando à noite, pela Sérvia, dirigindo um carro velho, atropelam muitas lebres. Ficara muito angustiado, desviava o carro sempre que possível, queria salvá-las da morte. Quando visitou a Patagônia, algo parecido aconteceu: quase matou uma. Por estas situações podemos entender que as lebres são os seres para a morte. Em seu filme queria captar, a partir dos depoimentos, todos os detalhes de como foi o momento final dos milhões de judeus, enquanto marchavam para morrerem na câmara de gás (Não sei como ele escreveu em francês, mas em português isso foi traduzido simplesmente como “gazeados”. Achei horrível escrever ou traduzir assim: dizer gazeado retira o caráter de assassinato do ato). Ele queria captar algo ainda não dito que pudesse entender o momento final. Reprisa a pergunta: por que não fugiram? Por que não correram? Mas não colocada por ele, por outros historiadores. Não quer dizer que tenha validade para ele a pergunta, porém há uma relação entre correr e mesmo assim morrer, na lebre e não correr, não fugir e mesmo assim morrer, nos judeus. Posteriormente descobriu, durante as pesquisas para seu filme, relatos de que muitas lebres freqüentavam o Campo de Concentração de Birkenau, e contorciam-se entre as cercas e saíam do campo quando queriam. Assim, a lebre é, também, uma sobrevivente, a que escapa, faz um malabarismo, corre, foge e então, símbolo da vida.
Tem uma coisa que não gostei em tudo que ele relata, não tem relação com essa densa e importante história de vida e de forma alguma com sua visão sobre o Holocausto. Fiquei meio enojada de seu jeito de escolher as mulheres. Fiquei pensando uns dois dias nisso, fazendo a pergunta freudiana, ao inverso, o que quer o homem? É claro que só pode ser respondida na singularidade do caso a caso. Ele se orgulha de ter vivido com Simone de Beauvoir, depois se casou com uma atriz famosa de teatro, filha de industriais em que fica nos relatando o alpinismo nas montanhas chiques que fazia com o sogro. Depois nova esposa, uma escritora alemã, segundo ele a “mulher mais linda da Alemanha”. Fiquei curiosa e digitei no Google o nome dela. Nada de linda, mas para ele ficar com uma mulher tem que dizer que é muito linda, muito rica, muito conhecida, muito, muito, muito. Mas se apaixonou por uma mulher da Coréia do Norte, uma enfermeira que cuidou dele por alguns dias, uma mulher calada, da qual não entendia uma palavra da língua, que se comunicavam por desenhos, que mostrou a ele seu seio queimado por gás, com a qual só pôde ter um beijo, escondido em um canto do hospital. Quando ele retorna à Paris, ela manda uma carta para ele. Ele não responde, não faz nada. Volta cinqüenta anos depois à Coréia do Norte, com quase oitenta anos, atrás dela, fica andando a esmo pela cidade, não investiga nada, nem para saber se ela estaria viva ou morta, não pergunta sobre ela e volta para casa. Volta para suas mulheres, ricas, “lindas” e famosas.
Acho meio desprezível um homem que precisa se afirmar ficando com mulheres ricas, famosas, estilo celebridades. Isso é coisa de coluna social. Ele não precisava, com tudo que viveu, com tanto que escreveu, dirigiu, com seu papel de testemunha dos principais acontecimentos do mundo, com todas as viagens que fez por esse mundo enorme de meu Deus – eu gosto de gente que corre o mundo – não precisava disso. E além de tudo, na foto da capa do livro, tirado no Egito, com Beauvoir e Sartre, ele com cerca de uns 35 anos, era um homem bonitíssimo. Precisava disso? Precisava. Resta saber o por quê. Só ele pode respondê-lo.
O livro é ótimo, a história de vida e do século é ótima, só o homem é que é decepcionante. Mas leiam, vale a pena.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Abre-me e eu te devoro
A peça de Antonio Quinet, “Abrem-se os histéricos”, é um balé sincronizado de quatro histéricas mais uma, retratando os impasses de uma época que, de certa forma, ainda é hoje.
No final do Século XIX, Charcot encontrou na histeria uma doença verdadeira e não uma simulação ou degeneração. Uma doença encenada no corpo. E Charcot tornou-se à época, uma celebridade em Paris, um médico e mestre construindo um saber encenado no palco por suas pacientes histéricas. Era assistido por muitos, jovens cientistas como Babinski, que não acreditava na histeria – achava que as histéricas eram umas falsificadoras de sintomas, por isso propôs para a histeria um novo nome, pitiatismo, piti – e Freud, que apostava em outra cena como a causa da doença, uma outra cena, infantil e traumática, explicava esse teatro no corpo; bem como era assistido por literatos como Leon Daudet e Maupassant. Esse momento histórico é o eixo da peça do psicanalista e dramaturgo Antonio Quinet.
Em “Abrem-se os histéricos”, Babinski, Freud e mesmo Charcot são um tanto apagados, ficando em segundo plano. Não sei se foi intencional ou se os atores ainda estão meio deslocados diante do balé das histéricas – e como dançam bem! Não apenas Sarah Bernhardt, todas.
Quando as histéricas estão na primeira cena, os homens/doutores desaparecem e ficamos encantados com a dança/doença delas, com seu sofrimento, suas contrações, seus desmaios, suas contraturas. O que reina é o corpo, palco de uma verdade que denuncia uma mentira. Quinet contrapõe a histeria ao teatro, que encena uma mentira para dizer uma verdade.
E a histeria reinava na Salpetrière, no Século XIX, como reinará no século seguinte. Tanto que Freud a elegerá como a neurose de base, sendo a outra apenas seu dialeto. E Lacan a elevará a categoria de um discurso. Hoje os sintomas podem estar um pouco diferentes – embora ainda encontremos na clínica alguns casos como as pacientes de Charcot – porém o sofrimento no corpo continua o mesmo, com as fibromialgias, anorexias, LER e outros tantos que evidenciam que as mulheres – não somente elas, mas sobretudo elas – continuam sofrendo com seus corpos.
Os homens da ciência de hoje, como os da época de Charcot, continuam querendo abrir o cérebro e o corpo das histéricas, para decifrá-las, inventando remédios e terapêuticas e se irritando porque essas histéricas, ah, elas insistem. E continuam fechadas, enigmáticas, não querendo seu ser reduzido a uma compreensão débil.
A peça de Quinet mostra que a histérica encena o desejo sempre um tanto inominável, apreendido por um desvio, inassimilável a não ser pela palavra. Mesmo Freud se enganou em vários de seus casos sobre o que queriam suas pacientes histéricas nesse caminho em que acreditava decifrá-las, até se perguntar “mas o que quer uma mulher?” Para ele também a histeria ficou sempre sendo uma esfinge, mesmo com toda sua descoberta do inconsciente e do desejo.
A iluminação, o figurino e a música da peça são um primor. E a disposição do palco, com duas cenas, em que podemos ver a outra cena, através do vidro, foi uma estratégia excelente do diretor.
O dramaturgo nos mostra que as histéricas se furtam à decifração, se furtam a se abrirem, escapam de serem devoradas, classificadas, compreendidas e continuam a encenar no palco de seu corpo a verdade do desejo. Seu e do Outro. As quatro assim o fazem e também Madame Charcot, presa ao desejo do marido, correndo de um canto ao outro, despenteada e desgrenhada, atrás das histéricas, as outras mulheres para quem seu marido só tinha olhos.
Ao sair da peça, pensei: “se demorasse mais cinco minutos, iria sair daqui com o braço torto”. O engraçado foi que duas amigas, uma logo na saída, e outra no dia seguinte, disseram-me quase o mesmo. A histeria é contagiosa e quer continuar fechada – a despeito que tantas histéricas queiram se analisar – tal como uma esfinge. Na peça, os devorados somos nós. E também os atores masculinos, um pouco. Somos nós os devorados que saímos quase meio tortos.
Aliás, conclamo vocês a assistirem a peça e saírem dela sem entortar nem um dedinho sequer.
No final do Século XIX, Charcot encontrou na histeria uma doença verdadeira e não uma simulação ou degeneração. Uma doença encenada no corpo. E Charcot tornou-se à época, uma celebridade em Paris, um médico e mestre construindo um saber encenado no palco por suas pacientes histéricas. Era assistido por muitos, jovens cientistas como Babinski, que não acreditava na histeria – achava que as histéricas eram umas falsificadoras de sintomas, por isso propôs para a histeria um novo nome, pitiatismo, piti – e Freud, que apostava em outra cena como a causa da doença, uma outra cena, infantil e traumática, explicava esse teatro no corpo; bem como era assistido por literatos como Leon Daudet e Maupassant. Esse momento histórico é o eixo da peça do psicanalista e dramaturgo Antonio Quinet.
Em “Abrem-se os histéricos”, Babinski, Freud e mesmo Charcot são um tanto apagados, ficando em segundo plano. Não sei se foi intencional ou se os atores ainda estão meio deslocados diante do balé das histéricas – e como dançam bem! Não apenas Sarah Bernhardt, todas.
Quando as histéricas estão na primeira cena, os homens/doutores desaparecem e ficamos encantados com a dança/doença delas, com seu sofrimento, suas contrações, seus desmaios, suas contraturas. O que reina é o corpo, palco de uma verdade que denuncia uma mentira. Quinet contrapõe a histeria ao teatro, que encena uma mentira para dizer uma verdade.
E a histeria reinava na Salpetrière, no Século XIX, como reinará no século seguinte. Tanto que Freud a elegerá como a neurose de base, sendo a outra apenas seu dialeto. E Lacan a elevará a categoria de um discurso. Hoje os sintomas podem estar um pouco diferentes – embora ainda encontremos na clínica alguns casos como as pacientes de Charcot – porém o sofrimento no corpo continua o mesmo, com as fibromialgias, anorexias, LER e outros tantos que evidenciam que as mulheres – não somente elas, mas sobretudo elas – continuam sofrendo com seus corpos.
Os homens da ciência de hoje, como os da época de Charcot, continuam querendo abrir o cérebro e o corpo das histéricas, para decifrá-las, inventando remédios e terapêuticas e se irritando porque essas histéricas, ah, elas insistem. E continuam fechadas, enigmáticas, não querendo seu ser reduzido a uma compreensão débil.
A peça de Quinet mostra que a histérica encena o desejo sempre um tanto inominável, apreendido por um desvio, inassimilável a não ser pela palavra. Mesmo Freud se enganou em vários de seus casos sobre o que queriam suas pacientes histéricas nesse caminho em que acreditava decifrá-las, até se perguntar “mas o que quer uma mulher?” Para ele também a histeria ficou sempre sendo uma esfinge, mesmo com toda sua descoberta do inconsciente e do desejo.
A iluminação, o figurino e a música da peça são um primor. E a disposição do palco, com duas cenas, em que podemos ver a outra cena, através do vidro, foi uma estratégia excelente do diretor.
O dramaturgo nos mostra que as histéricas se furtam à decifração, se furtam a se abrirem, escapam de serem devoradas, classificadas, compreendidas e continuam a encenar no palco de seu corpo a verdade do desejo. Seu e do Outro. As quatro assim o fazem e também Madame Charcot, presa ao desejo do marido, correndo de um canto ao outro, despenteada e desgrenhada, atrás das histéricas, as outras mulheres para quem seu marido só tinha olhos.
Ao sair da peça, pensei: “se demorasse mais cinco minutos, iria sair daqui com o braço torto”. O engraçado foi que duas amigas, uma logo na saída, e outra no dia seguinte, disseram-me quase o mesmo. A histeria é contagiosa e quer continuar fechada – a despeito que tantas histéricas queiram se analisar – tal como uma esfinge. Na peça, os devorados somos nós. E também os atores masculinos, um pouco. Somos nós os devorados que saímos quase meio tortos.
Aliás, conclamo vocês a assistirem a peça e saírem dela sem entortar nem um dedinho sequer.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Aniversário de minha mãe
Dona Eugênia, minha mãe, faz hoje 70 anos. No almoço de ontem, com filhos e netos, estávamos combinando o que fazer de almoço hoje e lá vem ela com seu jeito temperamental e suas ordens que não são desobedecidas: amanhã não terá almoço nessa casa, vou fazer minha cuca (típico bolo que os descendentes de alemães do sul fazem). E ela incrementou a receita há alguns anos atrás, colocou ricota, e fica melhor do que o que minha avó (mãe dela) e tias fazem.
Um episódio define bem minha mãe: dois anos trás, estávamos viajando, eu, ela, meu pai e meu sobrinho e teve um acidente na rodovia. Um caminhão de bebidas tombou, minha mãe abriu a porta e foi andando pela rodovia para ver o acidente. Imediatamente veio-me a lembrança o perigo disso, quantos acidentes não sabemos que acontecem com aqueles que param e andam à beira da rodovia? Rafael foi chamá-la e ela voltou. Dei uma bronca, lembrando a idade que ela tem. E ela me sai com essa: sinto-me com uns cinquenta anos. É muito curiosa!
E saúde de cinquenta ela tem. Adquiriu uma insônia e uma labirintite depois que perdeu um filho, o caçula, Osni, que partiu em 2008. Convive com uma insônia ocasional, uma labirintite ocasional, que junto com a saudade, não a deixou esquecer diuturnamente que perdeu um filho. Mas isso não lhe tirou a energia de vida que sempre teve.
Estamos proibidos de aparecer lá hoje na hora do almoço - estou em dúvida se posso ligar para dar os parabéns - mas terá um jantar e cuca de ricota depois, é claro.
Já nos disse tudo o que não quer ganhar de presente. Não gosta de coisas caras, nesse aniversário não quer flores, roupas, joías não usa. Praticamente só tive a idéia de lhe dar um chinelo de inverno, pois disso ela está precisando e não sabe.
Depois de escrever isso, afinal, nem sei mais quantos anos minha mãe está comemorando hoje.
Um episódio define bem minha mãe: dois anos trás, estávamos viajando, eu, ela, meu pai e meu sobrinho e teve um acidente na rodovia. Um caminhão de bebidas tombou, minha mãe abriu a porta e foi andando pela rodovia para ver o acidente. Imediatamente veio-me a lembrança o perigo disso, quantos acidentes não sabemos que acontecem com aqueles que param e andam à beira da rodovia? Rafael foi chamá-la e ela voltou. Dei uma bronca, lembrando a idade que ela tem. E ela me sai com essa: sinto-me com uns cinquenta anos. É muito curiosa!
E saúde de cinquenta ela tem. Adquiriu uma insônia e uma labirintite depois que perdeu um filho, o caçula, Osni, que partiu em 2008. Convive com uma insônia ocasional, uma labirintite ocasional, que junto com a saudade, não a deixou esquecer diuturnamente que perdeu um filho. Mas isso não lhe tirou a energia de vida que sempre teve.
Estamos proibidos de aparecer lá hoje na hora do almoço - estou em dúvida se posso ligar para dar os parabéns - mas terá um jantar e cuca de ricota depois, é claro.
Já nos disse tudo o que não quer ganhar de presente. Não gosta de coisas caras, nesse aniversário não quer flores, roupas, joías não usa. Praticamente só tive a idéia de lhe dar um chinelo de inverno, pois disso ela está precisando e não sabe.
Depois de escrever isso, afinal, nem sei mais quantos anos minha mãe está comemorando hoje.
sábado, 2 de junho de 2012
Saudades
É sábado de manhã, faz sol, faz calor e eu faço uma horinha para ir trabalhar. Sinto saudades da Bélgica, de uma janela para um canal, de andar pelas Ardennes Flamandes, dos pralinés da padaria da esquina, de viajar até uma cidadezinha próxima de Gand e, ao longe, enxergar o Mar do Norte. Sinto saudades do crepe artesanal, com geléia caseira de framboesa, feito pelas velhas senhoras flamencas; dos rodedendros nos jardins das primaveras frias. Sinto saudades da língua, do país, do povo, tão diferente de nós, brasileiros: receosos, cautelosos, mas quando abrem a casa e o coração, é uma entrega tal. Sinto saudades desse outro país, que não o meu, mas que habita em minhas lembranças.
Amanheci estrangeira.
Amanheci estrangeira.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Prata da Casa trinta anos depois
Velhos amigos cantam antigas canções
Velhos amigos que se encontram trinta anos depois, e que cantam não as novas canções, mas as velhas, as mesmas que cantaram outrora, à época de gravação do LP Prata da Casa. Isso foi o show de ontem, 22 de maio de 2012, no Glauce Rocha. Esse LP foi o mais falado e homenageado da noite. Ao meu lado alguém dizia “eu tive um” ou “eu estive no outro show quando foi gravado o LP e tinha 10 anos”. Quando velhos amigos se encontram “relembram loucuras de outros verões e fazem de conta que o tempo não ronda os seus corações”. Com essa música, de Almir Sater e Paulo Simões, eles, os autores, e todos os outros amigos, encerraram o show. Começo pelo fim, porque creio que o fim das coisas diz seu começo: foi isso o show, resgate da memória, através de um projeto da UFMS, que permitiu a todos nós reencontrar esses artistas, todos juntos, e creio que tambem nós, os espectadores, éramos velhos amigos. A observar que o tempo passou bem para os músicos sul-mato-grossenses, para os poetas-músicos de nossa região, esses artistas da “fronteira em que o Brasil foi Paraguai”.
Um show para gravação de CD e DVD é um pouco desestimulante: muita parafernália, assistentes de palco trabalhando, cada músico só cantou uma música, entra e sai de artistas, atrasos, câmeras, luzes, apresentador que falava demais de si mesmo. Enfim, mesmo com tudo isso, compartilhamos com os velhos amigos o percurso de 30 anos que cada um fez.
Quase no início estava lá o grupo ACABA, quarenta anos dos canta-dores do Pantanal, com a música Pássaro branco: “ainda criança aprendi o caminho dos pântanos, aprendi a voar. Sua asa desenhou meu retrato para ficar nessa terra.” Quando o ACABA acabou de cantar, vieram outros e sempre a referência era essa terra, a paixão pelo Pantanal, pelos sonhos guaranis, por esse planalto central de cerrados e pantanais, pelos Kadiwéus, remanescentes da grande nação guaicuru. Geraldo Espíndola cantou Kikiô, esse índio que nasceu no centro, entre montanhas e mar.
E falando dos Espíndolas, eles comparecem em peso ao show: Celito, Geraldo, Alzira, Tetê e Jerry. O que dizer mais? Eles já sofreram o tombamento, transformados em patrimônio da humanidade do Mar de Xaraés do cerrado central.
Temos o nosso mar, o Mar de Xaraés, longínquo. Deve ser por isso que quando um sul-mato-grossense vê o mar, tem uma nostalgia milenar. A paixão pela terra, pelas origens, que domina os homens, dominou todas as vozes, todas as letras. O homenageado foi José Boaventura, que esteve no Prata da Casa anterior e agora já se foi. Os Hermanos irmãos o homenagearam. Ele foi a presença-ausência da noite, que o tempo levou, mas a obra e a saudade deixou.
Quando Geraldo Roca cantou sua Mochileira, com a mesma voz linda e possante de sempre, pudemos constatar que ele continua com a mesma presença de palco de outrora. A conversa das velhas amigas – eu e minhas três amigas – no jantar pós show foi norteado pela pergunta: quem foi essa mochileira a quem um homem assim fica pedindo “fica comigo essa noite, me fala de outros lugares, etc”?
Como escrevi acima, assisti o show com três amigas e fomos conversando durante o show (baixinho) sobre o passado. Uma delas assistiu o show anterior. Não tinha a idade que disse que tinha, mas não entramos em celeuma de idade de mulher; a outra sabe de histórias de bastidores e teve um rápido affair com um dos pratas – engoli em seco com uma rápida e “pequena” inveja. Não conto mais nada sobre isso – e a outra, uma corumbaense, amante da música, que tem um trabalho no qual coloca as mãos na lama e na fauna pantaneira, ficou um pouco dispicionada com a organização do show. Dispicionada é um neologismo de uma velha corumbaense que ela lembrou para falar de sua decepção. A dispicionada foi eu: não estive a trinta anos atrás, não tive o LP-bolacha Prata da Casa, não tive affair com prata nenhum e não trabalho no Pantanal. A mais dispicionada e desprivilegiada das quatro e tenho a responsabilidade de escrever esse singelo texto como uma forma de agradecimento a Marta Ferreira e Angela Kempfer, do Campograndenews, que arranjaram uma maneira que eu fosse ao show mesmo com o teatro lotado. Meu obrigada para elas. Aliás, também não tinha ingresso.
Para encerrar, não quero resvalar na visão que havia mais entusiasmo e alegria no show original. Isso seria a saudade nostálgica ao estilo “em busca do tempo perdido”. Vi o show como uma festa, um brinde alegre a memória, a alegria do tempo vivido, a comemoração de obras construídas no percurso de trinta anos. E isso tanto do lado de cá quanto de lá do palco. Tim Tim.
sábado, 12 de maio de 2012
Te vi
Acordada desde as cinco da manhã porque o mundo estava explodindo em raios, trovões que iluminavam meu quarto e ensurdeciam meus ouvidos. O mundo eu não sei se explodia todo, ele é muito grande, mas quase todos os raios sob os céus de Campo Grande parece que vieram estalar sobre a Lagoa do Itatiaia. Fazendo nada em uma manhã sem luz do sol, e com uma eletricidade que não comparecia - faz só uma hora que voltou - mesmo assim, cantava mentalmente a mesma música com a qual fui dormir: Un vestido y un amor. Essa história de um homem que a viu esperando o tempo passar em Madri, e que para ajudar a viver, ela fumava e escrevia. E enquanto para ela não tinha graça esse país - só tinha um vestido e um amor - ele a viu. Ele não esperava ninguém e nada e sem expectativa, desavisado e surpreso, a viu.
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