Dona Eugênia, minha mãe, faz hoje 70 anos. No almoço de ontem, com filhos e netos, estávamos combinando o que fazer de almoço hoje e lá vem ela com seu jeito temperamental e suas ordens que não são desobedecidas: amanhã não terá almoço nessa casa, vou fazer minha cuca (típico bolo que os descendentes de alemães do sul fazem). E ela incrementou a receita há alguns anos atrás, colocou ricota, e fica melhor do que o que minha avó (mãe dela) e tias fazem.
Um episódio define bem minha mãe: dois anos trás, estávamos viajando, eu, ela, meu pai e meu sobrinho e teve um acidente na rodovia. Um caminhão de bebidas tombou, minha mãe abriu a porta e foi andando pela rodovia para ver o acidente. Imediatamente veio-me a lembrança o perigo disso, quantos acidentes não sabemos que acontecem com aqueles que param e andam à beira da rodovia? Rafael foi chamá-la e ela voltou. Dei uma bronca, lembrando a idade que ela tem. E ela me sai com essa: sinto-me com uns cinquenta anos. É muito curiosa!
E saúde de cinquenta ela tem. Adquiriu uma insônia e uma labirintite depois que perdeu um filho, o caçula, Osni, que partiu em 2008. Convive com uma insônia ocasional, uma labirintite ocasional, que junto com a saudade, não a deixou esquecer diuturnamente que perdeu um filho. Mas isso não lhe tirou a energia de vida que sempre teve.
Estamos proibidos de aparecer lá hoje na hora do almoço - estou em dúvida se posso ligar para dar os parabéns - mas terá um jantar e cuca de ricota depois, é claro.
Já nos disse tudo o que não quer ganhar de presente. Não gosta de coisas caras, nesse aniversário não quer flores, roupas, joías não usa. Praticamente só tive a idéia de lhe dar um chinelo de inverno, pois disso ela está precisando e não sabe.
Depois de escrever isso, afinal, nem sei mais quantos anos minha mãe está comemorando hoje.
Um espaço para comentar sobre literatura, viagens, filmes, artes e todas essas "coisas inúteis" que tornam a vida possível, prazerosa, humana.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
sábado, 2 de junho de 2012
Saudades
É sábado de manhã, faz sol, faz calor e eu faço uma horinha para ir trabalhar. Sinto saudades da Bélgica, de uma janela para um canal, de andar pelas Ardennes Flamandes, dos pralinés da padaria da esquina, de viajar até uma cidadezinha próxima de Gand e, ao longe, enxergar o Mar do Norte. Sinto saudades do crepe artesanal, com geléia caseira de framboesa, feito pelas velhas senhoras flamencas; dos rodedendros nos jardins das primaveras frias. Sinto saudades da língua, do país, do povo, tão diferente de nós, brasileiros: receosos, cautelosos, mas quando abrem a casa e o coração, é uma entrega tal. Sinto saudades desse outro país, que não o meu, mas que habita em minhas lembranças.
Amanheci estrangeira.
Amanheci estrangeira.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Prata da Casa trinta anos depois
Velhos amigos cantam antigas canções
Velhos amigos que se encontram trinta anos depois, e que cantam não as novas canções, mas as velhas, as mesmas que cantaram outrora, à época de gravação do LP Prata da Casa. Isso foi o show de ontem, 22 de maio de 2012, no Glauce Rocha. Esse LP foi o mais falado e homenageado da noite. Ao meu lado alguém dizia “eu tive um” ou “eu estive no outro show quando foi gravado o LP e tinha 10 anos”. Quando velhos amigos se encontram “relembram loucuras de outros verões e fazem de conta que o tempo não ronda os seus corações”. Com essa música, de Almir Sater e Paulo Simões, eles, os autores, e todos os outros amigos, encerraram o show. Começo pelo fim, porque creio que o fim das coisas diz seu começo: foi isso o show, resgate da memória, através de um projeto da UFMS, que permitiu a todos nós reencontrar esses artistas, todos juntos, e creio que tambem nós, os espectadores, éramos velhos amigos. A observar que o tempo passou bem para os músicos sul-mato-grossenses, para os poetas-músicos de nossa região, esses artistas da “fronteira em que o Brasil foi Paraguai”.
Um show para gravação de CD e DVD é um pouco desestimulante: muita parafernália, assistentes de palco trabalhando, cada músico só cantou uma música, entra e sai de artistas, atrasos, câmeras, luzes, apresentador que falava demais de si mesmo. Enfim, mesmo com tudo isso, compartilhamos com os velhos amigos o percurso de 30 anos que cada um fez.
Quase no início estava lá o grupo ACABA, quarenta anos dos canta-dores do Pantanal, com a música Pássaro branco: “ainda criança aprendi o caminho dos pântanos, aprendi a voar. Sua asa desenhou meu retrato para ficar nessa terra.” Quando o ACABA acabou de cantar, vieram outros e sempre a referência era essa terra, a paixão pelo Pantanal, pelos sonhos guaranis, por esse planalto central de cerrados e pantanais, pelos Kadiwéus, remanescentes da grande nação guaicuru. Geraldo Espíndola cantou Kikiô, esse índio que nasceu no centro, entre montanhas e mar.
E falando dos Espíndolas, eles comparecem em peso ao show: Celito, Geraldo, Alzira, Tetê e Jerry. O que dizer mais? Eles já sofreram o tombamento, transformados em patrimônio da humanidade do Mar de Xaraés do cerrado central.
Temos o nosso mar, o Mar de Xaraés, longínquo. Deve ser por isso que quando um sul-mato-grossense vê o mar, tem uma nostalgia milenar. A paixão pela terra, pelas origens, que domina os homens, dominou todas as vozes, todas as letras. O homenageado foi José Boaventura, que esteve no Prata da Casa anterior e agora já se foi. Os Hermanos irmãos o homenagearam. Ele foi a presença-ausência da noite, que o tempo levou, mas a obra e a saudade deixou.
Quando Geraldo Roca cantou sua Mochileira, com a mesma voz linda e possante de sempre, pudemos constatar que ele continua com a mesma presença de palco de outrora. A conversa das velhas amigas – eu e minhas três amigas – no jantar pós show foi norteado pela pergunta: quem foi essa mochileira a quem um homem assim fica pedindo “fica comigo essa noite, me fala de outros lugares, etc”?
Como escrevi acima, assisti o show com três amigas e fomos conversando durante o show (baixinho) sobre o passado. Uma delas assistiu o show anterior. Não tinha a idade que disse que tinha, mas não entramos em celeuma de idade de mulher; a outra sabe de histórias de bastidores e teve um rápido affair com um dos pratas – engoli em seco com uma rápida e “pequena” inveja. Não conto mais nada sobre isso – e a outra, uma corumbaense, amante da música, que tem um trabalho no qual coloca as mãos na lama e na fauna pantaneira, ficou um pouco dispicionada com a organização do show. Dispicionada é um neologismo de uma velha corumbaense que ela lembrou para falar de sua decepção. A dispicionada foi eu: não estive a trinta anos atrás, não tive o LP-bolacha Prata da Casa, não tive affair com prata nenhum e não trabalho no Pantanal. A mais dispicionada e desprivilegiada das quatro e tenho a responsabilidade de escrever esse singelo texto como uma forma de agradecimento a Marta Ferreira e Angela Kempfer, do Campograndenews, que arranjaram uma maneira que eu fosse ao show mesmo com o teatro lotado. Meu obrigada para elas. Aliás, também não tinha ingresso.
Para encerrar, não quero resvalar na visão que havia mais entusiasmo e alegria no show original. Isso seria a saudade nostálgica ao estilo “em busca do tempo perdido”. Vi o show como uma festa, um brinde alegre a memória, a alegria do tempo vivido, a comemoração de obras construídas no percurso de trinta anos. E isso tanto do lado de cá quanto de lá do palco. Tim Tim.
sábado, 12 de maio de 2012
Te vi
Acordada desde as cinco da manhã porque o mundo estava explodindo em raios, trovões que iluminavam meu quarto e ensurdeciam meus ouvidos. O mundo eu não sei se explodia todo, ele é muito grande, mas quase todos os raios sob os céus de Campo Grande parece que vieram estalar sobre a Lagoa do Itatiaia. Fazendo nada em uma manhã sem luz do sol, e com uma eletricidade que não comparecia - faz só uma hora que voltou - mesmo assim, cantava mentalmente a mesma música com a qual fui dormir: Un vestido y un amor. Essa história de um homem que a viu esperando o tempo passar em Madri, e que para ajudar a viver, ela fumava e escrevia. E enquanto para ela não tinha graça esse país - só tinha um vestido e um amor - ele a viu. Ele não esperava ninguém e nada e sem expectativa, desavisado e surpreso, a viu.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Amo Lisboa
Amo Lisboa. Em cada cidade que ando, bato com meus tênis suas ruas, sinto-me estrangeira. Em Lisboa, estou um pouco em casa. Sua lingua, sua gente, suas comidas, a mistura de raças, as ruas sinuosas com seus elétricos parecendo saídos do passado, suas ladeiras, as ruas da Baixa que descem para se encontrar com o Tejo. Seus fados quase sempre tristes. Gosto muito da cultura portuguesa, do jeito aca...nhado e disfarçado de fazer chistes dos portugueses, parecendo que brigam, mas é para fazer graça. Na entrada do país, o policial me perguntou: que está acá de novo? Respondi que não tinha culpa de amar Lisboa. Cada vez tenho descoberto um novo escritor maravilhoso. Depois de José Luiz Peixoto e Gonçalo Tavares, em dezembro foi J. Rentes. Comprei dele "Com os holandeses" e "A amante holandesa". dessa vez voltei com mais livros dele na mala. E semana passada descobri mais um escritor excelente. Arrisquei comprar um romance policial e o livro revelou-se excelente. Indico-o: Francisco José Viegas, O mar em Casablanca.
E nem todos os fados são tristes. No Cd que comprei semana passada, um fado lindo, que canta a maravilha da vida e de viver em Lisboa. O homem na cidade, de Carlos do Carmo. Vou postar em seguida para vocês. Vejam que voz linda ele tem. E canta essa poesia: "Agarro a madrugada como se fosse uma criança, uma roseira entrelaçada, uma videira de esperança". E a flor que ele canta é a de Lisboa, a bem amada, que o quer bem e a quem ele quer bem.
Eu entro na poesia e complemento: Eu também. Ela é gira, muito gira.
Enfim, amo Lisboa, e tenho a geografia da cidade em minha cabeça. E em meu coração também, claro.
E nem todos os fados são tristes. No Cd que comprei semana passada, um fado lindo, que canta a maravilha da vida e de viver em Lisboa. O homem na cidade, de Carlos do Carmo. Vou postar em seguida para vocês. Vejam que voz linda ele tem. E canta essa poesia: "Agarro a madrugada como se fosse uma criança, uma roseira entrelaçada, uma videira de esperança". E a flor que ele canta é a de Lisboa, a bem amada, que o quer bem e a quem ele quer bem.
Eu entro na poesia e complemento: Eu também. Ela é gira, muito gira.
Enfim, amo Lisboa, e tenho a geografia da cidade em minha cabeça. E em meu coração também, claro.
terça-feira, 20 de março de 2012
Por uma terça-feira de sol
Um brinde a esta terça-feira. Por que tem dias que nascem iluminados, límpidos. E a beleza do dia se encaixa com sua disposição ao sair da cama. Acordar cedo, e mesmo assim já ter um sol que encosta na lagoa, pensar em todas as coisas que tem de fazer, na correria de dezenas de ações cotidianas, como ir ao banco, comprar alface, passar na lavanderia. E sentir que muitas coisas vão acontecer nos próximos dias que você não sabe. Assim como sexta-feira passada, em que fazendo a programação cotidiana, numa dessas esquinas da vida, reencontrei D. e o cotidiano ficou esquecido.
Hoje viro muitas esquinas e quem sabe? Como escreveu minha amiga Rita, um brinde a todas as possibilidades
Hoje viro muitas esquinas e quem sabe? Como escreveu minha amiga Rita, um brinde a todas as possibilidades
sexta-feira, 16 de março de 2012
As araras
Hoje, quando saí de casa, duas araras sobrevoavam o condomínio no qual moro - em que vivo uma vida e imagino outras - à beira da Lagoa do Itatiaia. São minhas vizinhas, eu no condomínio, elas na lagoa. Minhas vizinhas deram um vôo rasante e soltaram sua linguagem ardida típica. Elas, que outrora viviam sentadas, descansando no muro em frente à minha janela, andavam sumidas. Só agora descobri o motivo. Foi D. quem me contou e disse que elas vão voltar.
Aguardo, as araras, a vida que imagino, D., e outras tantas coisas mais.
Por que você não vem D.?????
Aguardo, as araras, a vida que imagino, D., e outras tantas coisas mais.
Por que você não vem D.?????
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