Acabei de ler Ernestina, de J. Rentes de Carvalho. É um volume de memórias do autor, memórias ficcionadas, lembra seu editor. É também uma história sobre o Norte de Portugual entre 1930 e 1950. Sobre a vida rural difícil dos camponeses, a história de um exôdo, pois eles começam a almejar viver nas cidades. A história de Vila Nova de Gaia, pequena cidade perto de Porto está bem retratada no livro. É nela que Ernestina, a mãe do escritor, vai viver na casa de seus tios, pois vive uma guerra devastadora com a mãe e seu pai decide que assim, duas mulheres guerreando dentro de casa não se vive. E ela abandona o campo, passa a viver com os tios, na cidade. Os tios têm dois filhos, um deles morre e o outro vive de bebidas, mulheres e farras. É com esse que, posteriormente, eles casam Ernestina. E assim, casam o filho com a sobrinha, que criavam como filha.
Casamento feito para "consertar" um homem, tirá-lo da farra, das tavernas e que, claro, não dá certo. O autor/narrador nasce desse desencontro, dessa expectativa frustada, desse arranjo sem amor, sem esperanças, sem desejo. Desde cedo percebe o desencontro, as brigas, as saídas do pai para os bares, a volta embriagado, as agressões físicas.
E para se refugiar desse mal-estar, ele vai olhar para outros lugares. Descobre o prazer de olhar tudo à distância, de um binóculo: "perdia horas a espiar a cidade com o binóculo, admirado das mudanças que a guerra causava". Paralelo ao desencontro dos pais, vivia uma infância de muitas experiências, descobertas, pesquisas. Tem um saudosismo da infância: "A vida nunca mais voltaria a ter semelhante caleidoscópio de surpresas e mistérios, de romantismo, de irrealidade. Em tudo, por toda a parte, era como se constantemente se abrissem portas que ora revelavam ameaças ou deixavam entrever esperanças".
Ainda garoto sentia-se inapto com as meninas, era baixinho, tomava xaropes para crescer e não adiantava. Sentia que os outros garotos tinham fama com as garotas da escola. Com cerca de 10 anos, no exame médico da escola, o médico diagnostica que ele tem uma corcunda que o fará sofrer na vida adulta. Os pais se preocupam e levam em outro médico. Esse descarta a corcunda, mas descobre nele um problema que não quer falar na sua frente. Pede que saia e conta aos pais. Começou a tomar injeções bem doloridas para isso que ele descobriu, logo em seguida, a causa: sífilis congênita. E percebeu que depois desse diagnóstico, "a zaragata começou na cozinha".
Ele sabia que sífilis vinha de coisas que ele ainda não tinha feito, mas não entendia o congênito. "e a procurar o sentido no dicionário compreendi que, como outros bens e males, a mazela me viera por herança. Com dores nas costas pagaria eu os gozos de meu pai, de meus avós e dos avós deles, que de geração em geração tinham passado o mal-turco uns aos outros".
E assim, usará essa herança a seu favor: putanheiro, como o pai. Quando os colegas da escola perguntam porque toma injeções tão dolorosas, responde que é para "uma galiqueira que me pegara uma puta do café Royal".
Livro lindo, com um final lindo. Termina depois da primeira experiência sexual com uma garota criada por tios e que tinha o nome de Ernestina. Será que realmente a garota tinha esse nome e era realmente mais uma Ernestina "adotada" por tios? Ou é um Complexo de Édipo ficcioso criado pelo autor? Pouco importa. É um final lindo: de uma Ernestina até a outra.
E o portugues de portugal, que coisa linda! Zaragata é confusão, desordem. Galiqueira é outro nome para a doença sifilítica.
Um espaço para comentar sobre literatura, viagens, filmes, artes e todas essas "coisas inúteis" que tornam a vida possível, prazerosa, humana.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
Diário argentino II
Terminei na quinta-feira de ler o "Diário argentino", de Gombrowicz. Livro triste, de um homem deslocado e triste, que não se sente feliz em nenhum lugar. O livro termina quando ele volta para a Europa, depois de 24 anos de exílio argentino. Mas, vendo as costas de Barcelona também não fica feliz. A Europa também não é seu lugar. E relembra que está indo para Paris. Esteve lá trinta e cinco anos antes e também sentiu-se estrangeiro.
Fiquei pensando sobre isso: é preciso na vida saber viver como um estrangeiro, um estranho em um lugar. Seja ele onde for. Saber perder-se e encontrar-se. Não importa onde.
Fiquei pensando sobre isso: é preciso na vida saber viver como um estrangeiro, um estranho em um lugar. Seja ele onde for. Saber perder-se e encontrar-se. Não importa onde.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Mudou
Uma bobagem, uma tolice. Por que disse isso? Uma frase torta, falada na hora errada. Um instante de nervoso, um tropeço daqui, outro de lá. E depois, a vergonha. A inadequação. A impressão de que se foi mais tolo do que nunca. É isso o desejo: nos atropela, nos interpela, nos interpreta. Tolos, sempre tolos. Divididos, perdidos. Deslocados. Tem alguns que são mais privilegiados para explicar isso: os poetas.
Estamos perdidos, sem localização geográfica, mas não sem poesia. Eis Taiguara:
"Mudou o tempo e o que eu sonhei para nós. Mudou a vida, o vento, a minha voz."
Estamos perdidos, sem localização geográfica, mas não sem poesia. Eis Taiguara:
"Mudou o tempo e o que eu sonhei para nós. Mudou a vida, o vento, a minha voz."
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Madrugei hoje
Madruguei. Vendo notícias. Uma animada entre tantas de morte, acidente, roubo, corrupção, mensalão: Liam Neeson tira a roupa no programa de Ellen Degeneres. E aquele homem gigante, de mais de 1.90m de altura fica só de cuecinha rosa pink, em apoio à campanha do cancêr de mama. E eu sou fã dele, um dos grandes atores do momento e ainda de cueca rosa pink? Maravilha. Quinta começou bem.
Pescando na Lagoa do Itatiaia
Uma última coisa meio estranha que aconteceu domingo. Conto e vou dormir: um garoto que mora no condomínio veio me mostrar, dentro de uma vasilha, um peixe que ele pescou na piscina do condominio. Digo que não é verdade, que ele pescou na Lagoa do Itatiaia. Ele responde que sim, envergonhado. Na verdade, ele sabe que não poderia ter pescado lá. Ai eu digo - foi automático, não queria colocar tanta culpa na criança - eu acho que você devia devolver à lagoa, no mesmo lugar onde pegou, por que o pai e a mãe do peixinho devem estar atras dele. Foi imediato: a criança fez uma cara de tristeza e culpa. Não tinha pensado no peixinho como tendo familia. Ajudei a criar a neurose em uma criança no dia de hoje. Que coisa.......
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Diário argentino
Quando descubro um novo autor é como se descobrisse um mundo. Dois escritores argentinos escreveram sobre ele: Witold Gombrowicz. Em 1942, ele foi para um congresso de literatura em Buenos Aires. Estava no navio, à caminho, e os alemães tomam seu país, a Polônia. Sua familia judia é enviada aos campos de concentração. Ele não tem para onde voltar. Está "preso" em Buenos Aires. E fica lá, quase 25 anos. Anos depois, passa a escrever não mais em polonês, mas em espanhol.
Estou, agora, deitada na cama e olhando a lua pela janela aberta. E lendo "Diário argentino", de Witold Gombrowicz, o mais novo escritor exilado que descobri. Uma partezinha para vocês, em que fala que a alegria é o melhor do ser humano: "essa alegria que es nuestra única victoria sobre la existencia, la unica gloria del hombre.".
Não quero interpretar o escritor, mas se vocês lerem o livro, verão que a alegria falta nesse relato diário de seus dias portenhos.
domingo, 16 de setembro de 2012
Minha "relação emocional" com o divã
A jornalista Angela Kempfer pediu-me um relato de minha "relação emocional" com o divã para uma matéria que está escrevendo sobre o mobiliário. Escrevi o que está abaixo. Gostei e resolvi publicar também aqui.
Freud inventou o uso do divã - o mobiliário era bem comum à época, uma peça clássica - porque descobriu que a hipnose não funcionava, os pacientes não lembravam o que estava realmente no inconsciente. E também aquilo que ele sugestionava-os, hipnotizados, não tinha efeito senão por dias. O cara a cara também não lhe serviu, pois percebeu que as pessoas precisavamm controlar pelo olhar do outro como estavam sendo vistas, aprovadas. Fazemos isso toda hora (fulano me olhou de tal jeito, será que é de aprovação? me disse bom dia com um olhar tão sério, está bravo comigo? Está ou não gostando do que eu estou falando?), então imagina o peso disso durante o tratamento? É maior ainda.Assim ele inventou o uso do divã: o sujeito deita e olha para qualquer lugar, não conseguindo controlar como está sendo olhado, diz o que vir à cabeça. A regra: associação livre.
Então, o principal não é o divã, é estar fora do controle do olhar.Quando comecei a fazer minha formação psicanalítica, mandei fazer um divã. Um bem simples, que era o que o meu dinheiro conseguia pagar. Meu analista também tinha um divã simples. Então não me preocupava com a simplicidade do divã. Porém, eu deitada no divã, enquanto fazia minhas sessões, olhava para o lado, uma parede toda de vidro e,para além do jardim de inverno da sala dele, ao longe, enxergava o Cristo Redentor. Como eu não conseguiria em minha sala, ter ao longe um Cristo Redentor, não me importava que o divã fosse simples.
Uma parte de minha formação psicanalítica, fiz olhando para o Cristo. Depois ele se mudou para outro consultório,continuei minha análise, mas faltava a vista. Estou fazendo humor disso, só para dizer que o mais importante é olhar para outro lugar e com isso se afloram lembranças, cenas que não se tinham antes, que estavam apagadas, no inconsciente.
O divã é secundário. Tanto que, por vezes, estando em outras cidades para dar seminários e cursos, atendo em quartos de hotel, consultórios emprestados de colegas e, metaforicamente, carrego meu divã comigo: ele é minha escuta, que propicia aos pacientes que se "deitem no divã da linguagem".
Mas à parte tudo isso, conto duas histórias, primeiro uma de Freud e, depois, uma minha: O consultório de Freud era de mobiliário simples, divã simples e para não ficar tão clean, tinha um tapete persa pregado na parede, atrás do divã, porém no anteparo da lareira, ele colocou pequenas estatuetas, de sua rara coleção de estátuas antigas, estátuas egipcias, uma coleção de falos, vasos etruscos, etc. O divã simples era ofuscado por essa coleção. Para imitar Freud, e sem condições financeiras para coleção de arte antiga, nem para mirada do Cristo Redentor, coloco na prateleira de livros em frente, uma coleção de bolinhas de neve, dentro com pontos turísticos de todas as cidades por onde passei. Não é a mesma coisa. É muito menos.
Outra história: anos atrás, andando em uma loja de móveis em Bruxelas - Maison du Monde - uma das lojas mais lindas que já fui, vi um divã lindo e quis muito ter um igual em minha sala. Logo eu que sou adepta do divã simples, vou gostar de um do outro lado do mundo. Tirei uma foto dele, continua guardada a foto. Foi um sonho de consumo. Quem sabe um dia mando fazer um igual? Por ora, continuo reformando meu antigo divã, gosto dele, tem me dado sorte na vida profissional. Eis uma pequena superstição boba que me impede de ter o caro-cópia-plágio do divã de Bruxelas.
Freud inventou o uso do divã - o mobiliário era bem comum à época, uma peça clássica - porque descobriu que a hipnose não funcionava, os pacientes não lembravam o que estava realmente no inconsciente. E também aquilo que ele sugestionava-os, hipnotizados, não tinha efeito senão por dias. O cara a cara também não lhe serviu, pois percebeu que as pessoas precisavamm controlar pelo olhar do outro como estavam sendo vistas, aprovadas. Fazemos isso toda hora (fulano me olhou de tal jeito, será que é de aprovação? me disse bom dia com um olhar tão sério, está bravo comigo? Está ou não gostando do que eu estou falando?), então imagina o peso disso durante o tratamento? É maior ainda.Assim ele inventou o uso do divã: o sujeito deita e olha para qualquer lugar, não conseguindo controlar como está sendo olhado, diz o que vir à cabeça. A regra: associação livre.
Então, o principal não é o divã, é estar fora do controle do olhar.Quando comecei a fazer minha formação psicanalítica, mandei fazer um divã. Um bem simples, que era o que o meu dinheiro conseguia pagar. Meu analista também tinha um divã simples. Então não me preocupava com a simplicidade do divã. Porém, eu deitada no divã, enquanto fazia minhas sessões, olhava para o lado, uma parede toda de vidro e,para além do jardim de inverno da sala dele, ao longe, enxergava o Cristo Redentor. Como eu não conseguiria em minha sala, ter ao longe um Cristo Redentor, não me importava que o divã fosse simples.
Uma parte de minha formação psicanalítica, fiz olhando para o Cristo. Depois ele se mudou para outro consultório,continuei minha análise, mas faltava a vista. Estou fazendo humor disso, só para dizer que o mais importante é olhar para outro lugar e com isso se afloram lembranças, cenas que não se tinham antes, que estavam apagadas, no inconsciente.
O divã é secundário. Tanto que, por vezes, estando em outras cidades para dar seminários e cursos, atendo em quartos de hotel, consultórios emprestados de colegas e, metaforicamente, carrego meu divã comigo: ele é minha escuta, que propicia aos pacientes que se "deitem no divã da linguagem".
Mas à parte tudo isso, conto duas histórias, primeiro uma de Freud e, depois, uma minha: O consultório de Freud era de mobiliário simples, divã simples e para não ficar tão clean, tinha um tapete persa pregado na parede, atrás do divã, porém no anteparo da lareira, ele colocou pequenas estatuetas, de sua rara coleção de estátuas antigas, estátuas egipcias, uma coleção de falos, vasos etruscos, etc. O divã simples era ofuscado por essa coleção. Para imitar Freud, e sem condições financeiras para coleção de arte antiga, nem para mirada do Cristo Redentor, coloco na prateleira de livros em frente, uma coleção de bolinhas de neve, dentro com pontos turísticos de todas as cidades por onde passei. Não é a mesma coisa. É muito menos.
Outra história: anos atrás, andando em uma loja de móveis em Bruxelas - Maison du Monde - uma das lojas mais lindas que já fui, vi um divã lindo e quis muito ter um igual em minha sala. Logo eu que sou adepta do divã simples, vou gostar de um do outro lado do mundo. Tirei uma foto dele, continua guardada a foto. Foi um sonho de consumo. Quem sabe um dia mando fazer um igual? Por ora, continuo reformando meu antigo divã, gosto dele, tem me dado sorte na vida profissional. Eis uma pequena superstição boba que me impede de ter o caro-cópia-plágio do divã de Bruxelas.
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