Em Volterra foi ambientado a saga Crepúsculo – descubro isso agora - mas também nela, Luchino Visconti filmou em 1965, Vagas estrelas da Ursa. Belíssimo filme de Visconti. Nele, Claudia Cardinale é Sandra, casada com um americano, vivendo em Genebra, está de volta a seu país, a Itália, a essa pequena cidade, província de Pisa, na Toscana, para uma homenagem a seu pai, que foi morto no Campo de Concentração de Auschwitz e, também, para reviver a infância e a adolescência – incestuosa? – com o irmão Gianni.
É um filme sobre a memória, sobre o inconsciente, o que há por baixo do aparente, um passado enterrado que vem à tona. Por isso Volterra serve bem como metáfora, pois ela está desmoronando e, atrás das marcas do Império Romano, aparece o período etrusco. Na entrada da cidade, Sandra conta a seu marido Andrew que as marcas dos etruscos, esse povo que estava antes, estão por tudo. Na casa-castelo onde chegam, em que Sandra e seu irmão Gianni viveram uma infância tão densa, repleta de mistérios, os vasos etruscos estão pela casa. Assim, Visconti usa Volterra como Freud usa Pompéia, para dizer que por trás do esquecido, estão as ruínas do passado, prontas para serem resgatadas. Pompéia e Volterra são o passado, o inconsciente, o infantil. Tanto é o infantil que o nome do filme é o começo do poema I racconti (As lembranças) de Giuseppe Lampedusa: Vagas estrelas da Ursa, eu não contava/Voltar ao hábito de vos olhar/Sobre o pátrio jardim esplendoroso/E conversar convosco das janelas/ Deste refúgio onde morei menino/E vi o fim das minhas alegrias.
O filme é sobre isso: o fim das alegrias da infância. O exílio da infância. Assim Freud escreve em A Interpretação dos Sonhos: tantas histórias de sujeitos exilados – ele comenta Ulisses – refletem esse exílio que é o da infância. A felicidade que se sentiu quando criança nunca mais se encontra. É esse o verdadeiro paraíso perdido do humano: seu infantil. Esse é o discurso de Gianni, que escreveu um romance para falar de sua infância, ele e a irmã Sandra, da alegria que sentia e perdeu. Nesse romance escreve uma cena incestuosa com a irmã, do desejo, da sede que sentia pelo corpo dela. Ela não aceita que ele publique o livro, pois as pessoas da cidade já achavam que eles tinham uma ligação muito forte e lendo o livro vão achar que realmente isso aconteceu e não foi apenas ficção. Parece pelo diálogo dos dois que essa é a ficção de Gianni com relação a Sandra, mas não a dela com ele. Depois da conversa com a irmã, Gianni encontra um título para seu livro: o poema de Giacomo Leopardi, Vagas estrelas da Ursa. Por que Visconti deixa esse lapso no filme? Não é de Leopardi e sim de Lampedusa. E ele devia saber muito bem isso, pois dois anos antes já tinha filmado um livro de Lampedusa, e exatamente com Claudia Cardinale como atriz: O Leopardo.
O drama de Sandra é outro: ela não perdoou a mãe e o amante, e todos da cidade, pois acha que todos podem ter sido os delatores de seu pai, que entregaram seu pai para os nazistas. Reencontrar seu passado em Volterra é reencontrar-se com sua raça, com seu sangue judeu, com seu pai.
Seu marido, que não gostou nada dessa vida da esposa, de tudo isso de seu passado, que ele não faz parte, quer tirá-la de Volterra o quanto antes, e que ela esqueça tudo, apague essas histórias. Ela diz: não esqueço e não perdôo ninguém.
Gianni se afundou em seu desejo incestuoso pela irmã, pela infância que se foi; sua mãe enlouqueceu; o pai morreu em Auschwitz; o marido americano quer uma mulher toda dele, transparente, não aceita os meandros da vida de Sandra que ela quer manter guardados e, assim, vai embora. E fica ela lá, só, na colina de uma cidade que aos poucos desaba, enredada em sua solidão, a manter a ética da memória. Tal como uma Antígona.
Um espaço para comentar sobre literatura, viagens, filmes, artes e todas essas "coisas inúteis" que tornam a vida possível, prazerosa, humana.
domingo, 25 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
O verão há de vir
Fui a Corumbá na quinta-feira para um evento do Protagonismo Juvenil, convidada pela psicóloga Anny Funes, organizado pela Secretaria de Assistência Social da cidade (Secretário Haroldo e Gerente de Políticas Públicas, Adelma Galeano) e apoiado pelo CRP 14.
Esperava um vôo tranqüilo – sempre esperamos – e não foi nada fácil enfrentar uma ventania insuportável em um avião pequeno. Fui preparada para 45 graus e fez 17, tinha na mala vestidos bonitos, mas só pude andar com a única calça jeans que levei. E a camiseta de manga comprida que tive que comprar, e também o xale boliviano que comprei na porta do hotel. E vestida assim para a conferência de abertura sobre a ética e a violência na juventude, falei para quase trezentos adolescentes.
E falando sobre a violência, disse aos jovens que menos violento é quem sabe quem é e o que quer para sua vida. Foi a forma, sem teorizar lacanianamente, que encontrei de dizer que o entusiasmo virá da relação com o desejo que os habita. E conclui com Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke - ando lendo e escrevendo sobre Rilke nestes meses. Preparando-me para falar para tantos jovens, muitos deles com medidas sócio-educativas, tendo já transgressões à lei em sua história, passei dias e dias sem uma idéia do que iria falar: o que dizer que pudesse tocá-los sem ser um discurso moralista, superegóico, coisa tão freqüente? Como encontrar uma saída para esse impasse? Achei quando reencontrei a adolescente que eu fui, que lia um pedacinho das cartas de Rilke a Franz Kappus todos os dias.
Para os que não sabem a história dessas cartas, conto-a, para os demais, relembro-a: Franz Kappus tinha 19 anos em 1903, estava estudando em uma escola militar, que ele não gostava e, sentado em um banco da escola, passa seu professor, pergunta o que ele está lendo e ao ver o livro de poemas de Rilke, conta que Rilke tinha sido aluno daquela escola e não gostava de estar lá, queria ser poeta. O professor fica contente de saber que o ex-aluno encontrou seu caminho. Assim, Kappus escreve ao poeta e pede conselhos. Procura algo, uma determinação, uma palavra de alguém que já deu um passo a mais em seu próprio destino para que ele encontre o seu, também na poesia. E Rilke lhe responde. Logo na primeira carta – trocarão várias durante cinco anos – escreve uma das partes mais bonitas. Nela, em meus 15 anos, sentia que Rilke também escrevia para mim, me dizendo para ter paciência, como a árvore que espera sua seiva amadurecer. "O verão há de vir, mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem à frente a eternidade. Aprendo todos os dias, à custa de sofrimentos que abençôo: paciência é tudo".
Assim, fui a Corumbá para dizer aos jovens que tivessem paciência, e para escutá-los. E escutá-los dizer do que mais precisam: serem escutados. E que a paciência também esteja com o outro, adulto, tão apressado com tudo nesses tempos tão curtos. De idéias, de tempo, de esperanças.
E assim deixei Corumbá já com um convite para voltar em alguns meses. Mesmo mal vestida, tudo correu perfeitamente bem.
Andréa Brunetto/ Campo Grande, 11 de setembro de 2011
Esperava um vôo tranqüilo – sempre esperamos – e não foi nada fácil enfrentar uma ventania insuportável em um avião pequeno. Fui preparada para 45 graus e fez 17, tinha na mala vestidos bonitos, mas só pude andar com a única calça jeans que levei. E a camiseta de manga comprida que tive que comprar, e também o xale boliviano que comprei na porta do hotel. E vestida assim para a conferência de abertura sobre a ética e a violência na juventude, falei para quase trezentos adolescentes.
E falando sobre a violência, disse aos jovens que menos violento é quem sabe quem é e o que quer para sua vida. Foi a forma, sem teorizar lacanianamente, que encontrei de dizer que o entusiasmo virá da relação com o desejo que os habita. E conclui com Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke - ando lendo e escrevendo sobre Rilke nestes meses. Preparando-me para falar para tantos jovens, muitos deles com medidas sócio-educativas, tendo já transgressões à lei em sua história, passei dias e dias sem uma idéia do que iria falar: o que dizer que pudesse tocá-los sem ser um discurso moralista, superegóico, coisa tão freqüente? Como encontrar uma saída para esse impasse? Achei quando reencontrei a adolescente que eu fui, que lia um pedacinho das cartas de Rilke a Franz Kappus todos os dias.
Para os que não sabem a história dessas cartas, conto-a, para os demais, relembro-a: Franz Kappus tinha 19 anos em 1903, estava estudando em uma escola militar, que ele não gostava e, sentado em um banco da escola, passa seu professor, pergunta o que ele está lendo e ao ver o livro de poemas de Rilke, conta que Rilke tinha sido aluno daquela escola e não gostava de estar lá, queria ser poeta. O professor fica contente de saber que o ex-aluno encontrou seu caminho. Assim, Kappus escreve ao poeta e pede conselhos. Procura algo, uma determinação, uma palavra de alguém que já deu um passo a mais em seu próprio destino para que ele encontre o seu, também na poesia. E Rilke lhe responde. Logo na primeira carta – trocarão várias durante cinco anos – escreve uma das partes mais bonitas. Nela, em meus 15 anos, sentia que Rilke também escrevia para mim, me dizendo para ter paciência, como a árvore que espera sua seiva amadurecer. "O verão há de vir, mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem à frente a eternidade. Aprendo todos os dias, à custa de sofrimentos que abençôo: paciência é tudo".
Assim, fui a Corumbá para dizer aos jovens que tivessem paciência, e para escutá-los. E escutá-los dizer do que mais precisam: serem escutados. E que a paciência também esteja com o outro, adulto, tão apressado com tudo nesses tempos tão curtos. De idéias, de tempo, de esperanças.
E assim deixei Corumbá já com um convite para voltar em alguns meses. Mesmo mal vestida, tudo correu perfeitamente bem.
Andréa Brunetto/ Campo Grande, 11 de setembro de 2011
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Mais um pedacinho do livro....
Os personagens de Pamuk são Ulisses modernos que vivem errantes no estrangeiro até o retorno a sua Ítaca natal. O autor ambienta suas histórias no momento de retorno à pátria. Por exemplo Ka: em solo pátrio reencontra a inspiração, mas é tido como um estrangeiro por seus próprios compatriotas.
Ulisses, ou Odisseu em grego, aparece no final da Ilíada, mas é na Odisséia que é o herói principal. Entre a queda de Tróia e o retorno para Ítaca, sua pátria, passou vinte anos errante e viveu muitas aventuras. Escapando de um naufrágio, é salvo por Nausicaa, filha de Alcino, rei dos feácios. Andando pela cidade, a deusa Palas Atena, disfarçada de uma donzela diz-lhe como são os nativos do lugar: “Os moradores daqui não recebem nenhum forasteiro de boa mente, nem dão acolhida aos que vêm de fora”.
Ela pede para ele lembrar que é um estrangeiro, que ande sem olhar para nada, sem perguntar nada.
Ulisses, ou Odisseu em grego, aparece no final da Ilíada, mas é na Odisséia que é o herói principal. Entre a queda de Tróia e o retorno para Ítaca, sua pátria, passou vinte anos errante e viveu muitas aventuras. Escapando de um naufrágio, é salvo por Nausicaa, filha de Alcino, rei dos feácios. Andando pela cidade, a deusa Palas Atena, disfarçada de uma donzela diz-lhe como são os nativos do lugar: “Os moradores daqui não recebem nenhum forasteiro de boa mente, nem dão acolhida aos que vêm de fora”.
Ela pede para ele lembrar que é um estrangeiro, que ande sem olhar para nada, sem perguntar nada.
domingo, 26 de junho de 2011
Sobre amores e exílios: na fronteira da psicanálise com a literatura
Terminei há 5 minutos de escrever esse livro que parecia um trabalho de Sísifo. Terminei, terminei. Nem acredito, grande alegria.
O livro "As cidades de Freud" que Alba me sugeriu comprar me ajudou bastante. E o seminário que dei em Fortaleza semana passada foi fundamental. Falando para meus colegas da conferência de Freud intitulada "A terapia analítica" todo o final do último capítulo e a conclusão me veio à cabeça. No retorno para Campo Grande voltei com o livro organizado mentalmente. Agora terminei de pôr o ponto final.
É "só" procurar uma editora. Se alguma aceitar.....
Mas o importante foi ter terminado, concluído essas frases que insistiam em vir à tona e que não conseguia organizá-las.
Alegria e alívio.
Freud diz em uma carta que estar alegre é tudo.
Escuto esses fogos nesse domingo de tarde, deve ser de um jogo de futebol. Um pouco deles são meus (brincadeira, mas poderiam ser).
O livro "As cidades de Freud" que Alba me sugeriu comprar me ajudou bastante. E o seminário que dei em Fortaleza semana passada foi fundamental. Falando para meus colegas da conferência de Freud intitulada "A terapia analítica" todo o final do último capítulo e a conclusão me veio à cabeça. No retorno para Campo Grande voltei com o livro organizado mentalmente. Agora terminei de pôr o ponto final.
É "só" procurar uma editora. Se alguma aceitar.....
Mas o importante foi ter terminado, concluído essas frases que insistiam em vir à tona e que não conseguia organizá-las.
Alegria e alívio.
Freud diz em uma carta que estar alegre é tudo.
Escuto esses fogos nesse domingo de tarde, deve ser de um jogo de futebol. Um pouco deles são meus (brincadeira, mas poderiam ser).
terça-feira, 7 de junho de 2011
Exílio de um amor, de um país, de uma vida
“Ó casa, ó pátria nossa! Que possamos não conhecer
nunca o exílio nem arrastar na miséria uma penosa existência,
de todas as dores a mais digna de piedade! Ah! Que a morte, sim,
a morte nos golpeie antes de vermos tal dia.
Não existe maior desgraça do que a de sermos
privados da terra natal.
Medéia, Eurípedes
As personagens de Salman Rushdie, qualquer obra que escolhamos para debater, são sempre homens “sem lar, em busca de um lugar no mundo”. Poderíamos encontrar nisso um desterro de seu autor? Não podemos interpretar a obra pela vida do autor. Só ele próprio tem o direito de fazê-lo. E o faz no início de seu livro Pátrias Imaginárias: “Talvez seja verdade que os escritores na minha posição, exilados, emigrantes ou expatriados vivam obcecados por um sentimento de perda, uma necessidade de recuperar o passado, de olhar para trás, mesmo correndo o risco de se transformarem em estátuas de sal”.
Comentarei o romance O chão que ela pisa. Nele, o personagem faz o caminho do oriente para o ocidente, mas também é um deslocado. “Não passa um dia em que eu não pense na Índia, que eu não relembre cenas da minha infância”.
Toda a trama do romance é tecida em analogia com a lenda do Orfeu. Ormus Cama, o cantor das harmonias, é um Orfeu à procura de sua Eurídice. Ele perde sua amada Vina durante um terremoto. Nele, ela submerge às profundezas da terra. E a partir de então, sem sua Eurídice, o Ocidente é insuportável para viver. Rushdie usa uma fala de Medéia, na peça de Eurípedes – citada na epígrafe desse capítulo – para mostrar ao leitor como é preferível a morte a viver no exílio. E nessa obra se misturam os exílios: de viver sem o objeto amado sem a pátria e sem a vida. Enfim, viver sem o objeto amado é a morte.
Ao mesmo tempo em que Ormus é Orfeu, procurando sua Vina/Eurídice, é alguém que submergiu nessa “América-Orpheum”, “que olha para ele e o deixa para trás, para morrer”. Vivendo nessa “boa vida de green card” é uma Eurídice que saiu de sua terra e queria ser amado pelos gringos. Mas isso não lhe adiantou muito: “Transformei-me num estrangeiro. Apesar de todas as minhas vantagens e privilégios de nascimento, de toda a minha aptidão profissional, em virtude de haver abandonado meu lugar de origem transformei-me em membro honorário das hordas de desprotegidos da Terra”.
O narrador de O chão que ela pisa se identifica e se funde ao personagem Ormus: os dois anseiam pela ressurreição, pela volta da amada do mundo dos mortos. Vina, a Eurídice de Ormus, engolida pela primeira vez por uma força sísmica: “essa força sísmica também atende pelo nome de amor”. Nesse terremoto, força sísmica, chão do romance de Salman Rushdie, o amor e a morte estão fundidos, como duas faces de uma mesma moeda. E as duas portam a face do exílio de sua Índia amada, a terra da infância.
Um homem que mantêm a memória do amor
Sofia, personagem de O passado, romance de Alan Pauls, comanda o grupo das mulheres que amam demais – e Alan Pauls mostra, a partir dela, que a religião das mulheres é o amor – e empreende sua tentativa de fazer uma memória nos homens. Com Orfeu é o contrário: ele mantém a memória e a desmemoriada é ela, Eurídice, que habita o “mundo do declínio”. Nesse mito, a morte e o apagamento do amor são o mesmo. Por isso, creio, Orfeu é o sonho de toda mulher: ele não esquece sua amada, não a substitui. Ela lhe é única. Depois que a perdeu, não quis nenhuma outra e suportou ser morto, desmembrado por todas as outras mulheres, que vieram depois dela e que ele não as quis. Nenhuma era ela: “Pisa de leve essa estrada sombria, desce ao fundo devagar, que vou te seguir daqui a um dia, e não descanso até te encontrar.”
Diferente de Don Juan, que procura A Mulher em todas as mulheres. Ainda que seja uma a uma, apenas durante um tempo cada uma é única, mas só durante um curto tempo, pois nenhuma é A Mulher. E depois de curto tempo, em que a imagem de felicidade foi desfeita – um tempo feliz é sempre curto para o amante que fica a esperar que o outro volte - D. Juan retorna suas buscas. Orfeu a encontrou em Euridice. Seu esforço de trazer à vida essa mulher o coloca como um ser para a morte e nos mostra que um dos nomes da Mulher é a morte.
O amor é elogio ao ser
Eurídice, à medida que desliza cada vez mais fundo no abismo, esquece de Orfeu, relembra Rushdie em seu romance. E traz os Sonetos a Orfeu, de Rainer Maria Rilke para nos mostrar isso. “..ao penetrar o reino do nada, rapidamente se esquece da luz. A escuridão mancha seus olhos, seu coração. Quando Hermes fala de Orfeu, essa Eurídice responde, terrível: Quem?”
Matar é um aspecto de nossa dor errante, escreve Rilke em um de seus Sonetos a Orfeu. Neles, Orfeu é a memória, é uma vida que anseia pela mudança, pela transformação, mas que sabe que todo tempo feliz é “filho ou neto da separação” e que toda mudança acarreta perda.
Orfeu é aquele que sabe da condição do não-ser. É esse seu “íntimo poder”. Eurídice já se foi, apagou-se, perdeu a memória. E o que é o amor sem memória? Resto obscuro, que perdeu suas marcas pelo caminho. Um Nada. Assim, resta a Orfeu dizer do indizível: “Mas dizer o indizível só é possível ao cantor, num nível que só aos Deuses é audível”. Aqui tenho que discordar de Rilke: também o poeta diz desse indizível. E no caso dele próprio, beirando a perfeição. E assim, ele próprio, Rilke/poeta/Orfeu, traça suas lembranças de um amor: uma primavera na Rússia, uma viagem do passado, da qual nunca esqueceu. Ele não diz o nome, mas sabemos bem quem foi sua Eurídice.
No amor de Orfeu por Eurídice, mesmo nesse amor de um homem para quem ela é única, não uma mulher entre outras, mas A Mulher, tudo termina mal. Sem sua amada, que habita o esquecimento – morte para o amor - “tudo é distância. Não se fecha a circunferência”.
Rilke/Rushdie, Orfeus a manterem a memória de um desterrado amor do passado, conduzem suas obras para o exílio que é viver sem a infância: lembrar todos os dias da infância na Índia, no caso de Rushdie. E Rilke escreve em seus sonetos: “Somos mesmo de fraqueza aterradora, como o destino quer nos fazer crer? Será que a infância, intensa e promissora, mais tarde, na raiz, vai fenecer?”
E termino com outro poeta, esse brasileiro, que também se encantou com o mito de Orfeu, e escreveu sua versão dele, Vinícius de Moraes: “Ah, minha Eurídice. Meu verso, meu silêncio, minha música. Nunca fujas de mim. Sem ti, sou nada. Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada. Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível! A existência sem ti é como olhar para um relógio. Só com o ponteiro dos minutos. Tu és a hora, és o que dá sentido. E direção ao tempo, minha amiga mais querida!”
nunca o exílio nem arrastar na miséria uma penosa existência,
de todas as dores a mais digna de piedade! Ah! Que a morte, sim,
a morte nos golpeie antes de vermos tal dia.
Não existe maior desgraça do que a de sermos
privados da terra natal.
Medéia, Eurípedes
As personagens de Salman Rushdie, qualquer obra que escolhamos para debater, são sempre homens “sem lar, em busca de um lugar no mundo”. Poderíamos encontrar nisso um desterro de seu autor? Não podemos interpretar a obra pela vida do autor. Só ele próprio tem o direito de fazê-lo. E o faz no início de seu livro Pátrias Imaginárias: “Talvez seja verdade que os escritores na minha posição, exilados, emigrantes ou expatriados vivam obcecados por um sentimento de perda, uma necessidade de recuperar o passado, de olhar para trás, mesmo correndo o risco de se transformarem em estátuas de sal”.
Comentarei o romance O chão que ela pisa. Nele, o personagem faz o caminho do oriente para o ocidente, mas também é um deslocado. “Não passa um dia em que eu não pense na Índia, que eu não relembre cenas da minha infância”.
Toda a trama do romance é tecida em analogia com a lenda do Orfeu. Ormus Cama, o cantor das harmonias, é um Orfeu à procura de sua Eurídice. Ele perde sua amada Vina durante um terremoto. Nele, ela submerge às profundezas da terra. E a partir de então, sem sua Eurídice, o Ocidente é insuportável para viver. Rushdie usa uma fala de Medéia, na peça de Eurípedes – citada na epígrafe desse capítulo – para mostrar ao leitor como é preferível a morte a viver no exílio. E nessa obra se misturam os exílios: de viver sem o objeto amado sem a pátria e sem a vida. Enfim, viver sem o objeto amado é a morte.
Ao mesmo tempo em que Ormus é Orfeu, procurando sua Vina/Eurídice, é alguém que submergiu nessa “América-Orpheum”, “que olha para ele e o deixa para trás, para morrer”. Vivendo nessa “boa vida de green card” é uma Eurídice que saiu de sua terra e queria ser amado pelos gringos. Mas isso não lhe adiantou muito: “Transformei-me num estrangeiro. Apesar de todas as minhas vantagens e privilégios de nascimento, de toda a minha aptidão profissional, em virtude de haver abandonado meu lugar de origem transformei-me em membro honorário das hordas de desprotegidos da Terra”.
O narrador de O chão que ela pisa se identifica e se funde ao personagem Ormus: os dois anseiam pela ressurreição, pela volta da amada do mundo dos mortos. Vina, a Eurídice de Ormus, engolida pela primeira vez por uma força sísmica: “essa força sísmica também atende pelo nome de amor”. Nesse terremoto, força sísmica, chão do romance de Salman Rushdie, o amor e a morte estão fundidos, como duas faces de uma mesma moeda. E as duas portam a face do exílio de sua Índia amada, a terra da infância.
Um homem que mantêm a memória do amor
Sofia, personagem de O passado, romance de Alan Pauls, comanda o grupo das mulheres que amam demais – e Alan Pauls mostra, a partir dela, que a religião das mulheres é o amor – e empreende sua tentativa de fazer uma memória nos homens. Com Orfeu é o contrário: ele mantém a memória e a desmemoriada é ela, Eurídice, que habita o “mundo do declínio”. Nesse mito, a morte e o apagamento do amor são o mesmo. Por isso, creio, Orfeu é o sonho de toda mulher: ele não esquece sua amada, não a substitui. Ela lhe é única. Depois que a perdeu, não quis nenhuma outra e suportou ser morto, desmembrado por todas as outras mulheres, que vieram depois dela e que ele não as quis. Nenhuma era ela: “Pisa de leve essa estrada sombria, desce ao fundo devagar, que vou te seguir daqui a um dia, e não descanso até te encontrar.”
Diferente de Don Juan, que procura A Mulher em todas as mulheres. Ainda que seja uma a uma, apenas durante um tempo cada uma é única, mas só durante um curto tempo, pois nenhuma é A Mulher. E depois de curto tempo, em que a imagem de felicidade foi desfeita – um tempo feliz é sempre curto para o amante que fica a esperar que o outro volte - D. Juan retorna suas buscas. Orfeu a encontrou em Euridice. Seu esforço de trazer à vida essa mulher o coloca como um ser para a morte e nos mostra que um dos nomes da Mulher é a morte.
O amor é elogio ao ser
Eurídice, à medida que desliza cada vez mais fundo no abismo, esquece de Orfeu, relembra Rushdie em seu romance. E traz os Sonetos a Orfeu, de Rainer Maria Rilke para nos mostrar isso. “..ao penetrar o reino do nada, rapidamente se esquece da luz. A escuridão mancha seus olhos, seu coração. Quando Hermes fala de Orfeu, essa Eurídice responde, terrível: Quem?”
Matar é um aspecto de nossa dor errante, escreve Rilke em um de seus Sonetos a Orfeu. Neles, Orfeu é a memória, é uma vida que anseia pela mudança, pela transformação, mas que sabe que todo tempo feliz é “filho ou neto da separação” e que toda mudança acarreta perda.
Orfeu é aquele que sabe da condição do não-ser. É esse seu “íntimo poder”. Eurídice já se foi, apagou-se, perdeu a memória. E o que é o amor sem memória? Resto obscuro, que perdeu suas marcas pelo caminho. Um Nada. Assim, resta a Orfeu dizer do indizível: “Mas dizer o indizível só é possível ao cantor, num nível que só aos Deuses é audível”. Aqui tenho que discordar de Rilke: também o poeta diz desse indizível. E no caso dele próprio, beirando a perfeição. E assim, ele próprio, Rilke/poeta/Orfeu, traça suas lembranças de um amor: uma primavera na Rússia, uma viagem do passado, da qual nunca esqueceu. Ele não diz o nome, mas sabemos bem quem foi sua Eurídice.
No amor de Orfeu por Eurídice, mesmo nesse amor de um homem para quem ela é única, não uma mulher entre outras, mas A Mulher, tudo termina mal. Sem sua amada, que habita o esquecimento – morte para o amor - “tudo é distância. Não se fecha a circunferência”.
Rilke/Rushdie, Orfeus a manterem a memória de um desterrado amor do passado, conduzem suas obras para o exílio que é viver sem a infância: lembrar todos os dias da infância na Índia, no caso de Rushdie. E Rilke escreve em seus sonetos: “Somos mesmo de fraqueza aterradora, como o destino quer nos fazer crer? Será que a infância, intensa e promissora, mais tarde, na raiz, vai fenecer?”
E termino com outro poeta, esse brasileiro, que também se encantou com o mito de Orfeu, e escreveu sua versão dele, Vinícius de Moraes: “Ah, minha Eurídice. Meu verso, meu silêncio, minha música. Nunca fujas de mim. Sem ti, sou nada. Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada. Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível! A existência sem ti é como olhar para um relógio. Só com o ponteiro dos minutos. Tu és a hora, és o que dá sentido. E direção ao tempo, minha amiga mais querida!”
domingo, 29 de maio de 2011
Variações Freudianas I, o sintoma
Domingo assisti a peça de Antonio Quinet, Variações Freudianas. Nela, um homem e uma mulher expõem seus dramas. O dela, uma cena dos quinze anos, que repete outra, infantil, fundamental, em que a palavra "sai” é marcada. E presa a essa palavra, a mulher está sempre deslocada, de fora, sem consistência. Ele, o homem, dividido entre seu desejo e o vaticínio paterno: pague o que eu não paguei. Pagar ou não pagar, eis a questão é a duvida que diz seu sintoma, mas também define seu ser. Buscando uma resposta para a dúvida e para sua obsessão com ratos, chega a Viena e procura Freud.
Para os dois, o homem e a mulher, os sintomas fazem sofrer, mas também revelam um gozo, e com ele, no inconsciente, são felizes. Essa "felicidade" aponta para outra cena, a do inconsciente. Outra cena é, em alemão, Schauplatz, a praça do olhar, nos lembra o autor.
Ela, encenando nessa praça, fantasia com Marcelo Mastroianni - e em êxtase repete Marcelo, Marcelo, Marcelo - e aparece outra cena, na tela atrás do palco: Mastroianni, lindo como nunca, contemplando aquele exagero de mulher que é Anita Ekberg, em La Dolce Vitta. É a histérica, de fora, que olha Marcelo, que olha Anita, que está em êxtase por estar na Itália. Aliás, como Stendhal, também referido na peça. E, podemos dizer, também como Freud ficou quando lá estava.
E eis que em determinado momento, Antonio Quinet chega perto do palco, se aproxima mais e entra na cena. Por que vocês minhas colegas psicanalistas cariocas não me preveniram que isso aconteceria? Tomei um susto. E Quinet, diretor-autor-ator, intepreta Dr Quinet, o psicanalista. E além de tudo, é uma voz, que nos vem de algum lugar, recitando Freud e Lacan.
E temos de dividir a atenção com o homem, a mulher e essa outra cena, pois ele anda pelo palco, dá um seminário, escreve os matemas lacanianos no quadro, atende o homem e a mulher e corta a sessão: ficamos por aqui.
Mas queria expressar minha preferência: dentre todos os atores que aparecem para deleite de nosso olhar, o melhor é Ilya São Paulo. De longe melhor que Mastroianni, que também está lá, em outra cena. Mas mesmo com Mastroianni presente, ele consegue fazer-nos desviar o olhar de Marcelo (coisa dificil, bem difícil), pois é um ator tão espetacular interpretando o Homem dos Ratos, que só temos olhar para ele. Ele dá seu corpo e seu ser para ser, por uma hora o homem obsedado pelos ratos. E pelo pai.
Seus olhos e seu rosto mostram a agonia de um sujeito perseguido por uma dúvida atroz.
A peça, mais do que ser uma peça da política da psicanálise, é uma apologia do olhar, em que alguém sempre olha para alguém que olha para mais além. Outro, outra, outra cena, outro lugar, outra fantasia, que desvela e vela um outro tempo. É isso a peça, mas não só isso, pois também é Outra coisa.
Rio de Janeiro, 23 de maio de 2011
Para os dois, o homem e a mulher, os sintomas fazem sofrer, mas também revelam um gozo, e com ele, no inconsciente, são felizes. Essa "felicidade" aponta para outra cena, a do inconsciente. Outra cena é, em alemão, Schauplatz, a praça do olhar, nos lembra o autor.
Ela, encenando nessa praça, fantasia com Marcelo Mastroianni - e em êxtase repete Marcelo, Marcelo, Marcelo - e aparece outra cena, na tela atrás do palco: Mastroianni, lindo como nunca, contemplando aquele exagero de mulher que é Anita Ekberg, em La Dolce Vitta. É a histérica, de fora, que olha Marcelo, que olha Anita, que está em êxtase por estar na Itália. Aliás, como Stendhal, também referido na peça. E, podemos dizer, também como Freud ficou quando lá estava.
E eis que em determinado momento, Antonio Quinet chega perto do palco, se aproxima mais e entra na cena. Por que vocês minhas colegas psicanalistas cariocas não me preveniram que isso aconteceria? Tomei um susto. E Quinet, diretor-autor-ator, intepreta Dr Quinet, o psicanalista. E além de tudo, é uma voz, que nos vem de algum lugar, recitando Freud e Lacan.
E temos de dividir a atenção com o homem, a mulher e essa outra cena, pois ele anda pelo palco, dá um seminário, escreve os matemas lacanianos no quadro, atende o homem e a mulher e corta a sessão: ficamos por aqui.
Mas queria expressar minha preferência: dentre todos os atores que aparecem para deleite de nosso olhar, o melhor é Ilya São Paulo. De longe melhor que Mastroianni, que também está lá, em outra cena. Mas mesmo com Mastroianni presente, ele consegue fazer-nos desviar o olhar de Marcelo (coisa dificil, bem difícil), pois é um ator tão espetacular interpretando o Homem dos Ratos, que só temos olhar para ele. Ele dá seu corpo e seu ser para ser, por uma hora o homem obsedado pelos ratos. E pelo pai.
Seus olhos e seu rosto mostram a agonia de um sujeito perseguido por uma dúvida atroz.
A peça, mais do que ser uma peça da política da psicanálise, é uma apologia do olhar, em que alguém sempre olha para alguém que olha para mais além. Outro, outra, outra cena, outro lugar, outra fantasia, que desvela e vela um outro tempo. É isso a peça, mas não só isso, pois também é Outra coisa.
Rio de Janeiro, 23 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
Uma Polônia surpreendente
Cheguei a Varsóvia ao meio-dia de uma terça-feira de sol. E então, pela primeira vez, a vi tal uma Fênix, renascida das cinzas, com sol, calor e sob o signo de uma cordialidade impressionante de seu povo. Como já disse anteriormente, as pessoas fazem uma cidade - creio que o contrário não acontece - e os poloneses é que fazem de Varsóvia o que ela é hoje.
Andei com minhas amigas pelas ruas novas, reconstruídas, e fomos ao principal a ser visto: o gueto. No lugar onde foi o gueto há um memorial e está sendo construído um museu para contar a história do holocausto. Passamos um dia e meio e partimos.
A língua é dificílima - embora depois de uma semana eu já estivesse falando algumas frases. Só algumas, poucas, minguadas - mas tem uma sonoridade bonita, musical.
Mas foi em Cracóvia que o amor pela Polônia, sua gente, se intensificou. A piada que Freud nos conta pode ser entendida perfeitamente após se conhecer a cidade: um sujeito que diz que vai a determinado lugar e diz o nome, mas o outro pensa que ele vai a Cracóvia, mas está escondendo isso. Cracóvia é uma cidade para se ir. Muitas vezes, de novo, sempre. E não estou fazendo como o sujeito da piada que recalca a cidade para manter esse prazer só para ele. Eu digo abertamente: vão, vão, vão.
Pequena, antiguíssima, intocada pelos bombardeios, com construções lindas, muralhas medievais e um povo cordial, simpático, gentil. E muito bonito, também. Quando eu cometia meus sacrilégios de tentar falar polonês, riam, riam, riam, achavam graça e ficavam muito contentes da tentativa que eu fazia de falar o idioma. E me ajudavam. Sempre.
Todos são um pouco como João Paulo II, diz minha amiga Alba Abreu. Aliás, assistimos missa no sábado de aleluia na igreja central da praça, onde Carol Voitjla, o antigo papa, rezava suas missas. Ele é a imagem onipresente pela cidade toda.
O polonês é fervoroso, filas e filas para se confessarem, igrejas lotadas. Nem na Itália existe isso. Acho que em nenhum lugar...
Voltando para casa, estou relendo o livro Dos Ciudades, de Adam Zagajewski, autor ucraniano, imigrante que desde criança, viveu na Polônia, mais precisamente, na Cracóvia. Entre ´Liev, sua cidade natal, e Gliwice, primeira cidade polonesa em que viveu e entre a Cracóvia, em que passou anos, e a Paris na qual se exilou, fugindo do regime comunista, escreveu este livro. E depois de anos, retorna a Cracóvia e escreve sobre ela. Cidade explendorosa, mas provinciana, pequena e grande, ao mesmo tempo. Coloco abaixo apenas um trecho para encerrar essa minha declaração de amor pela Polônia, seu povo, sua lingua. Queria tanto ter determinação para aprender essa lingua.....
"Sí, en Cracovia, más de una cosa me pareció pequeña y provinciana, pobre y dejada de la mano de Dios. La sala del teatro Stary, donde había experimentado las vivencias teatrales más intensas, de pronto se volvió pequeña. En mis recuerdos era enorme, mientras que en realidad es diminuta.
Me paseé por Cracovia, comprobando lo mucho que había menguado. Pero, andando el tiempo, en el momento menos esperado, redescubrí mi antigua admiracíon por aquella ciudad regia. Y deambulaba por Cracovia, acusando a un tiempo su pequeñez y su grandeza, su provincianismo y su esplendor, sus miserias y sus tesoros, su vulgaridad y su excepcionalidad. Sólo de una cosa no había duda: los árboles de Planty habían crecido. Mi admiracíon estaba impregnada de escepticismo, pero los árboles se habían vuelto todavía más majestuosos, más reales." Dos Ciudades, Adam Zagajewski
Andei com minhas amigas pelas ruas novas, reconstruídas, e fomos ao principal a ser visto: o gueto. No lugar onde foi o gueto há um memorial e está sendo construído um museu para contar a história do holocausto. Passamos um dia e meio e partimos.
A língua é dificílima - embora depois de uma semana eu já estivesse falando algumas frases. Só algumas, poucas, minguadas - mas tem uma sonoridade bonita, musical.
Mas foi em Cracóvia que o amor pela Polônia, sua gente, se intensificou. A piada que Freud nos conta pode ser entendida perfeitamente após se conhecer a cidade: um sujeito que diz que vai a determinado lugar e diz o nome, mas o outro pensa que ele vai a Cracóvia, mas está escondendo isso. Cracóvia é uma cidade para se ir. Muitas vezes, de novo, sempre. E não estou fazendo como o sujeito da piada que recalca a cidade para manter esse prazer só para ele. Eu digo abertamente: vão, vão, vão.
Pequena, antiguíssima, intocada pelos bombardeios, com construções lindas, muralhas medievais e um povo cordial, simpático, gentil. E muito bonito, também. Quando eu cometia meus sacrilégios de tentar falar polonês, riam, riam, riam, achavam graça e ficavam muito contentes da tentativa que eu fazia de falar o idioma. E me ajudavam. Sempre.
Todos são um pouco como João Paulo II, diz minha amiga Alba Abreu. Aliás, assistimos missa no sábado de aleluia na igreja central da praça, onde Carol Voitjla, o antigo papa, rezava suas missas. Ele é a imagem onipresente pela cidade toda.
O polonês é fervoroso, filas e filas para se confessarem, igrejas lotadas. Nem na Itália existe isso. Acho que em nenhum lugar...
Voltando para casa, estou relendo o livro Dos Ciudades, de Adam Zagajewski, autor ucraniano, imigrante que desde criança, viveu na Polônia, mais precisamente, na Cracóvia. Entre ´Liev, sua cidade natal, e Gliwice, primeira cidade polonesa em que viveu e entre a Cracóvia, em que passou anos, e a Paris na qual se exilou, fugindo do regime comunista, escreveu este livro. E depois de anos, retorna a Cracóvia e escreve sobre ela. Cidade explendorosa, mas provinciana, pequena e grande, ao mesmo tempo. Coloco abaixo apenas um trecho para encerrar essa minha declaração de amor pela Polônia, seu povo, sua lingua. Queria tanto ter determinação para aprender essa lingua.....
Castelo de Wawel, Cracóvia - Foto de Alba Abreu Lima
Me paseé por Cracovia, comprobando lo mucho que había menguado. Pero, andando el tiempo, en el momento menos esperado, redescubrí mi antigua admiracíon por aquella ciudad regia. Y deambulaba por Cracovia, acusando a un tiempo su pequeñez y su grandeza, su provincianismo y su esplendor, sus miserias y sus tesoros, su vulgaridad y su excepcionalidad. Sólo de una cosa no había duda: los árboles de Planty habían crecido. Mi admiracíon estaba impregnada de escepticismo, pero los árboles se habían vuelto todavía más majestuosos, más reales." Dos Ciudades, Adam Zagajewski
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