Ontem, lançamento de meu livro aqui em Campo Grande. Estava muito feliz. Publicar um livro é uma realização tão grande. É um alívio, é como se muitas coisas que eu teria que dizer, não preciso mais. Estão aí, no escrito.
Com Márcia, Priscila, Marta, Neiba, Fabiana e minha irmã Maristela
Faz alguns dias que Nelson Mandela está internado. Ontem deu uma melhorada. Eu acho que logo logo ele se vai, seja agora ou nos próximos anos. Melhor que seja nos próximos anos. Já tem 92 anos. E vamos perder este homem que é a maior autoridade e o maior respeito que nos ficou do Século XX. Nelson Mandela é um exemplo da capacidade que o ser humano tem de mudar, melhorar, perseverar, resistir, conquistar. Nelson Mandela é o melhor do humano. Que, então, ele viva vários anos ainda...
"Todos os amores são infelizes porque são feitos de tempo, todos são o nó frágil das criaturas temporais que sabem que vão morrer; em todos os amores, até nos mais trágicos, há um instante de felicidade..." E assim Octávio Paz continua falando sobre o amor em um dos livros mais lindos que já li. Queria escrever sobre o amor assim, como ele faz em A dupla chama, mas peguei outro viés: os desencontros, o exílio de viver sem o objeto amado. Quem não ama é sem terra pátria, sem chão.
Hoje de manha dei uma entrevista na Rádio FM 94 e uma das perguntas que me fizeram foi: quem ama perdoa uma traição? Minha resposta: que só dá para responder na singularidade de um sujeito, cada um ama de um jeito.
Qual seria o instante de felicidade que anularia a fragilidade do amor? Um beijo na boca? um buquê de rosas vermelhas? escutar o outro, compartilhar a solidão? aliviar a carga de viver do outro? Um sorriso pleno de esperanças? desejo? Cada um escolhe o que melhor lhe aprouver.
Eu e Sandra Mara, que junto com Socorro, da Livraria Acadêmica, organizaram um lançamento lindo. Tinha até meus livros pendurados pelas paredes, como ao fundo. Obrigada.
Osvaldo, coordenador do FCL-Fortaleza, ontem à noite, na Livraria Acadêmica.
Me disse vai embora, eu não fui Você não dá valor ao que possui Enquanto sofre, o coração intui Que ao mesmo tempo que magoa o tempo O tempo flui E assim o sangue corre em cada veia O vento brinca com os grãos de areia Poetas cortejando a branca luz E ao mesmo tempo que machuca o tempo me passeia
Quem sabe o que se dá em mim? Quem sabe o que será de nós? O tempo que antecipa o fim Também desata os nós Quem sabe soletrar adeus Sem lágrimas, nenhuma dor Os pássaros atrás do sol As dunas de poeira O céu de anil no pólo sul A dinamite no paiol Não há limite no anormal É que nem sempre o amor É tão azul
A música preenche sua falta Motivo dessa solidão sem fim Se alinham pontos negros de nós dois E arriscam uma fuga contra o tempo O tempo salta
Quem já assistiu "As sessões"? Não sei se choro ou dou risada. Helen Hurt é uma terapeuta sexual, que trepa com os pacientes, com hora marcada. Não é uma puta não, não confundam. Estou debochando. Ela tem clientes que lhe são enviados por uma psicoterapeuta, homens que não conseguem transar por alguma incapacidade. Marc é um homem que nunca transou com uma mulher, teve poliomelite aos 6 anos de idade e ficou sem conseguir mover nada além da cabeça e do pênis. E a contrata para conseguir transar. No início, ela é de um frieza horrível: agora vou fazer isso, agora vou passar minha mão em tal lugar, agora seu negócio está posicionado. Eu nem sei como ele consegue ter ereção com tanta ciência. Ele só consegue ir para a cama com essa mulher porque o padre o liberou. Disse 'vá em frente'. As cenas em que ele conta tudo para o padre são de chorar de rir. As coisas não estão dando certo, ele fica contrariado, pois cada vez tem uma ejaculação precoce. O padre dá um conselho maravilhoso: esqueça essa baboseira psicológica e fale, você é um poeta. E ele é poeta dos bons. Ele escreve para ela: "Deixe-me tocar-te com minhas palavras, porque minhas mãos jazem caídas como duas luvas vazias; deixe minhas palavras acariciarem seus cabelos, escorrerem por suas costas, fazerem cócegas pela sua barriga, pois minhas mãos, leves, mas inertes, ignoram minhas vontades e se recusam a realizar meus desejos mais silenciosos. Deixe minhas palavras entrarem na sua mente, levando tochas, admita esse peito aberto em seu corpo, para que possa te acariciar gentilmente aí dentro."
E quando um homem começa a falar com uma mulher, e de sentimentos, fazendo poemas e na cama, a coisa deixa de ser simples. E o que era uma simples tentativa de fazer uma relação sexual ser levada até o fim, se complica mais. E o amor surge.
Rainer Maria Rilke
escreveu isso em seus Sonetos a Orfeu.
Depois de passar dez anos esperando escrever algo que não sabia o que era, mas
tomado por uma ideia de algo importantíssimo que teria de ser escrito, e sem conseguir
escrever uma linha, saíram esses sonetos. Li os comentários de um crítico
literário e ele escreveu que Rilke vivia um tempo de aridez criativa. Podemos
chamar de aridez essa impressão que um escritor sente de que tem algo a
escrever, que se prepara para isso, que está submetido a uma ideia que não sabe
bem o que é, que escreve outra coisa e sabe que não é isso¿ É como uma
gestação, vai se encaminhando semana a semana em direção à obra. Uma gestação
literária que demorou dez anos para parir. Que angústia deve ter sentido!
Paciência é tudo, o conselho que ele deu ao jovem poeta se aplicou a ele
também.
E depois escreve esses que
são os mais belos sonetos que já li. Orfeu, o que vive à procura da amada, que
faz por ela todos os esforços e morre em seu fascínio por Eurídice.
Sabemos da paixão que Rilke
declarou por Lou-Andréas Salomé, a russa. Escreveu para ela as palavras mais
lindas que um homem pode escrever a uma mulher. Apaga-me
os olhos: ainda posso ver-te, tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te. E
continua para, no fim do poema, afirmar que a traz em seu sangue. E em outro
escreve que o amor de um ser humano por outro é a experiência mais difícil para
cada um de nós, “o mais superior
testemunho de nós próprios, a obra absoluta em face da qual todas as outras são
ensaios”.
Dez anos antes desses Sonetos a Orfeu foi com Salomé à Rússia,
se preparou para essa viagem, aprendeu russo. E não esqueceu nunca a Rússia. Nos
sonetos cita essa viagem “Lembro-me de um
dia de primavera na Rússia\Um cavalo às escuras...”. Uma viagem da qual
nunca esqueceu, um amor russo, uma primavera.