quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um pensamento para o dia dos namorados

"Todos os amores são infelizes porque são feitos de tempo, todos são o nó frágil das criaturas temporais que sabem que vão morrer; em todos os amores, até nos mais trágicos, há um instante de felicidade..." E assim Octávio Paz continua falando sobre o amor em um dos livros mais lindos que já li. Queria escrever sobre o amor assim, como ele faz em A dupla chama, mas peguei outro viés: os desencontros, o exílio de viver sem o objeto amado. Quem não ama é sem terra pátria, sem chão.


Hoje de manha dei uma entrevista na Rádio FM 94 e uma das perguntas que me fizeram foi: quem ama perdoa uma traição? Minha resposta: que só dá para responder na singularidade de um sujeito, cada um ama de um jeito.

Qual seria o instante de felicidade que anularia a fragilidade do amor? Um beijo na boca? um buquê de rosas vermelhas? escutar o outro, compartilhar a solidão? aliviar a carga de viver do outro? Um sorriso pleno de esperanças? desejo? Cada um escolhe o que melhor lhe aprouver.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Lançamento de meu livro, ontem na Livraria Acadêmica, em Fortaleza.


Eu e Sandra Mara, que junto com Socorro, da Livraria Acadêmica, organizaram um lançamento lindo. Tinha até meus livros pendurados pelas paredes, como ao fundo. Obrigada.
 

Osvaldo, coordenador do FCL-Fortaleza, ontem à noite, na Livraria Acadêmica.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Novamente

Para você:

Me disse vai embora, eu não fui
Você não dá valor ao que possui
Enquanto sofre, o coração intui
Que ao mesmo tempo que magoa o tempo
O tempo flui
E assim o sangue corre em cada veia
O vento brinca com os grãos de areia
Poetas cortejando a branca luz
E ao mesmo tempo que machuca o tempo me passeia
Quem sabe o que se dá em mim?
Quem sabe o que será de nós?
O tempo que antecipa o fim
Também desata os nós
Quem sabe soletrar adeus
Sem lágrimas, nenhuma dor
Os pássaros atrás do sol
As dunas de poeira
O céu de anil no pólo sul
A dinamite no paiol
Não há limite no anormal
É que nem sempre o amor
É tão azul
A música preenche sua falta
Motivo dessa solidão sem fim
Se alinham pontos negros de nós dois
E arriscam uma fuga contra o tempo
O tempo salta

domingo, 2 de junho de 2013

As sessões

Quem já assistiu "As sessões"? Não sei se choro ou dou risada.
Helen Hurt é uma terapeuta sexual, que trepa com os pacientes, com hora marcada. Não é uma puta não, não confundam. Estou debochando.
Ela tem clientes que lhe são enviados por uma psicoterapeuta, homens que não conseguem transar por alguma incapacidade. Marc é um homem que nunca transou com uma mulher, teve poliomelite aos 6 anos de idade e ficou sem conseguir mover nada além da cabeça e do pênis. E a contrata para conseguir transar.
 No início, ela é de um frieza horrível: agora vou fazer isso, agora vou passar minha mão em tal lugar, agora seu negócio está posicionado. Eu nem sei como ele consegue ter ereção com tanta ciência.
Ele só consegue ir para a cama com essa mulher porque o padre o liberou. Disse 'vá em frente'. As cenas em que ele conta tudo para o padre são de chorar de rir.
As coisas não estão dando certo, ele fica contrariado, pois cada vez tem uma ejaculação precoce. O padre dá um conselho maravilhoso: esqueça essa baboseira psicológica e fale, você é um poeta.
E ele é poeta dos bons. Ele escreve para ela: "Deixe-me tocar-te com minhas palavras, porque minhas mãos jazem caídas como duas luvas vazias; deixe minhas palavras acariciarem seus cabelos, escorrerem por suas costas, fazerem cócegas pela sua barriga, pois minhas mãos, leves, mas inertes, ignoram minhas vontades e se recusam a realizar meus desejos mais silenciosos. Deixe minhas palavras entrarem na sua mente, levando tochas, admita esse peito aberto em seu corpo, para que possa te acariciar gentilmente aí dentro."
E quando um homem começa a falar com uma mulher, e de sentimentos, fazendo poemas e na cama, a coisa deixa de ser simples. E o que era uma simples tentativa de fazer uma relação sexual ser levada até o fim, se complica mais. E o amor surge.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

"Todo tempo feliz é filho ou neto da separação"


Rainer Maria Rilke escreveu isso em seus Sonetos a Orfeu. Depois de passar dez anos esperando escrever algo que não sabia o que era, mas tomado por uma ideia de algo importantíssimo que teria de ser escrito, e sem conseguir escrever uma linha, saíram esses sonetos. Li os comentários de um crítico literário e ele escreveu que Rilke vivia um tempo de aridez criativa. Podemos chamar de aridez essa impressão que um escritor sente de que tem algo a escrever, que se prepara para isso, que está submetido a uma ideia que não sabe bem o que é, que escreve outra coisa e sabe que não é isso¿ É como uma gestação, vai se encaminhando semana a semana em direção à obra. Uma gestação literária que demorou dez anos para parir. Que angústia deve ter sentido! Paciência é tudo, o conselho que ele deu ao jovem poeta se aplicou a ele também.

E depois escreve esses que são os mais belos sonetos que já li. Orfeu, o que vive à procura da amada, que faz por ela todos os esforços e morre em seu fascínio por Eurídice.

Sabemos da paixão que Rilke declarou por Lou-Andréas Salomé, a russa. Escreveu para ela as palavras mais lindas que um homem pode escrever a uma mulher.  Apaga-me os olhos: ainda posso ver-te, tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te. E continua para, no fim do poema, afirmar que a traz em seu sangue. E em outro escreve que o amor de um ser humano por outro é a experiência mais difícil para cada um de nós, “o mais superior testemunho de nós próprios, a obra absoluta em face da qual todas as outras são ensaios”.

Dez anos antes desses Sonetos a Orfeu foi com Salomé à Rússia, se preparou para essa viagem, aprendeu russo. E não esqueceu nunca a Rússia. Nos sonetos cita essa viagem “Lembro-me de um dia de primavera na Rússia\Um cavalo às escuras...”. Uma viagem da qual nunca esqueceu, um amor russo, uma primavera.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Sobre amores e exílios

 
 
Capa de meu novo livro.
Coloco abaixo o release que Renato Lima fez sobre ele.
 
 
Andréa Brunetto lança o livro "Sobre amores e exílios"
 
 
“A honra da literatura é evi­denciar que o homem não é a “fina flor da criação” – essa é a ilusão de seu ser religioso – e sim Sicut pa­lea, isso que Lacan almejava que um analista descobriria ser ao fi­nal de sua análise: nada, dejeto, estrume. E dessa condição de “exi­lado das coisas“, de falta do obje­to, seu ser de desejo pode emergir. Isso é o que melhor a literatura nos mostra. Um mundo de desejos incandescentes, como de forma tão linda Vargas Llosa escreve. Então, por que alguém escre­ve? Cada romancista tem seus mo­tivos. Salman Rushdie, o escritor indiano-mulçumano, autor de Os versos satânicos, alega que escreve para preencher o lugar esvaziado de Deus; Marguerite Duras para cons­truir um exílio, uma pátria do verbo, “uma pátria sem terra, sem nação, a mais sólida do mundo, a mais indes­trutível”. (Andréa Brunetto)
 
Apai­xonada pela psicanálise, apaixonada pela literatura, Andréa Brunetto transparece essa paixão em to­das as páginas deste livro que, como diz o título, está na fronteira entre uma e outra. Fiel ao preceito de Lacan de que o psicanalis­ta não deve tentar encontrar, a partir de sua obra, as neuroses de um autor, ela se vale dos textos de renomados escritores – como Freud fez com a Gradiva, de Jensen – para ensinar aquilo que o romancista revela, de­monstrando o que ela nos anuncia nas pri­meiras páginas: de que a psicanálise pouca importância tem para a literatura, mas esta tem muito valor para o analista.
Tomando-nos pela mão, Andréa nos faz com­panheiros e confidentes da viagem através desse litoral como se estivesse conversando conosco e tornando-nos cúmplices do seu ar­rebatamento para mostrar como, tanto no amor como no exílio, somos todos estrangei­ros, “desterrados do país-infância”, exilados do inconsciente e habitantes dessa outra cena. Por isso ela pode passear por autores e lugares tão diversos como Imre Kertész, Elfried Jelinek ou Orhan Pamuk, entre ou­tros, e Auschwitz, Viena ou Istambul, evi­denciando que não só a psicanálise, mas também a literatura não tem pátria nem fronteiras.
Porém, não nos enganemos com essa aparente simplicidade. Ela é fruto de uma extensa lei­tura e grande familiaridade com todos os es­critores citados, tanto de um território quanto do outro, evidenciando que o gosto pela lite­ratura que herdou do pai – como nos infor­ma logo nas linhas iniciais – foi inteiramente conquistado por ela (segundo a recomendação freudiana), pois assumido como um desejo seu e “anexado” àquele pela psicanálise.
Viajando por tantas terras, este livro é uma carta-letra que sem dúvida chegará ao seu destino. (Andréa Rodrigues)
 
 
LANÇAMENTO:
Todos estão convidados para o próximo dia 14 de junho, acompanhar o lançamento deste livro em um coquetel que será realizdo às 20h30, no Grand Park Hotel, em Campo Grande. A entrada é gratuita.
 
SOBRE A AUTORA:
 Psicanalista, psicóloga, membro (AME) da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, funda­dora do Ágora Instituto Lacaniano, de Campo Grande. Autora de Psica­nálise e educação: sobre Hefesto, Édi­po e outros desamparados dos dias de hoje (UFMS, 2008). Escreve, publica e apresenta traba­lhos na interface da psicanálise com outros saberes.  Atualmente é conselheira do CRP14, coordenando a Comissão de Ética.

 
 
 
 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um homem certo


Um homem se lembra de quando era pequeno e sua mãe praticava abortos, lembra das jovens que vinham até sua casa para fazê-los com sua mãe. Imagina pedaços de corpos, o sangue. Nem vou continuar a dizer mais o que li na matéria do Terra.  Essa história ele vai contar em um de seus sermões. A mãe, que não faz mais isso há muito tempo, que agora também é evangélica, vai se retratar e dizer que o filho era muito pequeno quando isso aconteceu, que ele não viu nada. Ele mentiu? Muito provavelmente não. Era criança – não sei exatamente quantos anos tinha,  mas uma criança imagina muito, sonha, tem muitas fantasias, um mundo de terrores e fobias pululam suas noites. Sei de adultos que não conseguem olhar embaixo da cama à noite até hoje, acalentando os mesmos medos infantis. Então o garoto deve ter imaginado realmente o que conta agora como verdade.

Aborto é crime no Brasil. Eu não vou entrar em consideração quanto a isso. Crime é crime. Seja eu contra ou a favor, a mãe do garoto estava fora da lei. Mas isso aconteceu há mais de duas ou três décadas. A questão que me ficou foi uma: ele poderia ter colocado essa história da mãe assim, em público, em um de seus sermões, para pregar o certo e o errado? Foi ético? Ele deve ter se colocado do lado certo, e a mãe do lado errado.

Quando disse que John Lennon merecia ter sido assassinado, também se colocou do lado certo. Lennon, do errado. E o mesmo para o conjunto Mamonas Assassinas. Só que dessa vez quem executou a vingança foi Deus  - que jeito esse de ver Deus! - que colocou a mão e disse que se vingava dos que cantavam músicas torpes às crianças. Mamonas errados. Lennon errado. E Caetano Veloso também. Sinceramente agora esqueci o porquê Caetano Veloso está errado. Mas Caetano que se cuide, pois os outros artistas errados já se foram. Deus está de olho em Caetano Veloso. Veloso, Mamonas, Lennon, todos errados. Ele certo.

Ah, os africanos também errados, estão sendo punidos por Deus. Os africanos vivem muitas dificuldades realmente, mas são um povo tão rico, de cultura, de riquezas minerais, de fauna, de flora, estão sendo punidos por Deus. Os africanos “estão como estão” porque todo mundo vai lá roubá-los. Sobretudo os europeus, que dilapidaram suas riquezas. Como aliás, as nossas também. Os africanos errados, ele certo.

Eu não gosto de gente que se acha tão certa, tão correta, tão moralmente viável, e que aponta as faltas do outro. Até da mãe publicamente. Acho gente com tanta certeza assim perigosa. E insolente, e audaciosa. É de se arrogar que sabe o que é o melhor para os outros. É gente com empáfia. Crê que o ser humano é grande coisa, que ele é grande coisa, os outros é que são os errados. Mas o ser humano é como Thomás de Aquino disse: sicut palea. Estrume, dejeto, nada. É isso, no fundo, o ser humano: do pó vem e para ele vai. Por que não se lembra dessa parte na hora de apontar o dedo para os outros? O engraçado é que quando um sujeito não quer enxergar isso, mais vira isso.

Estou escrevendo isso indignada com um amigo meu que colocou um post defendendo esse homem certo. Uma defesa e com um argumento mais ou menos assim: só críticas para ele e os outros políticos ficam numa boa. E os corruptos, e os mensaleiros, e os outros? Isso é mais ou menos assim: é como se alguém pudesse se defender do erro dizendo que os outros erram também. Eu roubei, mas o outro também roubou.

È claro que os políticos depois se entendem, fazem reuniões. Aliás, já fizeram, já cortaram as devidas fatias do bolo e deram essa para ele, o homem certo, para ficar com as maiores para si. Na verdade, esse argumento é débil demais. Se eu continuar pensando nisso, os errados somos nós. E nesse caso, creio realmente. Errados somos nós se temos os políticos que temos. Será que é castigo de Deus?