Um brinde a esta terça-feira. Por que tem dias que nascem iluminados, límpidos. E a beleza do dia se encaixa com sua disposição ao sair da cama. Acordar cedo, e mesmo assim já ter um sol que encosta na lagoa, pensar em todas as coisas que tem de fazer, na correria de dezenas de ações cotidianas, como ir ao banco, comprar alface, passar na lavanderia. E sentir que muitas coisas vão acontecer nos próximos dias que você não sabe. Assim como sexta-feira passada, em que fazendo a programação cotidiana, numa dessas esquinas da vida, reencontrei D. e o cotidiano ficou esquecido.
Hoje viro muitas esquinas e quem sabe? Como escreveu minha amiga Rita, um brinde a todas as possibilidades
Um espaço para comentar sobre literatura, viagens, filmes, artes e todas essas "coisas inúteis" que tornam a vida possível, prazerosa, humana.
terça-feira, 20 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
As araras
Hoje, quando saí de casa, duas araras sobrevoavam o condomínio no qual moro - em que vivo uma vida e imagino outras - à beira da Lagoa do Itatiaia. São minhas vizinhas, eu no condomínio, elas na lagoa. Minhas vizinhas deram um vôo rasante e soltaram sua linguagem ardida típica. Elas, que outrora viviam sentadas, descansando no muro em frente à minha janela, andavam sumidas. Só agora descobri o motivo. Foi D. quem me contou e disse que elas vão voltar.
Aguardo, as araras, a vida que imagino, D., e outras tantas coisas mais.
Por que você não vem D.?????
Aguardo, as araras, a vida que imagino, D., e outras tantas coisas mais.
Por que você não vem D.?????
terça-feira, 13 de março de 2012
Nova viagem
Logo logo viajo. E mudo temporariamente de cidade, de ares, de língua, de continente. Torno-me outra. E depois de um tempo, de ter andado perdida por cidades desconhecidas, conversado com estranhos, falado outra língua, volto para casa para ser eu mesma. Mas mudada.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Aniversário
Amanhã é meu aniversário e depois de muitos dias preocupada, ontem amanheci com uma alegria diferente, inesperada. Fernando Pessoa, com sua melancolia e nostalgia tão típicas dizia "não faço mais anos, duro". Eu duro também, mas creio que sem melancolia. É que ontem tive uma nova idéia. Estou escrevendo um livro, e estava sem rumo, sem saber como continuar. E coincidiu que uma pessoa ontem me mandou antecipadamente os votos de feliz aniversário e escreveu assim: "que você encontre um continente para você". Um continente é muito, um promontório está bem, com um tênue caminho entre a terra e a água, com um trajeto sobre o atlântico também está bem.
domingo, 4 de março de 2012
Olhos azuis
Seus olhos azuis já foram um norte, tinham a clareza de um dia de sol reluzente, sem nuvens. Uma manhã sem brumas. Na passagem dos primeiros dias sem ele, e nos anos subsequentes, estiveram em meus sonhos. Assombravam-me nas primeiras semanas que passei sem vê-lo. Mas nove anos se passaram e o reencontro. E o brilho de seus olhos se apagou. Enquanto ele falava comigo, eu procurava prestar atenção aos olhos – eu não estou enxergando bem, por isso não enxergo a beleza de seus olhos azuis? Percebi que o azul tinha desbotado, o amor tinha desbotado. Perdeu o brilho nesses anos todos que estivemos longe um do outro.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Whitney Houston
E se foi Whitney Houston, tão linda, tão jovem ainda, tão talentosa. E tão infeliz. Hoje eu tinha acordado mirando de minha janela uma lagoa enorme, tão linda, e o mundo por instantes pareceu-me tão harmônico. Agora a mirada fica envergonhada diante de tamanha infelicidade.
Escuto agora um Cd belíssimo chamado Waiting to Exhale, trilha sonora do filme que ela participou e cantou várias músicas. Se não me engano, o filme em português ficou como "Falando de amor'.
Um trecho da primeira música que abre o CD e que ela canta:
Sometimes you'll laugh/Sometimes you'll cry/Life never tells us, the when's or why's/When you've got friends, to wish you well/You'll find your point when/You will exhale (yeah, yeah, say).
Tradução: Algumas vezes você rirá
Algumas vezes você chorará
A vida nunca conta-nos o quando e o porquê
Quando você tem amigos para desejar-lhe bem
Você encontrará o seu ponto quando
Você vai expirar (yeah, yeah, diga)
Escuto agora um Cd belíssimo chamado Waiting to Exhale, trilha sonora do filme que ela participou e cantou várias músicas. Se não me engano, o filme em português ficou como "Falando de amor'.
Um trecho da primeira música que abre o CD e que ela canta:
Sometimes you'll laugh/Sometimes you'll cry/Life never tells us, the when's or why's/When you've got friends, to wish you well/You'll find your point when/You will exhale (yeah, yeah, say).
Tradução: Algumas vezes você rirá
Algumas vezes você chorará
A vida nunca conta-nos o quando e o porquê
Quando você tem amigos para desejar-lhe bem
Você encontrará o seu ponto quando
Você vai expirar (yeah, yeah, diga)
Quando o estrangeiro vira inimigo
Outro Emerson morreu, mas esse seu nome é grafado com H, Hemerson. Escrevi há quinze dias sobre a morte do soldado Emerson, morto em um ato de coragem. Esse Hemerson, campograndense, morreu por violência, vandalismo e preconceito contra o estrangeiro na saída de uma boate em Lisboa.
É claro que episódios como esse acontecem com muita freqüência no Brasil, em várias boates de tantas cidades, grandes e pequenas. A combinação de juventude - com certo entusiasmo e audácia que ela traz - bebida e, sobretudo nesse caso, violência, acarreta esses casos em saídas de boates do mundo. Não só do Brasil. Li um caso parecido que aconteceu na Espanha meses atrás, em que um americano foi assassinado na saída da boate em que estava.
O ingrediente a mais que creio é bem marcado nessa história é o preconceito contra o estrangeiro. O estrangeiro sempre foi mal-visto por todos os povos. Desde os gregos antigos – nem falo os de agora, pois só andam pensando neles mesmos – pois está na Ilíada, texto clássico do poeta Homero: o conselho que a deusa Atenas dá a Ulisses é que ande de cabeça baixa e não chame atenção, “pois os moradores daqui não recebem nenhum forasteiro de boa mente, nem dão comida aos que vêm de fora.”
Mesmo nós, brasileiros, que somos mais acolhedores que a maioria, temos preconceitos com o estrangeiro. Ele não precisa ser de outro país, pode ser o vizinho que não aceitamos seu jeito diferente, o índio, o morador do bairro pobre, o homossexual. Enfim, o diferente, que nos ameaça. Segundo Freud, o estranho.
No Mato Grosso do Sul convivemos com fronteiras com dois países e sabemos de episódios de racismos com relação aos bolivianos e aos paraguaios. Digo isso para não atirarmos logo a primeira pedra e dizer que preconceito contra o estrangeiro só os outros têm e que nós somos o povo acolhedor. Não somos, também fazemos os nossos “estrangeiros”, que nos ameaçam.
Não será essa a visão mais evidente e fácil diante de todo imigrante/estrangeiro? Apelar para o preconceito ou para a violência? Mais difícil é se perceber como um qualquer nesse mundo enorme de Deus, com tantas raças, tantas culturas, tantas línguas. Mas para isso o sujeito precisa ter a humildade de se saber um Zé ninguém. Será que os europeus estão preparados para se saberem Zé Ninguém? Quando Freud em “O Mal-estar na civilização” afirma que nenhum homem está à altura do mandamento “Amar o próximo como a ti mesmo”, que o ser humano nunca alcança o suficiente esse mandamento, é isso que ele quer salientar: nosso limite, nossa imperfeição, nossa pobreza.
Mas voltando para esse episódio de preconceito e violência em Lisboa, resultando na morte de um jovem: acredito que o preconceito europeu contra os estrangeiros aumentará nesses tempos de recessão, falta de emprego e dinheiro e queda do euro que eles estão vivendo. Embora o primeiro motivo seja a crise do euro, creio que há uma crise de identidade que assola a Europa. É só assistir o filme francês Les Murs (Os muros), traduzido erroneamente no Brasil por Os muros da escola, quando na verdade os problemas nessa escola francesa, repleta de tantos jovens falando tantas línguas, queria mostrar é a resistência dos professores em aceitar a diversidade cultural que prolifera na Europa atual.
Acredito que esta é uma dificuldade que a Europa só tem vivido nos últimos anos. Zigmunt Bauman escreveu, citando Rougemont que “a Europa descobriu todas as terras do planeta, mas nenhuma delas jamais descobriu a Europa”. E continua em sua tese: ela dominou todos os continentes, mas nunca foi dominada por nenhum deles. Pois este filme mostra exatamente isso: os colonizados foram ao colonizador, assumindo valores que sempre foram apregoados por aqueles – individualismo, busca de sucesso, etc – mas sem abdicar de sua própria cultura.
Esse é o fato novo – maior do que a dificuldade financeira atual, creio eu - que a Europa tem de conviver e não está conseguindo: hoje ela está sendo construída por muitos estrangeiros, que atualmente ela é multicultural, multiracial. E terá outra face no futuro.
Mas voltando a violência contra o Hemerson, o que dizer a essa mãe? Não tenho palavras. Nenhuma! Nem ao menos sei o que é essa dor. Só espero que essa mãe consiga justiça. E que tenha conseguido enterrar seu filho em solo pátrio, pois não vi mais uma notícia de que ela tivesse conseguido os apoios necessários.
É claro que episódios como esse acontecem com muita freqüência no Brasil, em várias boates de tantas cidades, grandes e pequenas. A combinação de juventude - com certo entusiasmo e audácia que ela traz - bebida e, sobretudo nesse caso, violência, acarreta esses casos em saídas de boates do mundo. Não só do Brasil. Li um caso parecido que aconteceu na Espanha meses atrás, em que um americano foi assassinado na saída da boate em que estava.
O ingrediente a mais que creio é bem marcado nessa história é o preconceito contra o estrangeiro. O estrangeiro sempre foi mal-visto por todos os povos. Desde os gregos antigos – nem falo os de agora, pois só andam pensando neles mesmos – pois está na Ilíada, texto clássico do poeta Homero: o conselho que a deusa Atenas dá a Ulisses é que ande de cabeça baixa e não chame atenção, “pois os moradores daqui não recebem nenhum forasteiro de boa mente, nem dão comida aos que vêm de fora.”
Mesmo nós, brasileiros, que somos mais acolhedores que a maioria, temos preconceitos com o estrangeiro. Ele não precisa ser de outro país, pode ser o vizinho que não aceitamos seu jeito diferente, o índio, o morador do bairro pobre, o homossexual. Enfim, o diferente, que nos ameaça. Segundo Freud, o estranho.
No Mato Grosso do Sul convivemos com fronteiras com dois países e sabemos de episódios de racismos com relação aos bolivianos e aos paraguaios. Digo isso para não atirarmos logo a primeira pedra e dizer que preconceito contra o estrangeiro só os outros têm e que nós somos o povo acolhedor. Não somos, também fazemos os nossos “estrangeiros”, que nos ameaçam.
Não será essa a visão mais evidente e fácil diante de todo imigrante/estrangeiro? Apelar para o preconceito ou para a violência? Mais difícil é se perceber como um qualquer nesse mundo enorme de Deus, com tantas raças, tantas culturas, tantas línguas. Mas para isso o sujeito precisa ter a humildade de se saber um Zé ninguém. Será que os europeus estão preparados para se saberem Zé Ninguém? Quando Freud em “O Mal-estar na civilização” afirma que nenhum homem está à altura do mandamento “Amar o próximo como a ti mesmo”, que o ser humano nunca alcança o suficiente esse mandamento, é isso que ele quer salientar: nosso limite, nossa imperfeição, nossa pobreza.
Mas voltando para esse episódio de preconceito e violência em Lisboa, resultando na morte de um jovem: acredito que o preconceito europeu contra os estrangeiros aumentará nesses tempos de recessão, falta de emprego e dinheiro e queda do euro que eles estão vivendo. Embora o primeiro motivo seja a crise do euro, creio que há uma crise de identidade que assola a Europa. É só assistir o filme francês Les Murs (Os muros), traduzido erroneamente no Brasil por Os muros da escola, quando na verdade os problemas nessa escola francesa, repleta de tantos jovens falando tantas línguas, queria mostrar é a resistência dos professores em aceitar a diversidade cultural que prolifera na Europa atual.
Acredito que esta é uma dificuldade que a Europa só tem vivido nos últimos anos. Zigmunt Bauman escreveu, citando Rougemont que “a Europa descobriu todas as terras do planeta, mas nenhuma delas jamais descobriu a Europa”. E continua em sua tese: ela dominou todos os continentes, mas nunca foi dominada por nenhum deles. Pois este filme mostra exatamente isso: os colonizados foram ao colonizador, assumindo valores que sempre foram apregoados por aqueles – individualismo, busca de sucesso, etc – mas sem abdicar de sua própria cultura.
Esse é o fato novo – maior do que a dificuldade financeira atual, creio eu - que a Europa tem de conviver e não está conseguindo: hoje ela está sendo construída por muitos estrangeiros, que atualmente ela é multicultural, multiracial. E terá outra face no futuro.
Mas voltando a violência contra o Hemerson, o que dizer a essa mãe? Não tenho palavras. Nenhuma! Nem ao menos sei o que é essa dor. Só espero que essa mãe consiga justiça. E que tenha conseguido enterrar seu filho em solo pátrio, pois não vi mais uma notícia de que ela tivesse conseguido os apoios necessários.
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