domingo, 5 de fevereiro de 2012

Os descendentes

O filme com George Clooney, que assisti ontem lembrou-me muito do Havai, que é o personagem principal. Clooney é coadjuvante. A temática primária é um homem que espera a morte de sua mulher em coma e reaproxima-se das duas filhas. Clooney não está mal no filme, mas não é um grande filme. Nem entendi porque ele está concorrendo ao Oscar por essa atuação. A única grandeza do filme é o paraíso havaiano. Todos os personagens são secundários ao cenário mostrado, suas praias intensamente azuis pela presença das algas, suas areias escuras, vulcânicas; os homens todos com camisetas floridas – e Mat King/Clooney nos conta que não devemos nos enganar: os mais sérios e importantes negócios são feitos com pessoas trajando estas roupas - suas rodovias contornando o recorte do mar, em todas as ilhas; a cadeia de montanhas que ficou mundialmente conhecida, pois aparece no filme “Parque dos Dinossauros”, marca presença duas ou três vezes no filme. A trilha sonora toda na lingua havaiana, essa lingua tão sonora, repleta de vogais que se repetem, pois eles têm poucas consoantes.
A trama se passa em dezenas de cenários desse paraíso - assim é chamado em vários momentos - que está em vias de desaparecer. O pedaço mais inóspito de terra está para ser vendido. Mat King/Clooney vem de uma família em que ele é o descendente do rei (king) Kamehameha I, que casou-se com uma branca e deu origem a uma mistura de raças. Mat King e seus primos – ávidos por vender a valiosa terra – são os descendentes dessa mistura.

Kamehameha I foi o havaiano que unificou todas as ilhas em 1810. Em uma dessas revoltas pela unificação foi morto o Capitão Cook, célebre navegador inglês. Kamehameha é citado várias vezes no filme, suas fotos aparecem na casa do pai de Mat King, quando ele retorna ao domicílio paterno buscando a resposta para o ser ou não ser do filme: vendo ou não vendo?

Mat King é o homem mais conhecido do Estado havaiano, todos que falam com ele sabem da venda a ser feita. É como se ela decidirá o que vai ser feito das memórias: transforma-se em um conglomerado de resorts de luxo ou mantêm-se a memória desse passado recôndito? Pergunta que o personagem de Clooney só vai nos dar a resposta na penúltima cena.

O filme lembrou-me muito uma viagem do passado. Cheguei ao Havai em 9 de setembro de 2003 e senti falta de um paraíso antêntico, dos havaianos que ainda falassem perfeitamente a lingua, do artesanato tipicamente havaiano, da comida tipicamente havaiana. Fui a um centro de cultura dos povos da Polinésia e tudo me pareceu uma Disneylândia. Então entendi perfeitamente o dilema mostrado no filme. Assisti o filme com um misto de saudade desse paraiso de uma natureza belíssima, espetacular, e com uma decepção porque o capitalismo e a globalização, com seus resorts de luxo e objetos de consumo industrializados, destrói tudo, nossa autenticidade, nosso passado, nossa singularidade. Nem o Havai é mais o Havai.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Entrevista com FHC na Revista Bravo

Estou com uma raiva de FHC. Li ontem à noite a entrevista com Fernando Henrique Cardoso que saiu na Bravo desse mês. Acordei com raiva do dito cujo. Reli a entrevista e a raiva continua. A matéria principal da Bravo desse mês é sobre Ruth Cardoso. Está sendo publicada uma coletânea de seus artigos e por isso a revista entrevistou FHC para falar sobre a mulher. Uma das perguntas: por que ela publicou tão pouco? Ele começa respondendo bem, que ela era muito crítica, insegura com o que escrevia e pesquisava e passa a falar dele, de que ela tinha insegurança e ele confiança demais, que os filhos até debochavam disso.

Esse excesso de auto-confiança de FHC todos nós brasileiros conhecemos. Vou pular essa parte.

Nas respostas, ele sempre desliza e passa a falar dele. Ele não sabe o que fazer quando não é o centro de tudo. E minha raiva: ele enfatiza a insegurança dela em dois ou três momentos. E os erros dele - inclusive, ao final, lhe é perguntado sobre o filho que acreditava ser seu e agora o exame de DNA diz que não é - responde suscintamente. Sua lógica é assim: a limitaçao da mulher, boca no trombone; meus erros, boca de siri.

Ainda mais porque a insegurança dela achei uma coisa boa. Uma pesquisadora crítica, que tinha dúvidas, que não sabia se escrevia bem, que titubeava. Os cientistas são assim. Stephen Hawnking, que acabou de fazer 70 anos, falou em entrevista sobre isso, sobre seus erros teóricos, sobre o enigma que são as mulheres para ele, e que ele não tem resposta. Ele disse como uma brincadeira, mas entendi que o mais importante é ter perguntas e estar disposto a pesquisar.

Freud fez uma teoria, refez, no começo errou. Mas FHC não: o homem é certo, inseguros são os outros.

Eu não suporto gente que vive cheia de certezas....

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A coragem de um homem

O soldado Emerson Leandro da Silva tinha 19 anos e não sabia nadar. Estava com a namorada e amigos em um pesqueiro à beira do Rio Aquidauna. Sua namorada, que também não sabia nadar, escorregou em uma pedra e caiu dentro do rio. Imediatamente, seu namorado Emerson pulou no rio - esquecendo que não sabia nadar - a empurrou para perto da margem. Os amigos a puxaram e ele foi puxado pela correnteza. Isso aconteceu no final de semana, mas seu corpo foi encontrado somente ontem.

É isso o que a psicanálise define como um ato. Um ato não é algo pensado, decidido em ruminações e ruminações. Aliás, a ruminação impede o ato. Mas, ainda assim, um ato é uma escolha. Ainda que inconsciente.

A grandiosidade do ato de Emerson é maior quando nos lembramos do que Freud escreveu no O mal-estar na civilização. Freud retomou a frase de Plauto, "o homem é o lobo do homem", para sustentar que um ser humano se coloca sempre em primeiro lugar. É sua primeva, narcísica, atitude. Depois, com muita sublimação, e construção simbólica, consegue fazer laço social com seus próximos. Mas lá, em seu imaginário, ele está em primeiro lugar. Então, se um navio vai afundar, se agir pelo seu narcisisimo, ele corre antes, "que afunde os outros, eu escapo". Vocês já perceberam que contraponho a coragem de Emerson à covardia do comandante Schettini?

Emerson sabia que ia morrer? Provavelmente não pensou isso na hora, correu o risco de salvar quem amava, agiu e isso, claro, teve consequências. Sua família deve estar sofrendo muito. Mas sua coragem, esse ato que surgiu em um segundo e tomou sua vida, salvou a vida de uma pessoa.

Só escrevo para sua coragem não ficar anônima, afinal tanto se fala da covardia nesse momento.

Não esqueçam: Emerson Leandro da Silva. Quando alguém vir até vocês com teorias fatalistas de que as pessoas estão cada vez mais egoistas, autistas, ensimesmadas, que o mundo não é mais o mesmo, pensem que existem Emersons por ai. Não muitos, claro. O lugar-comum pode ser o comandante italiano, mas os homens que fazem a diferença no mundo são os Emersons.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Jean Dujardin indicado ao Oscar de melhor ator 2012


Uma noite dessas, sem nada para fazer que ficar passando de um canal para outro na televisão, parei em um programa de entrevistas da TV5. Estava sendo entrevistado um ator francês que nunca tinha visto. Ele fazia a divulgação de seu novo filme - isso já tem dois anos. Gostei do que ele falou sobre o filme e o achei belíssimo. Final do ano, encontrei o filme na FNAC da Rue de Rennes, em Paris. Comprei. O filme se chama "Un Balcon sur la mer". Nele, um homem reencontra na mulher para quem ele está vendendo uma casa, a menina que ele amou na infância. Uma infância passada em uma Argélia em guerra. Saiu fugido de lá, com seus pais, criança ainda. Viveu uma vida esquecendo sua infância, casou-se, teve uma filha, mas um dia reencontra essa menina que amava e via sempre no terraço em frente. Isso justifica o títuto do filme, o terraço (balcon). Por que conto esse filme agora para vocês? Assistindo esse filme, entre natal e ano novo, novamente a beleza do ator desponta. Mas nem só isso, o principal é que ele é um ator espetacular. O nome dele: Jean Dujardin. Acabo de ver que ele foi indicado ao Oscar de melhor ator pelo filme "O artista". Um filme francês, que acaba de ser rodado e que trata da Hollywood dos anos 30. Um filme mudo. Um filme francês, um filme mudo e com Jean Dujardin concorrendo ao Oscar de melhor ator. George Clooney que me perdoe, mas torço por Dujardin.

sábado, 14 de janeiro de 2012

O último CD de Chico Buarque

O último CD de Chico Buarque de Holanda, que escuto agora pela primeira vez, é um espetáculo. Começa com "Querido Diário", em que ele, um homem que vive sozinho, encontra amigos que lhe dizem "fique com Deus". E a partir daí lhe falta uma religião ou amar uma mulher sem orifício. Essa parte é ótima e meus amigos psicanalistas entendem isso perfeitamente: ele quer amar uma mulher sem gozar dela, ou com ela. Mas já diz, na estrofe seguinte, que é impossível, pois se ama, o desejo por ela já inflama. Depois vem a declaração de amor por Aurora, para quem ele faz uma canção, que vai cantando sem pudor, mas só se for agora, Aurora, sem mais demora, fazendo tórridas confidências mundo afora. E de Aurora, a mulher amada, musa, vira Amora e depois Teodora. E assim entendemos que a musa é a palavra, com a qual vai brincando, rimando.


E depois duas músicas sobre um amor que chegou tarde, a essa hora da vida e que veio embaralhar os seus dias, amor por uma mulher mais nova que nem sabe o que é um baião e que usa expressões “tipo assim”. Mas ela “tipo assim” quer se jogar de cabeça para a vida inteira e ele “tipo assim” está com medo. Ele sente que por essa pequena que tem tempo de sobra ele vai penar muito ainda. E, na próxima música, “Se eu soubesse” é uma mulher que cai na “conversa mole” do amor por um homem, pois não é capaz de gostar de outro, só desse, que tem a conversa mole do amor.

E assim todas as músicas mostram um Chico apaixonadíssimo, falam de um amor a embaralhar horas, a viver com a cabeça na lua, a cantar “eu te amo demais”. Amor por uma mulher que “espalha seu fogo de palha”, no salão, que “arrasta a asa”, mas que é ele, o Chico-amante-compositor que apaga a brasa da amada e com a brasa bem acesa de frases tão lindas, proclama que é ele, que é em sua mão que sustêm o coração dela, que suspira. Essa música “Sou eu” é de um homem que se garante diante de uma mulher. Nem preciso dizer que é uma das que prefiro.

A única exceção do disco, em que o amor não é por uma mulher – mais ou menos – é Barafunda. Nessa música a declaração de amor é pelo futebol, pelo Rio, por Garrincha, Pelé.

Um arco-íris

Depois de três dias sem dar trégua, a chuva parou - parece-me, pelo menos por agora - e abro a janela do quarto e deparo-me com um imenso arco-íris que começa no meio da Lagoa do Itatiaia - estou brincando, de um arco-íris nunca sabemos o começo e o fim. Mas estou com a impressão que ele começa logo aí, na lagoa. E para cúmulo da contemplação, duas araras passaram voando e descansaram uns momentos no muro do condomínio, encostado da minha janela.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Stephen Hawking faz 70 anos

Stephen Hawking fez 70 anos. Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica aos 21 anos, foi-lhe dado 24 meses de vida e está ai. Fez mestrado, doutorado, orientou os trabalhos dos maiores cientistas que vieram depois dele. Fez uma teoria sobre os buracos negros e depois se redimiu, disse que estava errada; refez; escreveu sobre a física de um jeito que os leigos entendessem (mais ou menos). E em entrevista diz, com bom humor e bastante verdade:


" Ao conceder entrevista à revista New Scientist, Hawking confessou que buracos negros e formulas matemáticas não são desafio nenhum, e que ele passa os seus dias pensando em um assunto bem diferente. "As mulheres. Passo o dia inteiro pensando nelas. Elas são um completo mistério", disse ele.

Viram qual é o grande mistério do mundo, para Freud, para ele, para os homens, para nós mesmas?