terça-feira, 7 de junho de 2011

Exílio de um amor, de um país, de uma vida

“Ó casa, ó pátria nossa! Que possamos não conhecer
nunca o exílio nem arrastar na miséria uma penosa existência,
de todas as dores a mais digna de piedade! Ah! Que a morte, sim,
a morte nos golpeie antes de vermos tal dia.
Não existe maior desgraça do que a de sermos
privados da terra natal.
Medéia, Eurípedes



As personagens de Salman Rushdie, qualquer obra que escolhamos para debater, são sempre homens “sem lar, em busca de um lugar no mundo”. Poderíamos encontrar nisso um desterro de seu autor? Não podemos interpretar a obra pela vida do autor. Só ele próprio tem o direito de fazê-lo. E o faz no início de seu livro Pátrias Imaginárias: “Talvez seja verdade que os escritores na minha posição, exilados, emigrantes ou expatriados vivam obcecados por um sentimento de perda, uma necessidade de recuperar o passado, de olhar para trás, mesmo correndo o risco de se transformarem em estátuas de sal”.

Comentarei o romance O chão que ela pisa. Nele, o personagem faz o caminho do oriente para o ocidente, mas também é um deslocado. “Não passa um dia em que eu não pense na Índia, que eu não relembre cenas da minha infância”.

Toda a trama do romance é tecida em analogia com a lenda do Orfeu. Ormus Cama, o cantor das harmonias, é um Orfeu à procura de sua Eurídice. Ele perde sua amada Vina durante um terremoto. Nele, ela submerge às profundezas da terra. E a partir de então, sem sua Eurídice, o Ocidente é insuportável para viver. Rushdie usa uma fala de Medéia, na peça de Eurípedes – citada na epígrafe desse capítulo – para mostrar ao leitor como é preferível a morte a viver no exílio. E nessa obra se misturam os exílios: de viver sem o objeto amado sem a pátria e sem a vida. Enfim, viver sem o objeto amado é a morte.

Ao mesmo tempo em que Ormus é Orfeu, procurando sua Vina/Eurídice, é alguém que submergiu nessa “América-Orpheum”, “que olha para ele e o deixa para trás, para morrer”. Vivendo nessa “boa vida de green card” é uma Eurídice que saiu de sua terra e queria ser amado pelos gringos. Mas isso não lhe adiantou muito: “Transformei-me num estrangeiro. Apesar de todas as minhas vantagens e privilégios de nascimento, de toda a minha aptidão profissional, em virtude de haver abandonado meu lugar de origem transformei-me em membro honorário das hordas de desprotegidos da Terra”.

O narrador de O chão que ela pisa se identifica e se funde ao personagem Ormus: os dois anseiam pela ressurreição, pela volta da amada do mundo dos mortos. Vina, a Eurídice de Ormus, engolida pela primeira vez por uma força sísmica: “essa força sísmica também atende pelo nome de amor”. Nesse terremoto, força sísmica, chão do romance de Salman Rushdie, o amor e a morte estão fundidos, como duas faces de uma mesma moeda. E as duas portam a face do exílio de sua Índia amada, a terra da infância.

Um homem que mantêm a memória do amor

Sofia, personagem de O passado, romance de Alan Pauls, comanda o grupo das mulheres que amam demais – e Alan Pauls mostra, a partir dela, que a religião das mulheres é o amor – e empreende sua tentativa de fazer uma memória nos homens. Com Orfeu é o contrário: ele mantém a memória e a desmemoriada é ela, Eurídice, que habita o “mundo do declínio”. Nesse mito, a morte e o apagamento do amor são o mesmo. Por isso, creio, Orfeu é o sonho de toda mulher: ele não esquece sua amada, não a substitui. Ela lhe é única. Depois que a perdeu, não quis nenhuma outra e suportou ser morto, desmembrado por todas as outras mulheres, que vieram depois dela e que ele não as quis. Nenhuma era ela: “Pisa de leve essa estrada sombria, desce ao fundo devagar, que vou te seguir daqui a um dia, e não descanso até te encontrar.”

Diferente de Don Juan, que procura A Mulher em todas as mulheres. Ainda que seja uma a uma, apenas durante um tempo cada uma é única, mas só durante um curto tempo, pois nenhuma é A Mulher. E depois de curto tempo, em que a imagem de felicidade foi desfeita – um tempo feliz é sempre curto para o amante que fica a esperar que o outro volte - D. Juan retorna suas buscas. Orfeu a encontrou em Euridice. Seu esforço de trazer à vida essa mulher o coloca como um ser para a morte e nos mostra que um dos nomes da Mulher é a morte.

O amor é elogio ao ser

Eurídice, à medida que desliza cada vez mais fundo no abismo, esquece de Orfeu, relembra Rushdie em seu romance. E traz os Sonetos a Orfeu, de Rainer Maria Rilke para nos mostrar isso. “..ao penetrar o reino do nada, rapidamente se esquece da luz. A escuridão mancha seus olhos, seu coração. Quando Hermes fala de Orfeu, essa Eurídice responde, terrível: Quem?”

Matar é um aspecto de nossa dor errante, escreve Rilke em um de seus Sonetos a Orfeu. Neles, Orfeu é a memória, é uma vida que anseia pela mudança, pela transformação, mas que sabe que todo tempo feliz é “filho ou neto da separação” e que toda mudança acarreta perda.

Orfeu é aquele que sabe da condição do não-ser. É esse seu “íntimo poder”. Eurídice já se foi, apagou-se, perdeu a memória. E o que é o amor sem memória? Resto obscuro, que perdeu suas marcas pelo caminho. Um Nada. Assim, resta a Orfeu dizer do indizível: “Mas dizer o indizível só é possível ao cantor, num nível que só aos Deuses é audível”. Aqui tenho que discordar de Rilke: também o poeta diz desse indizível. E no caso dele próprio, beirando a perfeição. E assim, ele próprio, Rilke/poeta/Orfeu, traça suas lembranças de um amor: uma primavera na Rússia, uma viagem do passado, da qual nunca esqueceu. Ele não diz o nome, mas sabemos bem quem foi sua Eurídice.

No amor de Orfeu por Eurídice, mesmo nesse amor de um homem para quem ela é única, não uma mulher entre outras, mas A Mulher, tudo termina mal. Sem sua amada, que habita o esquecimento – morte para o amor - “tudo é distância. Não se fecha a circunferência”.

Rilke/Rushdie, Orfeus a manterem a memória de um desterrado amor do passado, conduzem suas obras para o exílio que é viver sem a infância: lembrar todos os dias da infância na Índia, no caso de Rushdie. E Rilke escreve em seus sonetos: “Somos mesmo de fraqueza aterradora, como o destino quer nos fazer crer? Será que a infância, intensa e promissora, mais tarde, na raiz, vai fenecer?”

E termino com outro poeta, esse brasileiro, que também se encantou com o mito de Orfeu, e escreveu sua versão dele, Vinícius de Moraes: “Ah, minha Eurídice. Meu verso, meu silêncio, minha música. Nunca fujas de mim. Sem ti, sou nada. Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada. Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível! A existência sem ti é como olhar para um relógio. Só com o ponteiro dos minutos. Tu és a hora, és o que dá sentido. E direção ao tempo, minha amiga mais querida!”

domingo, 29 de maio de 2011

Variações Freudianas I, o sintoma

Domingo assisti a peça de Antonio Quinet, Variações Freudianas. Nela, um homem e uma mulher expõem seus dramas. O dela, uma cena dos quinze anos, que repete outra, infantil, fundamental, em que a palavra "sai” é marcada. E presa a essa palavra, a mulher está sempre deslocada, de fora, sem consistência. Ele, o homem, dividido entre seu desejo e o vaticínio paterno: pague o que eu não paguei. Pagar ou não pagar, eis a questão é a duvida que diz seu sintoma, mas também define seu ser. Buscando uma resposta para a dúvida e para sua obsessão com ratos, chega a Viena e procura Freud.


Para os dois, o homem e a mulher, os sintomas fazem sofrer, mas também revelam um gozo, e com ele, no inconsciente, são felizes. Essa "felicidade" aponta para outra cena, a do inconsciente. Outra cena é, em alemão, Schauplatz, a praça do olhar, nos lembra o autor.

Ela, encenando nessa praça, fantasia com Marcelo Mastroianni - e em êxtase repete Marcelo, Marcelo, Marcelo - e aparece outra cena, na tela atrás do palco: Mastroianni, lindo como nunca, contemplando aquele exagero de mulher que é Anita Ekberg, em La Dolce Vitta. É a histérica, de fora, que olha Marcelo, que olha Anita, que está em êxtase por estar na Itália. Aliás, como Stendhal, também referido na peça. E, podemos dizer, também como Freud ficou quando lá estava.

E eis que em determinado momento, Antonio Quinet chega perto do palco, se aproxima mais e entra na cena. Por que vocês minhas colegas psicanalistas cariocas não me preveniram que isso aconteceria? Tomei um susto. E Quinet, diretor-autor-ator, intepreta Dr Quinet, o psicanalista. E além de tudo, é uma voz, que nos vem de algum lugar, recitando Freud e Lacan.

E temos de dividir a atenção com o homem, a mulher e essa outra cena, pois ele anda pelo palco, dá um seminário, escreve os matemas lacanianos no quadro, atende o homem e a mulher e corta a sessão: ficamos por aqui.

Mas queria expressar minha preferência: dentre todos os atores que aparecem para deleite de nosso olhar, o melhor é Ilya São Paulo. De longe melhor que Mastroianni, que também está lá, em outra cena. Mas mesmo com Mastroianni presente, ele consegue fazer-nos desviar o olhar de Marcelo (coisa dificil, bem difícil), pois é um ator tão espetacular interpretando o Homem dos Ratos, que só temos olhar para ele. Ele dá seu corpo e seu ser para ser, por uma hora o homem obsedado pelos ratos. E pelo pai.

Seus olhos e seu rosto mostram a agonia de um sujeito perseguido por uma dúvida atroz.

A peça, mais do que ser uma peça da política da psicanálise, é uma apologia do olhar, em que alguém sempre olha para alguém que olha para mais além. Outro, outra, outra cena, outro lugar, outra fantasia, que desvela e vela um outro tempo. É isso a peça, mas não só isso, pois também é Outra coisa.

Rio de Janeiro, 23 de maio de 2011

domingo, 15 de maio de 2011

Uma Polônia surpreendente

Cheguei a Varsóvia ao meio-dia de uma terça-feira de sol. E então, pela primeira vez, a vi tal uma Fênix, renascida das cinzas, com sol, calor e sob o signo de uma cordialidade impressionante de seu povo. Como já disse anteriormente, as pessoas fazem uma cidade - creio que o contrário não acontece - e os poloneses é que fazem de Varsóvia o que ela é hoje.
Andei com minhas amigas pelas ruas novas, reconstruídas, e fomos ao principal a ser visto: o gueto. No lugar onde foi o gueto há um memorial e está sendo construído um museu para contar a história do holocausto. Passamos um dia e meio e partimos.
 A língua é dificílima - embora depois de uma semana eu já estivesse falando algumas frases. Só algumas, poucas, minguadas - mas tem uma sonoridade bonita, musical.
Mas foi em Cracóvia que o amor pela Polônia, sua gente, se intensificou. A piada que Freud nos conta pode ser entendida perfeitamente após se conhecer a cidade: um sujeito que diz que vai a determinado lugar e diz o nome, mas o outro pensa que ele vai a Cracóvia, mas está escondendo isso. Cracóvia é uma cidade para se ir. Muitas vezes, de novo, sempre. E não estou fazendo como o sujeito da piada que recalca a cidade para manter esse prazer só para ele. Eu digo abertamente: vão, vão, vão.
Pequena, antiguíssima, intocada pelos bombardeios, com construções lindas, muralhas medievais e um povo cordial, simpático, gentil. E muito bonito, também. Quando eu cometia meus sacrilégios de tentar falar polonês, riam, riam, riam, achavam graça e ficavam muito contentes da tentativa que eu fazia de falar o idioma. E me ajudavam. Sempre.
Todos são um pouco como João Paulo II, diz minha amiga Alba Abreu. Aliás, assistimos missa no sábado de aleluia na igreja central da praça, onde Carol Voitjla, o antigo papa, rezava suas missas. Ele é a imagem onipresente pela cidade toda.
O polonês é fervoroso, filas e filas para se confessarem, igrejas lotadas. Nem na Itália existe isso. Acho que em nenhum lugar...
Voltando para casa, estou relendo o livro Dos Ciudades, de Adam Zagajewski, autor ucraniano, imigrante que desde criança, viveu na Polônia, mais precisamente, na Cracóvia. Entre ´Liev, sua cidade natal, e Gliwice, primeira cidade polonesa em que viveu e entre a Cracóvia, em que passou anos, e a Paris na qual se exilou, fugindo do regime comunista, escreveu este livro. E depois de anos, retorna a Cracóvia e escreve sobre ela. Cidade explendorosa, mas provinciana, pequena e grande, ao mesmo tempo. Coloco abaixo apenas um trecho para encerrar essa minha declaração de amor pela Polônia, seu povo, sua lingua. Queria tanto ter determinação para aprender essa lingua.....

Castelo de Wawel, Cracóvia - Foto de Alba Abreu Lima


"Sí, en Cracovia, más de una cosa me pareció pequeña y provinciana, pobre y dejada de la mano de Dios. La sala del teatro Stary, donde había experimentado las vivencias teatrales más intensas, de pronto se volvió pequeña. En mis recuerdos era enorme, mientras que en realidad es diminuta.

Me paseé por Cracovia, comprobando lo mucho que había menguado. Pero, andando el tiempo, en el momento menos esperado, redescubrí mi antigua admiracíon por aquella ciudad regia. Y deambulaba por Cracovia, acusando a un tiempo su pequeñez y su grandeza, su provincianismo y su esplendor, sus miserias y sus tesoros, su vulgaridad y su excepcionalidad. Sólo de una cosa no había duda: los árboles de Planty habían crecido. Mi admiracíon estaba impregnada de escepticismo, pero los árboles se habían vuelto todavía más majestuosos, más reales." Dos Ciudades, Adam Zagajewski

sábado, 30 de abril de 2011

Em tempos escuros nos ajudam aqueles que souberam andar na noite

E se foi Ernesto Sábato. Morreu para não fazer um século. Data pesada para esse homem que nasceu para batalhar com a morte? Nasceu e sua mãe o batizou de Ernesto, em homenagem ao pequeno Ernestito vindo antes e que morreu. E depois vem ele, a ocupar o lugar do Ernestito que se foi cedo e do qual ela nunca se esqueceu.


Dessa batalha pessoal - que ele nos contou em "Antes del fin" - fez as mais belas frases que alguém já escreveu sobre a vida, sobre a energia necessária para seguir adiante.

E escreveu sobre o fim de sua vida, despedindo-se. Há uns vinte anos atrás. E depois há cerca de dez anos escreveu os diários de sua velhice, novamente se despedindo. Mas resolveu viver mais uma década.

Em "Antes del fin", livro escrito para os jovens que vivem nesses tempos sombrios, nos dá vários exemplos de que o ser humano só cabe na utopia. E apresenta vários exemplos de homens que redimiram a humanidade porque resgataram a esperança e que, através de sua morte, nos entregaram o valor supremo da vida, "mostrando-nos que o obstáculo não impede a história". "Sólos quienes sean capaces de encarnar la utopía serán aptos para el combate decisivo, el de recuperar cuanto de humanidad hayamos perdido".

Confessa que também ele quis fugir do mundo, mas os outros o impediram, as cartas, as palavras nas ruas, o desamparo.

Seu livro "España en los diarios de mi vejez" é umas das coisas mais lindas que já li. E também nele, na sua apresentação, coloca a utopia como o único caminho. E nesse caso a nomeia: "a recuperação da Argentina, este renascer das possibilidades que se vivem hoje, e que mostram, uma vez mais, que o que pareceu impossível está encontrando seus sulcos".

Para ele, a verdadeira solidariedade é o encontro com o outro, tão difícil "nesse mundo acéfalo que abole todas as diferenças". E nesse encontro com o outro, também encontramos um sentido que nos colocará acima da fatalidade da história". Utópico ele? E o que seria o ser humano sem utopia? Desamparado, acéfalo, obscuro. Um nada.
Estamos todos, hoje, um pouco mais desamparados, sem sua escrita que sabia tão bem andar na noite. Sobretudo a Argentina.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Budapeste, uma antipatia a primeira vista

Hoje a tarde deixo budapeste e pelo que sinto no momento eh para nao mais voltar. Cheguei aqui no domingo pela manha e nas primeiras horas ja me desgostei dela.
Eh repleta de monumentos e predios grandiosos. Um pouco como Viena. Mas escassa em arte, igreja douradas demais, cheias de ouro, mas sem arte. Cidade sem cortesia, sem limpeza nas ruas, sem acolhimento ao estrangeiro, sem sorrisos das pessoas.
Acho que uma cidade eh feita por suas pessoas e eh na convivencia com elas que fica guardada a cidade na memoria. Acho que eh por isso que todo mundo gosta do Brasil: menos por suas praias e belezas naturais, do que pelo acolhimento, alegria e simpatia de seu povo.
E aqui nao tem nada disso. Alem de faltar obras de artes nas igrejas, limpezas nas ruas, abertura para os estrangeiros, comida gostosa e gente bonita, eles sao arrogantes e se acham. Eles tem um ar arrogante e uma falta de paciencia com quem nao fala a lingua deles.
Estou lendo um livro sobre o levante de 1956, quando tentaram pela primeira vez se livrarem dos russos e sei do horror que passaram sob o jugo comunistas. Alias, o autor, filho de hungaros, conta que para os hungaros, eles viveram tres horrores: o primeiro foi em 1300 e alguma coisa, o dominio dos mongois, uns dois seculos depois passaram 150 anos sob o domininio turco e o terceiro foi com a entrada dos russos no final da II guerra. A cidade foi saqueada, milhares de mulheres estupradas repetidamente pelo soldados russos, assassinatos.
Isso pode ter dado essa prevencao ao outro, ao estrangeiro, ao que vem de fora?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ser ou nao ser culpada, eis a questao. Sobre uma visita a Auschwitz

Foto de Alba Abreu Lima

Foto de Carla Storino
Nessa sexta feira passada, sexta-feira da paixao, estive em Auschwitz com minhas amigas Alba Abreu Lima e Carla Storino. No trem que pegamos na Cracovia, em direcao a Oswiecim, cidade do interior da Polonia onde foram construidos os Campos de Concentracao e exterminio,  já escutávamos as várias línguas do mundo.
Os poloneses fazem questao de contar, nas placas e guias que comprei la, que todas as seis aldeias, Oswiecim e arredores,  que eles, poloneses, foram transformados em prisioneiros: 60 % eram judeus e já ficaram prisioneiros do campo que ajudaram a construir e os outros 40% nao judeus continuaram prisioneiros para trabalhos forçados dos nazistas. E só depois judeus - e tambem ciganos, presos politicos, e todos os que divergiram do regime  - comecaram a chegar ao campo.
Comecamos a visita de forma errada, mas isso acabou nos dando uma logica diferente, ao final. A visita comeca com Auschwitz I, onde tem o museu e os campos de trabalho, com várias construções que foram oficinas. Em Auschwitz II- Birkenau é que eram os fornos; em Auschwitz III- Monowitz tambem. Enfim, na estação de trem, tomamos um caminho errado e perdemos de pegar o ônibus que percorria três quilometros até Auschwitz I. Assim, chegamos direto ao lugar dos fornos crematórios. Em Birkenau, os fornos crematórios foram destruídos pelos nazistas no momento final, tentando apagar a historia. Mas é simplesmente horrível chegar lá. Na entrada, os trilhos do trem se difurcam em três e as três direções vão dar na mesma: a morte. No lugar onde foram os crematórios estão as construções derrubadas, ruínas, pó e destroços da barbárie. A memória do acontecido está por tudo: nas fotos das pessoas, nas cifras dos numeros de mortos,  nas placas de homenagens.
Mas o pior veio depois, em Auschwitz I, o museu. Entrando lá, de início, os judeus nao deviam achar que morreriam. Acho que essa era uma constatação a posteriori, no dia a dia das atrocidades.
Digo isso porque na entrada tem a placa tão conhecida, pois estava em todos os campos, "o trabalho liberta", e tem arvores e muitos blocos, bem construidos, e calcadas e flores - pelo menos agora, na primavera, nao é feio. O horror é quando voce entra, vê as fotos, a história contada, os objetos pessoais, as malas com objetos pessoais dos que nunca voltaram, os cabelos das mulheres. E sobretudo o horror feito com as crianças.
Em Birkenau, ao lado das ruínas dos fornos destruídos, tem varias placas, cada uma em um idioma para que nunca esquecamos. Tem uma em português. Mas foi na placa em francês que fiz meus questionamentos. Nela tinha uma coroa de flores colocada pelo grupo de teatro de Aumonerie e pela Escola de Musica de Chateaudun. E, na placa, eles escreveram assim  em frances: tant qu il y aura des etoiles.
É a letra de uma musica, que teria mais ou menos o sentido em português: mas haverá estrelas. Por que essa letra exatamente aqui, fiquei pensando. Por que achar que diante desse real, dessa barbárie inominavel, a contemplação da natureza ameniza a dor? Por que as estrelas? Transcrevo um pedaco da letra da música ao final.
Andando sobre o sol ardente, lembrava de Elie Wiesel, Primo Levi, Jorge Semprun, Simone Veil, Viktor Frankl, Anne Frank, e sobretudo Imre Kértesz, meu escritor preferido. Alguns destes sobreviveram a Auschwitz, e outros pereceram. Ou em Auschwitz, como Anne Frank, ou nao conseguiram viver depois disso e se mataram, como Primo Levi.
Alias, Kértesz faz uma lista de todos que se suicidaram depois de sobreviverem a Auschwitz.
Segundo ele, com exceção dos que pereceram em Auschwitz, todos os demais são culpados pela sua existência. Ele mesmo, que foi para la muito jovem, passou a vida se culpando por ter sobrevivido. So recentemente mudou o teor de seus escritos. Na verdade, estou escrevendo um livro sobre isso. Falta um capitulo e estava aqui em busca de uma inspiracao para as conclusões.
Mas tambem pensava em Hannah Arendt, cuja teoria contradiz Kértesz: a culpa e individual, mesmo a responsabilidade assim o é. E dizer somos todos culpados só resulta em ninguém é culpado.
Não me sinto culpada por Auschwitz, porém somos culpados e responsáveis por cada preconceito, segregação, sentimento de inferioridade mal entendido, mal elaborado. É essa a responsabilidade de cada sujeito para que a segregação ao estrangeiro, ao vizinho que criticou, que invejou, que falou mal, nao tome proporcoes gigantescas.
Temos muito a aprender. Sempre.
Saí de Auschwitz I com uma grande curiosidade e uma pergunta, que deixo em aberto. Na entrada tinha pregada no portao um fitinha com um numero: 36377. Entendi como o número de alguém que sobreviveu ou pereceu no campo. Era uma homenagem. Em um dos pavilhoes, tinha livros e livros com os números dos prisioneiros e seus nomes. Fiquei procurando o 36377 e nao encontrei. Aliás, desisti depois do primeiro livro. Quem é o 36377? Por que nao se nomear? Por que manter esse número que foi dado pelo outro, o opressor? Eu nao respondo agora com Lacan, deixo para falar disso em outro lugar. Vou responder com uma cronica de Clarice Lispector: nao somos um numero, o ser humano é maior, é inexprimivel até mesmo em palavras, quanto mais em números.
E termino com um pouco mais da musica Tant qu il y aura des etoiles.

Escrevo isso porque Charlotte me disse para atualizar meu blog com as notícias dessa viagem. Agradeçoo a ela essa chamada.


"Vivemos com a barriga vazia e em uma rua sem fim...morremos de frio e de fome. Mas apesar de tudo temos as nossas riquezas, esse vento doce, essa noite de primavera. Tudo isso é nosso. Aqui com as estrelas. Seremos sempre felizes. Enquanto há estrelas sob as abóbadas do céu". Letra e música de Tino Rossi

Domingo de páscoa, Budapeste, 24 de abril de 2011

segunda-feira, 21 de março de 2011

A situação da Argélia, a tortura e a falta de um verão

Caros, leiam um artigo do Caderno Ilustríssima de hoje da Folha de São Paulo chamado "Morrer em fogo baixo". Foi escrito pelo argelino Smail Hadj-Ali. Hoje ele é professor da Universidade francesa de Rennes. Nesse artigo ele conta a situação da Argélia e fala de seu pai que foi preso político por quinze anos e relatou em um livro o horror da tortura que escutava, presenciava E, claro, deve ter sido submetido também. Bachir Ali, o pai, escreveu na prisão: "uma causa está perdida assim que ela é defendida pela tortura". Nesse artigo, Smail escreve: "Recusando-se a responder à barbárie com a barbárie, ele dirá, num poema escrito na prisão: "Juro sobre a angústia lenta das mulheres/Que baniremos a tortura/Que os torturadores não serão torturados".
Dias atrás assisti um episódio de um quase novo seriado americano (está começando a segunda temporada no canal Liv) chamado Blue Bloods. Tendo a frente do elenco Tom Selleck, do saudoso seriado Magnum, ele é o chefe da policia de Nova York e o patriarca de uma familia de policiais. Seu filho, detetive respeitado, em uma cena, tortura um assassino, para que ele confesse onde está a garota raptada, que é salva a tempo. Tem outros momentos desse seriado dos sangues azuis da polícia em que o lema é o mesmo: em determinados casos a tortura se justifica e vale à pena. Esse é o lema americano. Abu Ghraib está ai, muito fresca em nossa memória. Estou falando da Argélia, dos EUA, mas a marca da tortura é muito intensa na história do Brasil.

Digo isso com uma certa dor no coração, no dia em Barack Obama está no Brasil. Os que me conhecem mais sabem o tanto que sou fã dele. Desde antes dele ser presidente. Acho até mais antes que agora, fã do autor, o bom escritor, o cidadão do mundo, o viajante, o homem fruto de três continentes (contando o asiático, de seu padrasto, onde viveu anos e que sabe falar a lingua)..

A dor - menos, a decepção, direi - é que esperava que Obama fizesse mais verão do que está conseguindo fazer. Um homem não muda um país, ainda mais um homem tão atípico nesse país tão previsível. Aliás, usar para Obama o ditado "Uma andorinha não faz verão" fica descabido, andorinha é muito feminino. E acho Obama muito imponente, está mais para um Condor.

E, para finalizar, desculpem-me essa mensagem meio sem propósito nesse domingo sem sol, nublado, apagado. Tivesse um verão e eu estava fazendo outra coisa.